~NICOLAS~
Eu sabia que estava tarde, mas não conseguia deixar de continuar. O prédio estava vazio, com exceção dos poucos resquícios de funcionários que ainda estavam em seus escritórios. Eu estava sozinho, como sempre. O cansaço, no entanto, parecia me consumir mais a cada dia. Depois de três anos à frente do Grupo Sartori, a pressão não diminuía. Eu tinha cumprido minha promessa de reerguer a empresa após a morte do meu irmão gêmeo Enrico, mas o peso da responsabilidade me esmagava como se fosse o primeiro dia.
A falência ainda era uma cicatriz visível, e o medo de um erro fatal nunca me deixava. Mas o trabalho, os números, as negociações, eram tudo o que me restava para me manter de pé.
A noite se estendia à minha frente e eu me encontrava sozinho em minha sala, quase inconsciente do tempo que passava. Apenas a luz do monitor iluminava a escuridão ao meu redor. Mas, então, algo me tirou da rotina monótona. A silhueta de uma mulher atravessava o corredor vazio. Ela estava coberta por plumas e paetês, completamente encharcada pela chuva. Pisquei, confuso, tentando entender o que via.
Ela era bonita. Mesmo à distância, dava para perceber, mas o que me intrigava mais era o fato de ela estar ali, daquele jeito, como se fosse um fantasma ou uma visão bizarra no meio da noite. O que ela estava fazendo naquele prédio, a essa hora? O que a trazia até aqui?
Dei uma risada curta e voltei minha atenção para o monitor à minha frente.
— Alucinações, é isso que me faltava agora — murmurei para mim mesmo. Mas pelo menos era uma visão agradável.Ainda assim, não conseguia tirar a imagem da cabeça. Voltei a me concentrar nos relatórios, mas o som de uma porta batendo ecoou pelo prédio. Era a porta das escadas que levavam ao terraço. Um calafrio percorreu minha espinha. Ou minha "visão" era real demais para ser só cansaço... ou algo estava acontecendo.
Deixei o copo do whisky que bebia sobre a mesa e me levantei devagar, tentando absorver a estranheza do que acabara de acontecer. A lógica dizia que não fazia sentido uma mulher como aquela estar vagando por aqui àquela hora. Mas o instinto me dizia que eu deveria verificar.
Atravessei o corredor em direção à porta que levava ao terraço. Assim que abri, o vento gelado e a chuva pesada me atingiram com força. O som das gotas batendo no concreto era quase ensurdecedor, e a luz fraca dificultava enxergar à distância. Mas quando meus olhos se ajustaram à escuridão, vi a silhueta dela. A mesma mulher de antes. Ela estava no terraço, de costas para mim, e seu corpo pendia perigosamente além da grade de proteção.
O choque me congelou por um segundo.
Ela estava tentando se matar.
O pensamento me atingiu como um soco. A adrenalina tomou conta, e antes que eu pudesse processar mais, me ouvi gritando:
— Não! Não faça isso!
Ela não reagiu de imediato. A chuva caía tão forte que as gotas escorriam pelo meu rosto e encharcavam minhas roupas em segundos, mas nada disso importava. Ela estava pendurada na grade, pronta para dar o passo final. Meu coração batia tão rápido que eu mal conseguia ouvir meus próprios pensamentos. Não sabia quem ela era, o que estava acontecendo, mas nada disso importava agora.
Avancei pelo terraço, tentando não fazer movimentos bruscos, me aproximando o máximo que podia sem assustá-la. Ela ainda não havia se mexido. A cabeça estava inclinada para frente, os cabelos grudados no rosto molhado, e seu corpo parecia prestes a ceder ao peso da queda.
Eu precisava agir rápido.
— Por favor, desça daí — implorei, sentindo minha voz sendo levada pelo vento. — Seja o que for que está te levando a fazer isso, não vale a pena.
Estava perto o suficiente agora para ver o tremor em suas mãos enquanto segurava a grade. Ela parecia tão frágil, tão quebrada, e, por algum motivo, aquela imagem mexeu comigo de uma maneira que eu não esperava. Havia algo nela, algo no modo como seu corpo pendia, como se já estivesse à beira do abismo há muito tempo.
Sem pensar, subi na mureta, o vento e a chuva tornando cada movimento mais arriscado, e segurei-a firmemente pela cintura. Ela se assustou com a proximidade, o corpo se encolhendo em resposta ao meu toque. De repente, ela se desequilibrou violentamente, seus pés escorregando na borda, mas, por sorte, eu estava segurando-a com força.
— Eu não vou te soltar — sussurrei com a voz firme, tentando tranquilizá-la. — Me dê sua mão. Vou te ajudar a voltar para a segurança.
Ela hesitou. Podia ver em seus olhos a batalha interna, como se estivesse ponderando se valia a pena viver, se o esforço de voltar para o lado seguro da vida realmente faria alguma diferença. O silêncio entre nós era pesado, o som da chuva e do vento envolvia tudo, mas nada parecia mais urgente do que aquele momento.
Finalmente, ela estendeu a mão, os dedos trêmulos encontrando os meus. Puxei-a para mais perto, ajudando-a a passar para o lado seguro da grade. O alívio momentâneo foi interrompido quando, ao tentar descer da mureta, seu corpo frágil se desequilibrou de novo. Só que dessa vez, eu não estava preparado. Meu próprio equilíbrio falhou, e caí para trás, sentindo o chão duro contra minhas costas. No entanto, ela caiu junto comigo, seu corpo pequeno e encharcado aterrissando em cima de mim.
