O homem estava deitado na cama do hospital.Tinha uma faixa branca enrolada na testa, o rosto pálido, e, sob os cílios longos e espessos, os olhos escuros pareciam ainda mais profundos.Comparado ao ar nobre e sempre imponente de antes, agora ele carregava uma certa fragilidade... Um ar de quem estava quebrado por dentro.Juliana não conseguiu evitar de lembrar da última frase que Bruno disse antes de desmaiar:“Não tenha medo, eu estou aqui.Com aquelas palavras ainda ecoando em sua mente, alimentar Bruno com pedaços de maçã parecia algo pequeno demais para se negar.Ela cortou a fruta em pedacinhos e, com um garfinho, levou até a boca dele.Bruno ainda estava fraco, mal conseguia comer direito.Mesmo com a insistência dele, Juliana se manteve firme, não deixaria que exagerasse.No fim, Bruno cedeu, contrariado.Ela acabou comendo a metade que sobrou da maçã, devagar, mordida por mordida.Alguns minutos depois...Juliana lavou as mãos e voltou a se sentar ao lado da cama.A curiosidad
Mesmo após vários dias de investigação, ainda não tinham encontrado nenhum indício concreto.O motorista que causou o acidente morreu na hora.O laudo da autópsia foi claro, ele estava dirigindo completamente bêbado.E sua vida… Era simples ao extremo.Órfão de pai e mãe, recluso, sem amigos na Cidade A, morava num porão úmido e infestado de ratos.Com alguém como Bruno, um verdadeiro queridinho do destino, ele não tinha absolutamente nada em comum.Muito menos qualquer motivo para inimizade.Bruno estreitou levemente os olhos.Lá no fundo, ele já tinha um nome na cabeça.— Tinha um cara no instituto… Se chamava André — Disse, com a voz calma. — Roubou dados de pesquisa e fugiu. Na última vez que viajei pro exterior, foi por causa disso.Chegaram a pegá-lo e deram o devido recado.Mas depois, numa brecha, André escapou de novo.Segundo os relatórios da investigação, ele tinha uma ligação bem próxima com Viviane.Se o acidente realmente tivesse dedo dele… Então não havia dúvida, André e
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.A pergunta de Maia realmente pegou Juliana de surpresa.A tal confusão de memória do Bruno... Era verdade mesmo, ou só fingimento?Se fosse fingimento, por que ele escolheria mentir justamente para ela?O silêncio se prolongou, e Maia ficou impaciente.— Ju? Tá me ouvindo?— Estou, sim. — Juliana respondeu, voltando à realidade.Mas, na verdade, sua mente estava uma bagunça.Ela sinceramente ainda não sabia como responder àquela pergunta.Era tudo confuso demais.Pra evitar que Maia insistisse no assunto, Juliana desviou rapidamente:— A Sarah ainda tá indo aí no escritório?Atualmente, a família Rodrigues vivia um verdadeiro caos.O caso de traição do Raul já estava mais que confirmado.Quanto ao suposto filho fora do casamento, por enquanto, era só suspeita, sem provas concretas.E Raul, claro, não admitiria jamais.Pelas leis atuais, se Sarah entrasse com pedido de divórcio, ele sairia como o culpado.Na hora de dividir os bens... O pr
Ela se remexeu no sofá, tentando encontrar uma posição mais confortável. Estava entediada e, por impulso, baixou o aplicativo da plataforma onde a Viviane fazia lives. Entrou só para dar uma espiada.Na transmissão, Viviane aparecia toda produzida, com a maquiagem impecável. Ao fundo, uma fileira de estantes luxuosas compunha o cenário, dava para ver que o estilo dela tinha ficado bem mais refinado.Algo tão fora do comum só podia ter alguma jogada por trás.Com certeza tinha alguém por trás disso, dando as cartas.Juliana não acreditava nem por um segundo que Viviane, que, na visão dela, mal tinha meio cérebro, tivesse sido capaz de bolar essa estratégia sozinha.Na cabeça de Juliana, Viviane sempre foi mão de vaca ao extremo.Talvez fosse um reflexo da forma como cresceu, sempre obcecada por dinheiro, controlando cada centavo.Mesmo depois de ser oficialmente reconhecida pela família, esse defeito nunca a deixou.Na época em que Juliana foi expulsa da família Rodrigues, e ainda teve
