— Sabe como as coisas funcionam com Enrico, primeiro ele revira sua vida com perguntas para só então assinar o contrato.
— O velhaco não perde sua astúcia, mas como sempre você fechou uma excelente negociação — felicitou-me falando com seu português arrastado.
Mamãe tentou ao longo desses anos, casada com o meu pai, ensiná- lo a falar português, e conseguiu desenrolar 50% da língua do turrão. Embora minha primeira língua seja o inglês, tenho fluência no português, uma vez que Sara, apaixonada pela sua nação, sempre fez questão de que Nick e eu tivéssemos contato não só com o solo brasileiro, mas também com suas origens latinas.
— Tudo saiu conforme o planejado — finalizei o uísque descartando o copo na mesa de centro.
— Não esperava menos de voc&e
“Um sopro, Ana”— Qual o significado dessa frase, mãe? — perguntei, tentando capturar o olhar de mamãe. — Mãe, fale comigo.Ela soltou o buquê que se espalhou no chão, olhei para os botões de rosas vermelhas descartados aos meus pés e senti medo, muito medo. Mas não podia expor aquilo a ela. Voltei para a mulher que iniciou uma procissão árdua até o sofá, sentou-se e cobriu o rosto com as mãos. Ali a fortaleza Ana se desfez, um choro doído e agudo explodiu na sala.Meu coração partiu em mil pedaços.As rosas eram o aviso excruciante dado sempre que o diabo estava prestes a ser solto. Só que daquela vez tínhamos muita coisa em jogo, tudo que conquistamos nos anos anteriores não podia ser colocado dentro de uma caixa e transportado por um caminhão para outra
Meu coração acreditou na promessa, o apertei ainda mais contra meu corpo, sentindo seus dedos deslizarem pelos meus cabelos. Inconscientemente o choro voltou, dolorido, sussurrado, medroso. David não disse nada, só me manteve ali, protegendo-me de algo que nem ele mesmo sabia o que era. Passaram segundos, minutos, nem sei, até nos encararmos.— Quer dar uma volta? — ele inquiriu. — E se você quiser me contar o que aconteceu, tudo bem.Aquiesci, sentindo a confusão que devia estar no meu rosto.— Preciso de cinco minutos.— Ok. Não vou a lugar nenhum.— Obrigada! — Meu coração agradeceu um pouco mais brando. Esforcei-me em deixar um singelo sorriso antes de correr para dentro, espiei mamãe antes de ir para o meu quarto, graças a Deus ela dormia tranquilamente. Substituí meu pijama por uma calça legging e um moletom grande que passava do bumbum, calcei meu Converse, fiz um coque desgrenhado no cabelo e peguei meu celular. Quando pisei na calçada, Dav
O aroma delicioso que planava no ar quase me fez flutuar na direção dos carros assim que nos pusemos para fora, mesmo de longe identifiquei uma diversidade culinária para todos os paladares. Novamente muito íntimo, o executivo capturou a minha mão e me conduzindo entre os veículos até escolhermos um para comer.— Esse hot dog ao molho é bem grande para uma garota fitness que correu pela manhã — ele comentou sacana ao me ver abocanhar meu dog duplo.Mastiguei, contendo um sorriso.— Primeiro: não sou fitness. Segundo: eu não almocei, então estou morrendo de fome. E olha quem fala, pensei que o senhor CMO mantinha uma alimentação regrada.Ele estreitou os olhos.— Adoro um bom fast food, não nego.— Eu também.— Mas, sim, tenho uma alimentação regrada. Uma rotina de treinos diários, mesmo com as viagens…Era visível o resultado de todo cuidado, ele era gostoso pra caralho.Limpei a garganta, minha libido não me dava trégua
— Está pronta? — perguntou Orion.— Não.Ele gargalhou debochado.— Para de rir, Orion. — Dei um tapa leve em seu ombro. — É sério, estou muito nervosa.— Aurora, está tudo certo, lembre-se, eu revisei. As informações estão corretas e você ainda adicionou comentários importantes. Relaxa, vai lá e entrega. — Tranquilizou-me enquanto apontava para a porta, olhei na direção, temendo o calabouço torturante.— Ok, eu vou…, mas tem que ser agora?— Sim. Vai, agora! — ele ordenou, depois sorriu, fazendo uma figa como sinal de sorte.Assenti e fiz o sinal da cruz antes de trilhar o trajeto até a entrada.Segunda-feira era o dia mais tumultuado no andar do Marketing, entrega de resultado e novas estratégias de vendas tomavam o cérebro da equipe, e aquele início de semana não foi diferente. Todos queriam de alguma forma mostrar serviço para o CMO que, segundo Raica — que fez questão de apurar alguns fatos —, só vinha ao Brasil uma vez por ano.Tá legal, a notícia não caiu tão bem e o café perde
