Saí do salão sem olhar para trás. A porta se fechou com um baque seco, selando minha decisão.
"Leve-a para os aposentos das criadas," ordenei ao guarda mais próximo. "Diga que troque essa roupa imunda e se apresente a mim vestida como uma serva."
O soldado assentiu, mas hesitou.
"Ela… vai resistir, Alfa."
Soltei um suspiro curto, passando a língua pelos dentes. Óbvio que resistiria. Ela ainda não entendia que resistência era inútil.
"Então ensine a ela," respondi, cortante. "Mas sem marcas visíveis. Ainda preciso do que ela sabe."
O guarda acenou e entrou na sala.
Eu segui pelo lado oposto.
Meus passos ecoavam pelo piso de mármore, mas minha mente estava em outro lugar.
Nas marcas dela.
As cicatrizes nos pulsos e tornozelos falavam de algo brutal, mas isso não me surpreendia. Muitas lobas capturadas carregavam cicatrizes.
O que me intrigava era outra coisa.
Os calos específicos nas pontas dos dedos.
Aquilo não era de esfregar chão.
Não era de carregar caixas, lavar roupas ou qualquer outro trabalho doméstico.
Era algo mais refinado.
Algo que exigia precisão.
Ela mentiu.
Eu soube disso no momento em que abriu a boca.
Mas agora...
Agora, eu queria saber por quê.
Fechei os olhos por um segundo.
Os olhos azuis profundos, ardendo de ódio.
A boca carnuda, sempre cerrada, como se engolisse os insultos que queria cuspir.
Minha mandíbula travou.
Isso não importava.
O que importava era descobrir quem diabos ela realmente era.
E por que Solon a escolheu.
Entrei no escritório, me jogando na cadeira de couro. Peguei o celular e disquei um número.
O telefone tocou três vezes antes que o Alfa Supremo atendesse.
"Espero que tenha informações úteis, Stefanos."
Revirei os olhos, recostando-me na cadeira. "Claro, senhor. Sempre tenho."
Ouvi sua respiração do outro lado. Curta. Carregada.
"Fale."
"Interrompi um sacrifício em massa durante a invasão à Alcateia Invernal."
O silêncio veio. Curto, mas denso.
"Sacrifício?" Sua voz baixou, tensa. "Do que está falando?"
Inclinei-me sobre a mesa, passando os dedos pela madeira escura.
"Solon estava sacrificando seis de suas esposas. O prazo delas expirou."
"Expirou?" O rosnado veio forte pelo telefone.
"Se não engravidam em seis meses, ele as mata em nome da Deusa."
Outro silêncio pesado.
"Então é assim que ele resolve sua incompetência?"
O Alfa Supremo não disfarçava o ódio em sua voz.
"É por isso que estamos perdendo fêmeas." Sua fúria era palpável, densa como uma tempestade prestes a desabar. "Sequestram lobas para substituir as que são sacrificadas. Enquanto isso, alcateias menores são dizimadas ou absorvidas por alfas desesperados, famintos por poder e por herdeiros."
Ele fez uma pausa, como se pesasse suas próximas palavras.
"E Solon não é o único." Sua voz era fria, carregada de algo pior que indignação, era certeza. A certeza de quem já viu esse ciclo se repetir. "O número de fêmeas desaparecidas está alto demais. Isso não é coincidência."
Cruzei os braços, sentindo meu lobo se agitar sob a pele. "Está me dizendo que ele não é o único fazendo isso?"
"Não." A resposta veio seca, cortante. "Mas é o mais imprudente. O mais óbvio. Um exemplo do que acontece quando alfas deixam a superstição substituir a razão."
Minha mandíbula travou. "Quantos mais estão envolvidos?"
Houve um breve silêncio antes da resposta, um peso na pausa que não me agradou.
"Ainda não sabemos o número exato." Seu tom era sombrio, carregado de implicações. "Mas posso garantir que não é só Solon."
Meu lobo rosnou, inquieto. Isso era maior do que eu pensava.
"Então não é um caso isolado." Minha voz saiu baixa, mas afiada.
"Não." Ele soltou o ar lentamente. "É um padrão."
"Exatamente."
Meu maxilar se contraiu.
"Quer que eu mate Solon?"
O Alfa Supremo hesitou por um segundo antes de responder.
"Ainda não."
Ergui uma sobrancelha.
"Isso me parece bom demais. Por quê?"
"Se você matá-lo agora, outro tomará seu lugar." Sua voz estava sombria, carregada de experiência. "E se não soubermos quem são os outros, isso vai continuar. Pode até piorar."
Ele estava certo.
"Então quer que eu cave mais fundo."
"Exato. Quero nomes."
Soltei um suspiro. "Talvez eu precise de reforço."
"Me avise."
A ligação foi encerrada.
Joguei o celular sobre a mesa, deixando a realidade se infiltrar.
Solon não era o único.
Isso não era apenas um problema da Alcateia Invernal.
