02. A Loba Rebelde

Stefanos

O cheiro de sangue ainda impregnava o ar. Denso. Ferroso. Familiar.

Eu estava acostumado a ele.

A guerra moldou quem eu sou. Desde jovem, fui treinado para isso, para caçar, para matar, para nunca hesitar. Enquanto outros alfas se preocupavam com política e alianças frágeis, eu me fortalecia no campo de batalha.

Minha alcateia prosperava porque eu a construí com ferro e sangue.

E foi isso que chamou a atenção do Alfa Supremo.

Aos vinte anos, recebi minha primeira ordem direta. Aos vinte e cinco, me tornei seu lobo de confiança. Hoje, aos trinta e oito, sou mais do que apenas um Alfa.

Sou seu executor. Seu cão de briga. O predador que ele solta quando quer que alguém desapareça.

E, até agora, nunca falhei.

A Alcateia Invernal já estava condenada antes mesmo de eu pisar naquele solo. Solon cavou a própria ruína, preso em sua obsessão cega, agarrando-se a rituais ultrapassados e crenças insanas.

Se as investigações estivessem corretas, ele fazia parte de um clã não reconhecido pelo Supremo, uma ramificação clandestina que operava à margem das leis das grandes alcateias.

Mas qual era a real finalidade deles?

Sacrifícios? Poder? Ou havia algo ainda maior acontecendo nas sombras?

Eu apenas acelerei o processo.

Agora, as chamas consumiam o que restava de seu território.

Solon fugiu como o covarde que sempre foi, e as mulheres que ele pretendia sacrificar estavam agora sob minha guarda. Se fossem inúteis, eu mesmo terminaria o serviço.

Mas antes, eu precisava de respostas.

E havia uma loba em especial que chamou minha atenção.

A morena que se chocou em mim.

Ela não se curvou como as outras. Não chorou, não implorou. Manteve a cabeça erguida, mesmo sabendo que estava diante de um destino incerto.

"Não achei que voltaríamos tão rápido."

A voz do motorista quebrou meu pensamentos enquanto o caminhão atravessava a estrada rumo à Alcateia Boreal.

"Nem eu." Cruzei os braços, observando as luzes da cidade se aproximando. "Não houve glória na queda da Alcateia Invernal. Já estava morta antes mesmo de eu pisar lá."

O motorista soltou um riso nasal, mantendo os olhos na estrada. "A obsessão do Alfa foi sua ruína?"

"Ele perdeu antes mesmo de lutar." Meu tom foi indiferente. "Gastou sua força perseguindo um sonho inútil enquanto o verdadeiro inimigo se fortalecia. Se focasse no que importava, talvez tivesse resistido por mais tempo."

A cidade se revelava à nossa frente. Próspera. Imponente. Minha.

Diferente das alcateias decadentes que rastejavam em crenças ultrapassadas, a minha crescia pela força e inteligência. Aqui, não pedíamos bênçãos à Deusa—nós as tomávamos.

O celular vibrou no meu bolso. Peguei-o e deslizei o dedo pela tela, vendo a mensagem piscando.

Revirei os olhos e bloqueei a tela sem responder. O Alfa Supremo queria respostas, mas só receberia quando eu estivesse pronto para entregá-las. Antes, havia algo que eu precisava resolver.

"Essas mulheres vão para a cela de interrogatório também?" O motorista perguntou, indicando a parte de trás do caminhão com um movimento de cabeça.

"Não." Passei os dedos pela barba, sentindo o incômodo crescer dentro de mim. "Vou lidar com essas de outra forma. E eu preciso de respostas."

Os sons abafados da parte traseira do caminhão chegaram até mim. Soluços contidos, respirações irregulares, murmúrios baixos carregados de medo.

Meu maxilar se contraiu. Fraqueza. Eu odiava aquele som.

O veículo reduziu a velocidade antes de parar em frente à mansão. Sem perder tempo, abri a porta e desci, sem ao menos lançar um olhar para trás.

"Levem as lobas para o salão principal."

Os guardas obedeceram sem hesitação. Atravessei o hall principal e empurrei as portas do salão, indo direto para minha cadeira. Assim que me sentei, o mordomo se aproximou, colocando um copo de whisky em minha mão.

Girei o líquido antes de levá-lo aos lábios.

