01. O Sacrifício

Nuria

Seis meses.

Seis meses de agonia. De dor. De espera.

Seis meses de um pesadelo sem fim, onde cada dia era um lembrete de que minha existência não me pertencia mais.

O Alfa da Alcateia Invernal não era um homem. Era uma sentença.

Desde a noite em que Solon marcou minha pele com seus dentes, eu me tornei sua propriedade. Seu experimento. Seu fracasso.

Ele me trancou em um quarto, me forçou a beber seus chás, a suportar seus toques, a ouvir suas promessas doentias. Me reduziu a nada além de um ventre vazio, uma peça defeituosa no seu plano de grandeza.

E agora, meu tempo acabou.

A sentença seria cumprida.

Meus olhos estavam fechados, mas eu já sentia tudo ao meu redor.

O cheiro da terra úmida. O vento cortante da noite. As correntes frias ao redor dos meus pulsos e tornozelos. A respiração irregular das outras mulheres condenadas.

O altar estava pronto.

Eu seria sacrificada à Deusa.

Um grito cortou o silêncio.

Dessa vez, eu abri os olhos.

A dor veio de imediato. O ferro cravado em minha pele queimava, como se quisesse me lembrar de que eu ainda estava viva.

Mas não por muito tempo.

Mãos ásperas me puxaram para cima sem gentileza.

"Não!" alguém soluçou ao meu lado. Uma das outras condenadas.

Meus pés descalços rasparam no chão de pedra fria enquanto me arrastavam. A túnica branca que me forçaram a vestir grudava em meu corpo úmido de suor. Mas não importava. Nada mais importava.

Eles tinham pressa.

Então a água gelada me atingiu.

O choque foi instantâneo. O frio cortou minha pele como uma lâmina afiada, roubando o ar dos meus pulmões. Meus músculos se contraíram, e um engasgo doloroso escapou da minha garganta.

Arregalei os olhos, o corpo tremendo com a mudança brusca de temperatura. A respiração se tornou difícil, e meu coração martelou contra as costelas.

A água escorria pelo meu rosto, encharcando meus cabelos e minha túnica fina, grudando o tecido gelado contra minha pele. A lua cheia pairava acima de nós, iluminando a cena cruel como se fosse um espetáculo planejado. O altar de pedra, negro e imponente, parecia um palco à espera de seu próximo sacrifício.

"Levantem essa inútil!"

A voz grave me fez estremecer antes mesmo de ver seu dono.

Solon.

O Alfa da Alcateia Invernal. O lobo que governava pelo medo, que nunca foi contestado, que tomava o que queria sem pensar duas vezes.

Ele era um rei em um trono feito de ossos e sangue. O líder cruel que via as fêmeas apenas como reprodutoras, e os fracos como peso morto.

E para ele, eu era nada.

"Então chegou o grande momento," murmurou, estudando-me com um desinteresse cruel. "Uma pena. Você teria sido uma fêmea magnífica… se tivesse me dado um herdeiro."

Minha respiração era rasa, mas eu não desviava o olhar.

"Você é um fracasso," ele continuou, dando de ombros. "E fracassos são eliminados."

Fiquei quieta. Apenas respirei, tentando ignorar a ardência da água fria, a tremedeira no corpo.

Ele sorriu de canto. Um sorriso cruel. Ele gostava de ver o medo.

Eu sabia qual era. Todas sabíamos.

Este era o meu fim. Eu sentia nos ossos. Eu seria apenas mais um corpo ensanguentado no altar da Deusa.

Meus olhos se fixaram no altar. A pedra negra, já manchada de sangue. A adaga ritualística nas mãos do sacerdote. Quantas antes já tinham passado por esse terror.

Meu coração bateu forte. Eu tinha que fugir.

O ar cheirava a morte.

Mas, por trás disso...

Havia outro cheiro. Algo diferente. Algo perigoso.

Foi quando o primeiro grito ecoou pelo pátio.

