A amiga de Ivone, que trabalhava como gerente de clientes do hotel, recebeu um pedido incomum naquela manhã. Ivone ligou para ela com urgência e pediu que apagasse as gravações das câmeras de segurança referentes à noite anterior. A amiga sorriu do outro lado da linha e respondeu:— Isso é moleza! Depois de você ter me dado aquela bolsa, claro que eu resolvo. Fica tranquila, Basílio não vai conseguir descobrir nada sobre o que aconteceu ontem.Após encerrar a ligação, Ivone terminou de se arrumar às pressas. Vestiu as roupas que estavam espalhadas pelo chão, de maneira um pouco desajeitada, e, com o coração acelerado, pegou a bolsa e saiu do quarto na ponta dos pés.Na manhã seguinte, ao amanhecer.Basílio abriu os olhos lentamente, revelando o brilho âmbar de suas íris. Ainda deitado, virou o rosto para o lado e percebeu que a cama ao seu lado estava vazia. Franziu as sobrancelhas, confuso. A lembrança da noite passada veio à tona como um borrão: em seu sonho, ele havia visto Lúcia so
Enzo aproximou-se de Basílio no momento em que ele descia as escadas. Com a voz calma e respeitosa, comentou:— Ontem o Sr. Otávio veio aqui procurá-lo. Ficou esperando por um bom tempo, mas você não voltou. Ligou para o seu celular, mas estava desligado. Quando ele foi embora, parecia bem irritado. Patrãozinho, tome cuidado para não deixar ele ainda mais bravo.— Entendido. Obrigado por avisar, tio Enzo. — Respondeu Basílio com um leve sorriso, mantendo a compostura habitual.Logo depois, Basílio foi até a garagem do casarão e escolheu o carro mais discreto entre os disponíveis. Entrou no veículo, ligou o motor e deixou os portões da propriedade da família Araújo para trás.Poucos minutos depois.O carro estacionou em frente à sede do Grupo Araújo. Basílio desceu do veículo com sua habitual elegância, trajando um terno impecável que acentuava sua postura altiva. Caminhou em direção à entrada principal, atraindo olhares de funcionários e visitantes que passavam por ali.No entanto, enq
— Não tenho tempo. — Basílio respondeu friamente, recusando sem rodeios.Do outro lado da linha, Otávio perdeu a paciência imediatamente e começou a gritar:— Basílio, você bateu a cabeça na porta, foi? Sabe quem é a garota? Você ainda tem coragem de dizer que não tem tempo? Ela é filha única do homem mais rico de Cidade B! Eu nem vi a foto dela, mas, pelo menos, feia ela não deve ser. Se a família dela sequer olha na sua cara, já é um favor! Você vai ter que conhecê-la, querendo ou não! Sou seu pai, acha que vou te prejudicar? Oportunidades como essa não aparecem do nada, sabia? Com sua sorte, nem em várias vidas você teria chance de chegar perto de uma pessoa assim.Basílio já estava acostumado com o tom sarcástico e as críticas constantes de seu pai, mas, mesmo assim, aquelas palavras ainda o atingiam como uma facada no peito.Ele, já impaciente, puxou a gravata para aliviar o desconforto e conferiu o relógio no pulso. Sem perder tempo, caminhou a passos largos até o elevador. Do o
Ivone ficou um pouco irritada:— Mãe, já falei que não vou conhecer ninguém. Não insista. Eu já tenho alguém que eu gosto. Diz para o papai parar com esses encontros arranjados. Sua filha não é qualquer uma, não sou incapaz de encontrar um homem sozinha. Por que eu precisaria de um encontro assim? Ainda quero passar mais alguns anos com vocês antes de pensar nisso.— Filha, e esse rapaz de quem você gosta? A família dele é boa? Não é alguém que se aproximou de você só por causa da nossa condição, né? Acho que seria mais seguro considerar alguém que a gente escolheu para você.— Mãe, em que século estamos? Ainda com essa história de casamento arranjado? Só de ouvir isso já fico com vontade de desligar o telefone. Estou cheia de problemas! — Ivone segurou o celular com o ombro, inclinando a cabeça enquanto pegava a xícara de café que acabara de encher.Zita suspirou, percebendo que não ia convencer a filha:— Tá bom, eu vou conversar com seu pai. Mas pense um pouco no que estamos dizendo