Juliana ficou sem palavras.Bruno, com aquela memória embaralhada e seu jeito nobre e contido... Estava claramente desmoronando.Ele a chamou de “amor” por mensagem e, mesmo sendo só um texto, na cabeça de Juliana soou como se tivesse escutado a voz dele em alto e bom som.Por um momento, sua expressão perdeu a naturalidade.Ainda nem tinha decidido o que responder, quando o celular começou a vibrar, Bruno estava fazendo uma chamada de vídeo.Juliana trocou rapidamente para câmera traseira antes de atender.A imagem balançou um pouco e, logo, o rosto pálido e bonito de Bruno apareceu na tela.Dessa vez, Juliana estava mais calma. Depois da última experiência, já não se abalava tanto.“Aquela cara… Acho que já estou imune”, pensou.— Amor. — Disse ele, com a voz rouca e grave, que ecoou suavemente pela sala ampla.Lá fora, o vento soprava forte, as ondas batiam com violência, e os arranha-céus cintilavam sob as luzes de neon.Juliana ignorou o aperto estranho que sentiu no peito.Respon
Bruno encarava o registro da chamada de vídeo, quase uma hora de conversa, com um leve sorriso nos lábios.Seus cílios longos projetavam uma sombra delicada sob os olhos, acentuando ainda mais o ar introspectivo.Com a mesma precisão de sempre, ele fez uma captura de tela. Recortou o nome da outra pessoa da imagem… E postou nos stories.[Boa noite. [Foto]]Desde a última vez que tinha postado algo, não fazia nem um mês.Para qualquer pessoa, isso pareceria normal… Mas estávamos falando do Bruno.Nos primeiros trinta anos de vida, ele nunca postava nada.Desde que conheceu Juliana, isso mudou, e mudou bastante.O primeiro a comentar foi Thiago:[Thiago: Videochamada com minha cunhada? Que avanço rápido, hein?! Não esperava menos do mestre Bruno.][Paulo: Alguém vai sair de coração partido…][Vitor: Agora entendi porque a Ju não atendeu minha ligação. Estava em vídeo contigo, né? Mas olha só, da próxima avisa antes, deixa ela terminar uma partida comigo! Estou no fim da temporada, precis
Assim que aquelas palavras foram ditas, o ambiente inteiro caiu num silêncio absoluto.O tiozinho estava de olho na noiva do sobrinho?É assim que as famílias ricas brincam?A chama da fofoca ardia intensamente, quase todos prestavam atenção em silêncio, mesmo mantendo a expressão impassível.Gustavo semicerrava os olhos, perigosamente.André percebeu a reação ao redor e ficou satisfeito.Se recostou na cadeira com arrogância, com aquela postura irritantemente provocadora, como se fosse dono da situação.— Sr. Gustavo, o senhor sabe… Eu trabalhei no laboratório do seu tio-avô. Era um dos membros principais. Sabia de muita coisa. Coisas que ninguém imagina, eu sei de tudo.Claro que Gustavo sabia.Desde o início das negociações com André, ele já tinha mandado investigar.As informações fáceis de encontrar, na maioria das vezes, eram justamente aquelas que queriam que você veja.O que realmente importava, o que estava escondido, deu trabalho para descobrir.No começo, ele nem fazia ideia
Na memória de Gustavo, Juliana e Bruno não tinham sequer como se cruzar na vida.Por causa do noivado arranjado entre a família Rodrigues e a família Costa, ele e Juliana tinham crescido juntos desde pequenos.Ele sabia exatamente com quem ela se encontrava, quem eram seus amigos, com quem conversava.Bruno, por outro lado, passou anos no exterior, mergulhado em pesquisa científica.Raramente voltava ao país.E mesmo quando aparecia, era sempre algo tão breve e corrido que logo partia de novo.Juliana simplesmente não teria tido a chance de se aproximar dele.Mas…De repente, um clarão cortou os pensamentos de Gustavo, como se uma lembrança esquecida viesse à tona.Durante a faculdade, Juliana havia feito um intercâmbio.E, se ele não estava enganado, o destino era justamente o país A, o mesmo onde Bruno morava na época.André continuou:— Antes de sair do instituto, cheguei a ir ao escritório do Bruno. Na mesa dele, tinha uma moldura com a foto de uma garota. Só percebi quando voltei