Sangue espirrou no chão. O corpo de um dos guardas tombou com a garganta aberta.

Solon congelou. Seu olhar disparou para as sombras ao redor. Eles estavam aqui.

"Estamos sendo atacados!" alguém gritou.

Foi o suficiente para o inferno começar.

Lobos enormes emergiram da escuridão. Pelagem escura, olhos prateados brilhando como lâminas afiadas. Eles rasgavam tudo em seu caminho, destroçando guardas de Solon como se fossem folhas secas.

O cheiro de sangue tomou o ar. O altar virou um campo de batalha.

Meu coração disparou. Eu tinha que aproveitar, essa era minha chance.

Me joguei para trás, me desvencilhando do aperto de um dos soldados. Minhas pernas se moveram antes que minha mente processasse. Eu corri. Para longe. Para qualquer lugar.

Mas não fui rápida o suficiente.

Mãos fortes me agarraram pelo braço e me puxaram de volta.

Bati contra algo sólido e quente. O ar foi arrancado dos meus pulmões. Um peito largo, músculos rígidos. O cheiro de madeira queimada e tempestade me envolveu, tão forte que fez minha loba se encolher. Aquilo não era só um lobo. Era uma força inevitável.

Meu corpo congelou antes mesmo de eu erguer os olhos.

Stefanos Varkas.

O Alfa da Alcateia Boreal.

O lobo mais implacável sob o comando do Alfa Supremo.

O executor.

O cão de briga.

O predador que caçava sem hesitação.

Seu nome era um sussurro temido em cada território. Um aviso. Uma sentença.

E agora, ele estava diante de mim.

A última criatura que eu queria encontrar.

"Você vem comigo."

Minha respiração falhou. Meus olhos subiram, encontrando um par de íris prateadas e afiadas, observando-me como se já soubessem exatamente o que fazer comigo.

Eu estava livre de Solon.

Mas havia algo ainda mais perigoso à minha espera.

Agarrei o pulso do homem, minhas unhas cravando em sua pele, mas ele sequer reagiu. O rosnado que veio de seu peito ressoou como um trovão, e antes que eu pudesse protestar, meus pés saíram do chão.

Ele me jogou sobre seu ombro como se eu não passasse de um saco vazio. Me debati, chutei, tentei acertar sua cabeça, mas era inútil.

"Me solta, seu desgraçado!" gritei, batendo os punhos contra suas costas.

Nada. Ele sequer hesitou.

O pátio continuava um caos. O cheiro de carne queimada se espalhava com os incêndios começando a tomar conta do campo. Mais gritos. Mais sangue. A Alcateia Invernal estava caindo.

Fui jogada dentro de um caminhão com grades. Meu corpo bateu contra o metal frio, e eu me encolhi, ofegante, tentando processar tudo. Ao redor, outras lobas capturadas me encaravam com os olhos arregalados, algumas chorando, outras apenas em silêncio absoluto.

Mas então, ele apareceu na frente do caminhão.

Seus olhos me encontraram. Seu rosto estava sujo de sangue, mas sua expressão era impassível. Ele não era um monstro descontrolado como Solon. Ele era pior.

Porque ele estava no controle de tudo.

Um lobo se aproximou, a respiração pesada.

"Alfa, Solon escapou."

Um riso rouco escapou de seus lábios.

"Covarde."

Ele se virou para seus soldados, a voz fria e letal.

"Queimem tudo. Matem qualquer um que não se submeter à Alcateia Boreal."

O choque percorreu minha espinha. Ele não hesitou. Não perguntou. Não negociou. Apenas ordenou a destruição de uma alcateia inteira.

E então ele olhou para mim de novo.

Eu engoli em seco.

"Vamos embora." disse ele, batendo a mão no caminhão. O veículo tremeu antes de começar a se mover.

Minha respiração estava acelerada. Meu coração martelava no peito.

Eu não sabia o que era pior.

Se a morte pelas mãos de Solon...

Ou ser levada pelo Alfa Cruel da Alcateia Boreal.

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