"Que isso acabe logo..." murmurei para mim mesmo, virando o whisky em um único gole. Eu não estava ali por misericórdia ou curiosidade. Aceitei essa tarefa por um único motivo: garantir meu nome como sucessor do Alfa Supremo. Esse era o próximo passo. O único que importava.

As portas se abriram, e os guardas entraram, empurrando as seis mulheres capturadas para o centro do salão. As esposas de Solon.

Observei-as em silêncio. Seis esposas. Um número excessivo, inútil. Para quê? Um Alfa precisava de uma companheira forte, não de um harém de fêmeas frágeis.

Solon as acumulava como se fossem conquistas, troféus exibidos para inflar seu ego. Então por que ele as matava depois?  

Aquela dúvida era o que corroia a todos, e a única resposta que o Supremo queria. 

Me levantei devagar, deixando que o peso do silêncio preenchesse a sala. Comecei a caminhar diante delas, analisando-as com calma. Algumas se encolheram. Outras desviaram o olhar. Medo. Nenhuma delas era digna. Como um Alfa poderia querer um herdeiro de mulheres assim?

Mas então parei. Meus olhos recaíram sobre a única que não tremia.

Ela.

A loba que ainda carregava o cheiro da batalha.

Ela mantinha o olhar firme, a expressão fechada. Me encarava como se já soubesse que eu viria atrás dela. Como se estivesse esperando.

Dei a volta por trás delas, passando devagar. O som das minhas botas ecoou pelo chão. Algumas lobas soltaram pequenos gemidos e se encolheram.

Patéticas," pensei. "Por que Solon escolhia as mais frágeis? Continuei a observá-las, até que resolvi questionar.

"Que tipo de celebração eu interrompi?"

O impacto da pergunta foi imediato. Os olhos delas se arregalaram, a tensão se espalhou pelo grupo como um veneno. Todas reagiram da mesma forma. Todas, exceto ela.

Inclinei a cabeça, estudando-as. O silêncio era revelador. Não havia sequer um olhar trocado, nenhuma tentativa de justificar, nenhuma palavra dita.

Elas temiam mais Solon do que a mim.

Interessante.

Passei a língua pelos dentes, deixando o silêncio se arrastar por mais alguns segundos antes de soltar, num tom casual:

"Mesmo depois de tudo, ainda preferem ser fiéis a um Alfa sádico?"

O silêncio persistiu. Eu suspirei, balbuciando apenas uma palavra:

"Covardes."

A armadilha funcionou.

"Covardes?" A voz veio firme, carregada de raiva. A loba que eu queria caiu na minha isca.

Minha boca puxou um meio sorriso. Lá estava o fogo.

"Como podem nos chamar de covardes se acabamos de ser sequestradas de novo?"

Ela estava certa. Mas eu queria ver até onde iria.

Me aproximei, observando cada detalhe de sua expressão.

"Você não é esposa de Solon por vontade própria?" perguntei, a voz levemente divertida.

Ela riu. Uma risada curta, amarga.

"Quem, em sã consciência, seria esposa daquele maldito sabendo que, se não engravidasse em seis meses, seria morta?"

As outras mulheres desviaram os olhos.

Elas não queriam que eu soubesse disso.

Minha língua deslizou pelos dentes. Eu ri baixo, balançando a cabeça.

"Isso era um segredo, então?" Cruzei os braços, estudando os rostos delas. "Mesmo depois de eu tê-las salvado, ainda preferem se calar?" Dei um passo para trás, erguendo levemente o copo de whisky. "Vocês são ainda piores do que eu pensava."

As esposas de Solon caíram de joelhos, implorando perdão.

Eu as observei de cima, desprezando cada uma delas. Dóceis, submissas, vazias.

"Tirem todas daqui. Exceto essa."

Os guardas obedeceram de imediato. A morena permaneceu de pé.

Assim que as portas se fecharam, caminhei até ela, lento, sem pressa. Eu gostava de observar as presas antes de abatê-las.

Ergui o copo de Whiky em direção a ela antes de falar:

"Quer beber comigo?"

Ela virou o rosto. 

"Já lhe ofereci o que queria. Vai me libertar agora?"

Eu ri, inclinei a cabeça e deslizei a língua pelos lábios. 

"Você ainda está muito longe de me dar tudo o que eu quero."

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