Era um câncer se espalhando.
E eu precisava de provas.
Precisava de informações concretas.
E eu sabia exatamente quem poderia me dar isso.
Minha prisioneira.
Meus pensamentos foram interrompidos por uma batida na porta.
"Entre."
Assim que a porta se abriu, o cheiro dela me atingiu.
Ergui os olhos.
E lá estava ela.
Presa naquela maldita roupa cinza, reduzida a uma criada.
Mas não quebrada.
Ela me olhava como um animal encurralado, mas ainda lutando.
Os cabelos estavam úmidos, presos de qualquer jeito. O tecido simples cobria seu corpo, mas não escondia sua postura ereta.
O balde de água e os panos nas mãos eram a última peça do quadro.
A loba feroz, forçada à submissão.
O canto da minha boca puxou um sorriso.
Poucas coisas eram tão satisfatórias quanto dobrar alguém que achava que nunca se curvaria.
"Vejo que decidiu obedecer."
Os olhos dela queimavam, mas sua voz saiu controlada.
"Aparentemente, não tenho escolha."
Inclinei-me na cadeira, me deliciando com o veneno na voz dela.
"Exato."
Por um instante, nos encaramos.
E então meu lobo se agitou.
Não de raiva.
Não de irritação.
Mas de desejo.
E isso era um problema.
Para ela.
NuriaA raiva fervia dentro de mim. Segurei o balde com força, os dedos cravados no metal frio, e dei um passo para frente. Meu coração batia contra as costelas, como se minha própria existência tentasse escapar daquele inferno. Mas era inútil. Não havia escapatória para alguém como eu.E então, simplesmente... soltei.O balde caiu com um estrondo seco, a água espirrando pelo chão polido, respingando em meus pés, encharcando a bainha da vestimenta simples que haviam me obrigado a usar. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado, como se até mesmo o ar dentro daquela sala estivesse esperando para ver o que aconteceria.Stefanos se moveu. Lento, sem pressa. Ele se levantou da cadeira com a tranquilidade de um predador que sabe que a presa não pode escapar. Seu olhar prateado percorreu cada gota derramada, cada centímetro do meu rosto, e um sorriso de canto se formou em seus lábios. Um sorriso que me enfurecia."Interessante."Maldito fosse e sua mania de achar tudo interessante.Eu d
StefanosLevantei-me da cadeira com a tranquilidade de quem tem controle absoluto da situação. A presença de Johan ali já havia sido um incômodo suficiente, e eu não pretendia dar à Submissa o prazer de ouvir mais sobre os negócios da Alcateia Boreal.Ajeitei a lapela do casaco, lançando um olhar rápido para a poça de lama que Johan deixara para trás no piso perfeitamente limpo. Ótimo. Mais um motivo para fazer a loba se lembrar de sua posição."Vamos sair. Ela ainda tem serviço a fazer," declarei, sem nem olhar para ela. "Submissa, limpe essa sujeira. Agora."Não precisei ver seu rosto para saber que ela me fuzilava com os olhos. O silêncio dela, carregado de tensão, já era suficiente para me divertir.Johan riu baixinho. "'Submissa'?" Ele arqueou uma sobrancelha. "Está curtindo uns lances diferentes, tio?"Soltei um riso curto. "Apenas uma forma de educar uma loba teimosa.""Hum..." Johan olhou para ela com um interesse contido, como se estivesse tentando entender a situação.Ela man
NuriaO cheiro metálico do sangue ainda pairava no ar. Meu sangue.Mantive o dedo preso entre os lábios, o gosto ferroso do sangue se misturando ao desespero que se espalhava pelo meu peito. Meu coração martelava contra as costelas, cada batida um lembrete de que eu não podia deixar ele ver.Então, a porta se abriu.Minha respiração travou. Ele estava perto. Perto demais.Tirei o dedo da boca rapidamente, apertando-o contra a palma da mão, rezando para que o sangramento cessasse antes que ele percebesse. Antes que fosse tarde demais.Stefanos me observava com atenção. Percepção afiada. Ele não perdia nada, não deixaria um detalhe escapar. Se ele visse... se descobrisse...Não. Eu não podia deixar isso acontecer.Já tinha vivido o suficiente sob a crueldade de um alfa obcecado pelo meu sangue. Já sabia o que significava ser tratada como um troféu. Eu não suportaria passar por isso de novo."Você se machucou?"A voz dele soou baixa, arrastada, como se já soubesse a resposta.Apertei o p