— Eu topo — Orion disse animado. — Você vai, Aurora?— Não tenho certeza, mas até o final do dia aviso se eu for.— Certo. Vamos trabalhar, Aurora. Senão o Orion vai dar aquela bronca educada de sempre.— Espera, Aurora, me faz companhia num café?Franzi o cenho um pouco confusa, pois Orion me olhava meio molenga, sei lá.— Eu acabei de tomar e…— Só um? — insistiu, sorridente. — Pode ir na frente, Raica.— Opa, até mais. — Raica curvou os lábios, meio atônita e saiu. Ele fixou seus olhos em mim e os achei intensos demais para o meu gosto.— Café então? — Improvisei.— Deixa que eu sirvo você. — Manuseou a cafeteira com agilidade e eu respirei fundo. Que porra de sensação esquisita era aquela que fluía na copa? — Como foi com a Ellen?— Normal. — Dei de ombros. — Entreguei e saí sem considerações! Ela não permitiu.— Sei que está tudo certo — declarou. — Com açúcar?— Não, puro. — Ele movimentou a têmpora e me entregou a xícara. — Aurora, você… é talentosa…Num gesto inesperado, ele l
— Você está bem? — Ellen perguntou e se acomodou na cadeira da frente, me mantendo sob aqueles olhos que mais pareciam o oceano.— Sim, por que, pareço doente? — falei irritado. Porque estava irritado, muito irritado. — Os contratos — referi-me aos papéis em sua mão, esse era o motivo dela entrar na minha sala, os malditos contratos.— Ok! — Entregou os papéis. — Quer almoçar?— Não — respondi, avaliando a papelada. — Pode ir, assim que finalizar a leitura, assino e envio a você.— Tudo bem, chefe. — Ela avançou alguns passos para a porta, mas voltou-se para mim. — David, olhe para mim. — Soltei uma lufada de ar e olhei impaciente. — Quer conversar?— Não, quero ficar sozinho.Ela uniu as sobrancelhas, mas não insistiu.— Tudo bem, estou saindo.Ellen deixou a sala e eu voltei para os contratos, os malditos contratos, fiz o possível para me concentrar na papelada, contudo, nada me conectou, estava navegando em outros mares. Car
Estiquei as costas sentido um latejar na espinha. Que reunião exaustiva! Observei o andar quando escorei na minha mesa, quase vazio, deu para contar duas ou três cabeças trabalhando ainda por ali.— Aurora, partiu para o Chill? — Orion perguntou logo que me alcançou.Acentuei o olhar para a sala de David e notei a luz apagada. Talvez ele já tivesse ido embora, ou o senhor mau humor estivesse em reunião, de qualquer forma não pretendia falar com ele tão cedo.— Orion, preciso de um minuto.— Claro, te aguardo na recepção.Ele se afastou e eu liguei para dona Ana.— Alô, mãe.— Oi, bebê, está tudo bem?— Sim, a senhora ainda está no salão?— Estou, e não sei o que aconteceu, o trem aqui tá lotado, tenho uma fila de espera gigante, vou chegar tarde, então providencie seu jantar.— Mãe, vou aproveitar e sair com minha turma, amanhã iniciaremos as aulas.— Bebida?— Nada que faça eu ter um coma alcoólico,
Digamos que o andar estava um pouco agitado na manhã de terça, o trabalho parecia ter se multiplicado, pois nunca vi o povo correr tanto. Meu padrinho delegou tanto coisa que mal pude almoçar, o que fez a minha cabeça latejar ainda mais, não havia bebido igual a uma descontrolada na véspera, de modo que não compreendia a ressaca. Raica irradiava felicidade depois das carícias trocadas com Lucca. Orion, como um bom cavalheiro, não tocou no assunto e me tratou como se nada tivesse acontecido.David, porém, não entrou em contato e eu estava muito brava com o executivo para dar o primeiro passo, até porque… o que tínhamos? Ainda estava confusa com nosso envolvimento, aquela atração, afinal, David e eu éramos uma enorme interrogação. Ou na melhor das hipóteses, para ele, um joguinho de conquista.Mesmo teimosa, jurando de dedinho não me importar, meu coração espremeu com sua viagem, os últimos dias regados com sua presença trouxeram um ar de conto de fadas para minha vida,