— Qual é o seu nome? — Basílio perguntou, ainda um tanto surpreso com o que acabara de ouvir. Ele sabia que em alguns lugares atrasados essas situações realmente aconteciam, mas não pôde deixar de perguntar mais.Iva ficou um pouco confusa com a pergunta. O crachá pendurado no pescoço dela foi pego pelos dedos de Basílio, que o levantou para ter uma visão mais clara. Ele observou a foto no crachá: uma jovem de aparência limpa, com um sorriso confiante e radiante. Era difícil imaginar que por trás de um sorriso tão brilhante pudesse existir uma história tão trágica.Mas, pensando bem, Basílio sabia que ele mesmo não era muito diferente. Seu lar de origem também havia sido um campo de batalhas emocionais.—Iva Garcia. — Ele leu o nome no crachá com sua voz firme e controlada.Então, ela se chamava Iva, uma estagiária do departamento de marketing.Ivone finalmente se deu conta de que estava usando um nome falso desde que entrou no Grupo Araújo. Mesmo assim, ela confirmou com um leve aceno
— Você está querendo morrer?Basílio lançou um olhar frio e cortante para o assistente, que rapidamente se calou e saiu do escritório sem dizer mais nada.Basílio mordeu o cigarro entre os dentes enquanto refletia. Que absurdo! Ele era um declarado adepto do "não casamento". Além disso, havia uma diferença de dez anos entre ele e Iva. Ele já sabia que nunca teria uma esposa e, se um dia tivesse, definitivamente não seria aquela garota.Ivone estava no seu posto de trabalho, distraída, trocando mensagens com sua amiga Hana.Hana enviou uma mensagem, apressada:[Menina, você não vai acreditar! A equipe de Basílio passou a manhã investigando você.][O quê?]Ivone respondeu imediatamente, tensa, os dedos tremendo enquanto digitava.Hana continuou:[O assistente dele estava perguntando quem reservou o hotel e quem o ajudou a entrar no quarto naquela noite. Eu cruzei com ele e disse que o hotel estava trocando as câmeras de segurança naquele dia e que as gravações tinham sido apagadas. Ele f
Ivone franziu a testa, incapaz de evitar o pensamento:"Empregada doméstica? Eu? Preciso disso, por acaso?"O que Basílio estava pensando? Tudo bem que ela estava fingindo ser uma pessoa humilde, mas o que ele tinha visto para imaginar que ela fosse tão pobre a ponto de precisar trabalhar como empregada?— Um pai alcoólatra, uma mãe que prefere o filho homem, um irmão solteirão e uma garota quebrada. Isso não foi o que você disse? — Basílio estreitou os olhos, olhando para ela através do vidro semiaberto do carro. Ele analisou a menina na bicicleta elétrica e soltou uma risada de escárnio. — Já esqueceu as suas próprias palavras?Com esse comentário, Ivone finalmente se lembrou. Ela tinha mesmo inventado aquela história dramática, mas sequer se lembrava das palavras exatas. Basílio, no entanto, parecia ter gravado tudo.Sim, ela havia montado todo um roteiro de vida trágica para si mesma: uma pobre coitada ignorada pela família.— Isso mesmo, Sr. Basílio, que perspicácia. O senhor é mu
Basílio levantou a cabeça, encarando Ivone com uma expressão de surpresa:— Jantar? Eu e você?Por que ela estava o convidando para jantar? A reação dele caiu como uma bomba para Ivone, que logo interpretou como se ele achasse que ela estivesse tentando conseguir algo dele. Ela sorriu, confiante, e respondeu com naturalidade:— Não, é um convite meu, Sr. Basílio. Eu quero convidá-lo para jantar.— Você quer me convidar para jantar? — Basílio repetiu a frase, devolvendo a pergunta para ela, com uma expressão incrédula. Como uma garota que ele julgava tão pobre, que supostamente trabalhava em dois empregos, poderia se dar ao luxo de convidá-lo para jantar? Ele achava que ela não fazia ideia de quanto custava um jantar no nível dele.— Por que não posso convidar o Sr. Basílio para jantar? Ou o senhor já está ocupado esta noite? — Ivone perguntou, confusa. Será que ele estava fingindo não entender? Ela já havia estendido o convite, por que ele não aceitava?— Basílio, o que você quer, afin