StefanosO silêncio ainda pesava no escritório, denso como um fio de lâmina prestes a partir algo ao meio.Eu precisava sair dali.Minha mandíbula estava travada, minha respiração mais profunda do que deveria ser. Minha paciência nunca foi curta, mas agora... agora eu estava à beira de perdê-la.Perdê-la para uma loba rebelde.A forma como ela me desafiava, como erguia o queixo em desafio, como cada palavra que saía de sua boca carregava aquela resistência teimosa. Isso estava me deixando louco.E o pior de tudo? Meu lobo queria tomá-la.Meu corpo ainda sentia o calor da presença dela, o cheiro intoxicante que me cercava cada vez que ela se mexia. Meus dedos coçavam para puxá-la contra mim, para testar a textura da sua pele, para ver até onde ela suportaria antes de ceder.Minha visão turvou por um instante quando me imaginei fazendo exatamente isso.Ela presa contra minha mesa, os olhos arregalados de surpresa, as unhas cravadas na madeira enquanto eu tomava o que já era meu.Maldiçã
NuriaO silêncio no escritório ainda pesava sobre mim, mesmo depois que Stefanos saiu.Seu olhar ainda queimava.Meu corpo ainda sentia o calor de sua presença, e isso me irritava profundamente.Eu deveria estar feliz por finalmente estar sozinha, mas, por algum motivo, minha mente não conseguia se afastar dele.Bufei, irritada, e voltei a esfregar a prateleira com mais força do que o necessário."Esqueça. Esqueça isso."Mas era difícil ignorar a forma como ele me cercava, como se estivesse levantando um muro invisível ao meu redor.Stefanos não era como Solon. Ele era pior.Solon tomava. Ele roubava, destruía, dilacerava, sem qualquer esforço para esconder sua brutalidade. Stefanos, por outro lado, se infiltrava. Ele me enredava, me seduzia sem nem precisar tentar.E isso era muito mais perigoso.Porque Solon nunca conseguiu alcançar nada dentro de mim.Mas Stefanos... ele fazia minha pele formigar apenas com um olhar.Eu me odiava por isso.Odiava a forma como meu corpo reagia a ele
NuriaO vestido ainda estava lá.Jogado sobre a cama, como uma maldita lembrança do que eu era agora.Eu podia sentir a presença dele queimando contra minha pele, mesmo sem tocá-lo.Uma corrente invisível.Tão cruel quanto as correntes reais que já haviam marcado meu corpo.Respirei fundo, tentando manter o controle.Mas não consegui."Que merda é essa?!" O grito escapou da minha garganta antes que eu pudesse conter.Jenna, que ainda estava ao meu lado, se encolheu no susto. "O quê? O que aconteceu?""Isso aconteceu!" Apontando para o vestido, me levantando e comecei a andar de um lado para o outro, minha frustração crescendo a cada segundo. "Eu deveria estar tocando na Orquestra Nacional agora. Meus pais deveriam estar me aplaudindo! Gael deveria estar aqui, me dizendo que está orgulhoso!"Minha voz falhou, mas a raiva não. Ela crescia, borbulhava, queimava como lava viva dentro de mim."Mas não." Meu peito subia e descia, minha respiração irregular. "Em vez disso, eu estou aqui, se
StefanosEla estava atrasada.Eu já estava no limite da minha paciência.Se havia algo que eu odiava mais do que incompetência, era desaforo.Será que eu teria que buscá-la?Cruzei os braços, os músculos tensos, lutando contra o impulso de ir atrás daquela maldita loba.Mas então, antes que eu pudesse me mover, a porta lateral se abriu.E o ar simplesmente parou nos meus pulmões.Puta que pariu.Se eu achava que Nuria já era um problema antes, agora... agora eu sabia que estava realmente fodido.O vestido que haviam colocado nela era, no mínimo, pecaminoso.O tecido escuro se ajustava ao corpo dela como uma segunda pele, desenhando cada curva, cada nuance. As transparências revelavam o vale dos seios, a linha acentuada de sua cintura, a pele macia exposta nas laterais do corpo.A deusa estava me punindo.Meu pau latejou no mesmo instante.Era impossível não olhar. E eu não era um lobo que negava a si mesmo aquilo que queria.Mas ela percebeu."Meu rosto é mais pra cima, Alfa," murmurou
NuriaAs palavras dele me atingiram como uma lâmina fria."Serão enviadas de volta às suas alcateias de origem."De volta?De volta para onde?Não havia um lar me esperando. Não havia mais nada.Minha família morreu.Minha alcateia queimou.Eu não tinha um lugar para onde retornar.E, ainda assim, ele falava com aquela maldita arrogância, como se estivesse nos dando um presente. Como se estivesse me dando uma escolha.O nó na minha garganta ameaçava me sufocar. Mas eu não choraria. Não ali.Não na frente daquelas pessoas que me julgavam.E, principalmente, não na frente dele.Respirei fundo, ignorando o olhar penetrante de Stefanos.Ele se virou para a multidão. "Aproveitem a festa."O povo respondeu com gritos e aplausos. Mas eu só conseguia ouvir o rosnado do meu próprio ódio.Stefanos entregou o microfone para o homem ao seu lado e se virou, andando até onde estávamos. As esposas de Solon."Aproveitem a festa," ele disse, sua voz fria. "Mas se tentarem fugir..." Ele fez uma pausa e