Capítulo 8

~NICOLAS~

Eu sabia que estava tarde, mas não conseguia deixar de continuar. O prédio estava vazio, com exceção dos poucos resquícios de funcionários que ainda estavam em seus escritórios. Eu estava sozinho, como sempre. O cansaço, no entanto, parecia me consumir mais a cada dia. Depois de três anos à frente do Grupo Sartori, a pressão não diminuía. Eu tinha cumprido minha promessa de reerguer a empresa após a morte do meu irmão gêmeo Enrico, mas o peso da responsabilidade me esmagava como se fosse o primeiro dia.

A falência ainda era uma cicatriz visível, e o medo de um erro fatal nunca me deixava. Mas o trabalho, os números, as negociações, eram tudo o que me restava para me manter de pé.

A noite se estendia à minha frente e eu me encontrava sozinho em minha sala, quase inconsciente do tempo que passava. Apenas a luz do monitor iluminava a escuridão ao meu redor. Mas, então, algo me tirou da rotina monótona. A silhueta de uma mulher atravessava o corredor vazio. Ela estava coberta por plumas e paetês, completamente encharcada pela chuva. Pisquei, confuso, tentando entender o que via.

Ela era bonita. Mesmo à distância, dava para perceber, mas o que me intrigava mais era o fato de ela estar ali, daquele jeito, como se fosse um fantasma ou uma visão bizarra no meio da noite. O que ela estava fazendo naquele prédio, a essa hora? O que a trazia até aqui?

Dei uma risada curta e voltei minha atenção para o monitor à minha frente.

— Alucinações, é isso que me faltava agora — murmurei para mim mesmo. Mas pelo menos era uma visão agradável.

Ainda assim, não conseguia tirar a imagem da cabeça. Voltei a me concentrar nos relatórios, mas o som de uma porta batendo ecoou pelo prédio. Era a porta das escadas que levavam ao terraço. Um calafrio percorreu minha espinha. Ou minha "visão" era real demais para ser só cansaço... ou algo estava acontecendo.

Deixei o copo do whisky que bebia sobre a mesa e me levantei devagar, tentando absorver a estranheza do que acabara de acontecer. A lógica dizia que não fazia sentido uma mulher como aquela estar vagando por aqui àquela hora. Mas o instinto me dizia que eu deveria verificar.

Atravessei o corredor em direção à porta que levava ao terraço. Assim que abri, o vento gelado e a chuva pesada me atingiram com força. O som das gotas batendo no concreto era quase ensurdecedor, e a luz fraca dificultava enxergar à distância. Mas quando meus olhos se ajustaram à escuridão, vi a silhueta dela. A mesma mulher de antes. Ela estava no terraço, de costas para mim, e seu corpo pendia perigosamente além da grade de proteção.

O choque me congelou por um segundo.

Ela estava tentando se matar.

O pensamento me atingiu como um soco. A adrenalina tomou conta, e antes que eu pudesse processar mais, me ouvi gritando:

— Não! Não faça isso!

Ela não reagiu de imediato. A chuva caía tão forte que as gotas escorriam pelo meu rosto e encharcavam minhas roupas em segundos, mas nada disso importava. Ela estava pendurada na grade, pronta para dar o passo final. Meu coração batia tão rápido que eu mal conseguia ouvir meus próprios pensamentos. Não sabia quem ela era, o que estava acontecendo, mas nada disso importava agora.

Avancei pelo terraço, tentando não fazer movimentos bruscos, me aproximando o máximo que podia sem assustá-la. Ela ainda não havia se mexido. A cabeça estava inclinada para frente, os cabelos grudados no rosto molhado, e seu corpo parecia prestes a ceder ao peso da queda.

Eu precisava agir rápido.

— Por favor, desça daí — implorei, sentindo minha voz sendo levada pelo vento. — Seja o que for que está te levando a fazer isso, não vale a pena.

Estava perto o suficiente agora para ver o tremor em suas mãos enquanto segurava a grade. Ela parecia tão frágil, tão quebrada, e, por algum motivo, aquela imagem mexeu comigo de uma maneira que eu não esperava. Havia algo nela, algo no modo como seu corpo pendia, como se já estivesse à beira do abismo há muito tempo.

Sem pensar, subi na mureta, o vento e a chuva tornando cada movimento mais arriscado, e segurei-a firmemente pela cintura. Ela se assustou com a proximidade, o corpo se encolhendo em resposta ao meu toque. De repente, ela se desequilibrou violentamente, seus pés escorregando na borda, mas, por sorte, eu estava segurando-a com força.

— Eu não vou te soltar — sussurrei com a voz firme, tentando tranquilizá-la. — Me dê sua mão. Vou te ajudar a voltar para a segurança.

Ela hesitou. Podia ver em seus olhos a batalha interna, como se estivesse ponderando se valia a pena viver, se o esforço de voltar para o lado seguro da vida realmente faria alguma diferença. O silêncio entre nós era pesado, o som da chuva e do vento envolvia tudo, mas nada parecia mais urgente do que aquele momento.

Finalmente, ela estendeu a mão, os dedos trêmulos encontrando os meus. Puxei-a para mais perto, ajudando-a a passar para o lado seguro da grade. O alívio momentâneo foi interrompido quando, ao tentar descer da mureta, seu corpo frágil se desequilibrou de novo. Só que dessa vez, eu não estava preparado. Meu próprio equilíbrio falhou, e caí para trás, sentindo o chão duro contra minhas costas. No entanto, ela caiu junto comigo, seu corpo pequeno e encharcado aterrissando em cima de mim.

Por um segundo, tudo parou. O peso dela contra mim, a chuva caindo ao nosso redor, o som abafado das gotas batendo no concreto... Eu a senti tão próxima que meu coração disparou, e uma onda de atração me atingiu como um choque elétrico. Aquela mulher, com os olhos ainda perdidos e a respiração ofegante, era ao mesmo tempo vulnerável e inacreditavelmente atraente.

Eu sabia que não era apenas o fato de tê-la salvado. Havia algo mais acontecendo. Algo que mexia comigo de uma forma que eu não conseguia entender, mas que me envolvia por completo.

O que estava acontecendo? Quem era ela e por que mexia tanto comigo?

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