03. Sem nome

Nuria

O salão estava em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Era sufocante, carregado, um campo de batalha onde as palavras eram lâminas afiadas, e eu sabia que a primeira a vacilar seria a primeira a sangrar.

Stefanos pegou a garrafa no aparador, encheu o copo e virou o líquido em um único gole antes de se servir de mais uma dose. O whisky queimava sua garganta, mas não tanto quanto sua paciência ao lidar comigo.

Então, me olhou.

Havia algo calculado naquele olhar. Ele me estudava não como uma mulher, mas como um enigma que ele queria desmontar peça por peça.

Apoiou-se na mesa, os dedos longos girando o copo lentamente. O whisky refletia a luz branda do salão, mas seus olhos... prateados como lâminas, prontos para cortar no momento certo.

"Vai me dizer seu nome ou quer que eu arranque de você aos poucos?"

Segurei seu olhar sem hesitar.

Não responder era minha única arma agora.

Mas ele não era do tipo que desistia facilmente.

O canto de sua boca puxou um sorriso de leve. "Acha que seu silêncio vai me cansar?" Ele bebeu outro gole, os olhos nunca deixando os meus. "Acredite, posso ser muito paciente quando quero."

"Não vejo por que isso importa para você."

Ele riu, um som rouco e carregado de diversão genuína. "E quem disse que importa? Eu apenas quero ouvir da sua boca."

Mantive a postura firme. "Eu era ninguém antes de Solon. Uma mulher sem nome, sem importância. Exatamente como sou agora."

Mentira.

Mas era o que ele queria ouvir.

Seu olhar percorreu meu rosto. Ele sabia que eu estava mentindo.

"Antes de ser esposa dele, o que você fazia?"

Minha mandíbula travou. As lembranças arderam como brasas dentro de mim. Minha família. Meu passado. A vida que Solon destruiu.

Mas Stefanos não precisava saber.

"Eu trabalhava em uma casa de família." Minha voz saiu firme. "Empregada doméstica."

Uma sobrancelha arqueada. O olhar dele se tornou mais atento.

"Hum. Trabalhando para humanos ou para uma alcateia?"

"Para uma alcateia pequena."

Ele assentiu devagar, girando o copo de whisky entre os dedos.

"Interessante."

Cada vez que ele repetia essa palavra, eu sentia como se estivesse me enforcando com minha própria mentira.

"Então sabe cozinhar?"

Hesitei. Foi rápido, quase imperceptível. Mas nada passava despercebido por ele.

"Sim."

Um sorriso surgiu no canto de seus lábios. "E costurar? Casas pequenas costumam precisar de alguém que faça de tudo."

"Um pouco."

"Hum." Ele inclinou a cabeça, os olhos me analisando com mais intensidade. "Empregadas domésticas costumam ter marcas nas mãos. Pequenos cortes, queimaduras, calos nos dedos."

Minha respiração falhou por um instante.

Por reflexo, estendi minha mão, mas assim que o fiz, percebi meu erro.

Seus olhos baixaram, e vi o momento exato em que ele notou os calos—pequenos, endurecidos nas pontas dos dedos. Exatamente onde um violinista os teria.

O olhar dele brilhou com algo perigoso.

Os dedos de Stefanos deslizaram lentamente pelo dorso da minha palma, subindo pela pele tensa. Não havia cortes, queimaduras ou sinais de trabalho pesado. Apenas os calos estrategicamente posicionados.

Calos de alguém que passava horas segurando um arco, pressionando cordas.

Ele riu baixo. "Interessante."

Eu puxei minha mão de volta antes que ele pudesse segurá-la por mais tempo.

"Delicada demais para quem passou a vida esfregando chão... mas não para outra coisa, não é?"

O sorriso dele era o de um caçador que acabava de farejar sangue.

"Eu cuidava mais da organização do que da cozinha."

"Ah, claro." Ele fingiu consideração, mas eu sabia que ele já havia encontrado a primeira rachadura na minha história.

"Então não precisava cozinhar, só organizar?"

"A família tinha quem fizesse isso."

Ele bebeu mais um gole, ainda me observando.

"E vendia alguma coisa?"

Minhas sobrancelhas franziram. "O quê?"

"Empregadas domésticas ganham um dinheiro extra vendendo tortas, pão, doces..." Ele inclinou a cabeça. "Ou talvez bordados?"

"Não."

Ele soltou um som pensativo. "Interessante."

De novo aquela maldita palavra.

"Imagino que tenha sido um choque ser levada de sua vidinha simples e jogada na cama de Solon."

Meu estômago revirou.

"Mas me diga," ele continuou, "por que uma empregada doméstica foi escolhida como esposa de um Alfa?"

O suor gelado desceu por minhas costas. Eu precisava sair dessa conversa antes que ele me fizesse tropeçar em outra contradição.

"Talvez porque ele gostava de fêmeas submissas e virgens."

Stefanos riu. Baixo. Rouco. Perigoso.

Mas seu olhar me dizia algo diferente.

"Virgem, talvez." Ele inclinou a cabeça, os olhos ardendo de malícia. "Mas submissa?"

Minha respiração travou quando ele continuou:

"Então me diga,"

Meu corpo congelou.

"Por que uma mulher tão submissa me olha desse jeito, como se estivesse pronta para enfiar as garras no meu pescoço?"

Meu sangue gelou.

Ele estava me testando. Ele sabia que minha história não fazia sentido.

Mas eu não daria mais nada a ele.

Apenas ergui o queixo, recusando-me a desviar o olhar.

E então, ele sorriu. Um sorriso predatório.

"Agora sim, ficou interessante."

"Pode tentar o que quiser, Alfa. Acho impossível alguém ser mais perverso do que Solon."

Eu evitei olhar para ele, mas falhei. O brilho de desafio nos olhos dele me prendeu antes que eu pudesse escapar.

Ele inclinou a cabeça, o sorriso permanecendo. "Se ainda está viva, e com todas as partes do corpo intactas..." Ele deslizou o olhar pelo meu corpo, sem pressa, como se estivesse confirmando cada palavra. "Então Solon não foi tão perverso assim."

O ódio queimou minha garganta. Se ele soubesse.

Existem formas diferentes de machucar uma pessoa.

E foi então que ele viu.

Os pulsos. Os tornozelos.

As cicatrizes esbranquiçadas, algumas finas e longas, outras circulares, profundas. Marcas de correntes.

Seu olhar mudou. Ele notou.

Por um instante, achei que ele perguntaria. Mas ao invés disso, bebeu o restante do whisky e se afastou da mesa.

"Ótimo," disse ele, casualmente. "Já que gosta de resistência, você terá um novo propósito enquanto estiver aqui."

Minha espinha se enrijeceu. "Ficar aqui?"

Ele abriu um meio sorriso. "Vou permitir que seja minha criada pessoal."

O choque percorreu meu corpo. "Eu vou continuar presa a você?"

"Obviamente." Ele inclinou a cabeça. "Acha que só porque não está mais na cama de Solon, está livre?"

"Achei que...que depois de tudo, eu teria minha liberdade."

"Não, querida. Você é a esposa de uma alfa procurado, enquanto ele não der as explicações ao alfa Supremo, você continua sob o meu domínio."

Meu peito subia e descia rápido, mas não cedi.

Ele se virou e caminhou em direção à porta, mas antes de sair, olhou por cima do ombro e disse:

"Aproveite seu novo lar, Submissa." Ele sorriu de lado. "Já que não quer me dizer seu nome, agora tem um escolhido por mim."

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