Por um segundo, tudo parou. O peso dela contra mim, a chuva caindo ao nosso redor, o som abafado das gotas batendo no concreto... Eu a senti tão próxima que meu coração disparou, e uma onda de atração me atingiu como um choque elétrico. Aquela mulher, com os olhos ainda perdidos e a respiração ofegante, era ao mesmo tempo vulnerável e inacreditavelmente atraente.
Eu sabia que não era apenas o fato de tê-la salvado. Havia algo mais acontecendo. Algo que mexia comigo de uma forma que eu não conseguia entender, mas que me envolvia por completo.
O que estava acontecendo? Quem era ela e por que mexia tanto comigo?
~AYLA~Meus olhos estavam fixos no homem abaixo de mim, e, por mais que eu quisesse me mover, ele segurava minha cintura com tanta força, puxando-me contra ele, que qualquer tentativa de escapar parecia impossível. Um arrepio percorreu meu corpo, mas eu não sabia dizer se era devido ao frio ou pela forma como nossos corpos se tocavam de maneira tão íntima e inesperada.Ele era alto, com ombros largos e braços fortes. Seu rosto era angular, de traços marcantes, com uma mandíbula firme e bem definida. Os olhos, de um azul profundo, transmitiam uma frieza impenetrável, mas eram intensos o suficiente para prender qualquer um que se atrevesse a encará-los por muito tempo. O cabelo escuro, encharcado pela chuva, e a barba cerrada davam a ele um ar de mistério e poder.De onde eu conhecia aquele homem? Era possível que fosse da boate? Eles eram sempre de lá, não eram?De repente, uma pontada aguda explodiu na minha cabeça, como se algo tivesse sido arrancado à força do meu cérebro. Eu gemi b
Voltar para a boate parecia mais automático do que uma escolha consciente. A chuva já não era mais uma distração, apenas um incômodo que me lembrava que eu ainda estava viva. Quando atravessei a entrada dos bastidores, nem percebi que havia passado tanto tempo fora. Tudo parecia exatamente como eu tinha deixado. O barulho, as luzes, o cheiro de perfume barato. Nada mudava ali, nunca.Lorenzo estava esperando. Seu olhar fulminante me encontrou antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa. Ele cruzou os braços e deu alguns passos na minha direção, o som de seus sapatos ecoando pelo chão.— Nyx, você faz ideia do prejuízo que me causou hoje? — ele começou, a voz carregada de irritação. — Você saiu no começo da noite, faltou suas performances solo, e eu perdi dinheiro por causa disso! O que você acha que estamos fazendo aqui? Caridade?Eu tentei falar, mas ele me cortou antes que eu pudesse.— Não, porque aqui a única coisa que importa é o dinheiro! — Lorenzo continuou, gesticulando de
~NICOLAS~A pena branca, um dia presa a uma roupa de dançarina de cancã, girava entre meus dedos, subindo e descendo em movimentos calculados enquanto eu encarava o vazio. Era um gesto repetitivo, quase hipnótico, e o único pensamento que parecia me prender à realidade era Nyx. Desde o momento em que nossos caminhos se cruzaram naquele terraço, eu não conseguia tirá-la da cabeça. Sua presença se misturava com a sensação fria da chuva e o cheiro de desespero que parecia cercá-la. Algo nela havia me desestabilizado de uma forma que eu não esperava, e essa obsessão estava começando a me consumir de um jeito que eu não conseguia entender.A pena continuava entre meus dedos, o único resquício físico daquela noite. Era uma lembrança tão frágil quanto ela parecia ser naquele momento, pendendo à beira do abismo, enquanto eu, com uma estranha urgência, me apressava para salvá-la. Não sabia por que isso importava tanto, mas, de alguma forma, ela se tornara parte dos meus pensamentos mais profun
~AYLA~Lorenzo estava mais animado do que eu jamais havia visto. Seus olhos brilhavam com uma intensidade quase infantil, mas em vez de me contagiar, aquilo só me deixava desconfortável. Ele gesticulava freneticamente enquanto falava sobre os planos para o próximo sábado, a empolgação em sua voz beirando o exagero. Eu o observava à distância, recostada na cadeira do camarim, com os dedos entrelaçados no colo. Meus olhos vagueavam pelo espelho à minha frente, fixando-se em um reflexo que parecia estar em outro mundo, enquanto a sua energia invadia o espaço, preenchendo o pequeno camarim com algo que eu não sabia como lidar.A empolgação dele deveria me tranquilizar, talvez até me dar uma dose de confiança, mas, na verdade, só me fazia sentir ainda mais deslocada. Ele via tudo aquilo como um jogo, algo emocionante e lucrativo, enquanto para mim, era apenas uma questão de sobrevivência. A luta diária para lidar com o vazio dentro de mim parecia cada vez mais difícil de suportar, e Lorenz
O céu ainda estava começando a clarear quando Teri e eu finalmente chegamos em casa, depois de mais uma longa noite de domingo na boate. O silêncio das ruas contrastava com a agitação dos nossos corpos exaustos, e tudo o que eu queria naquele momento era um banho quente e minha cama. Meus pés doíam, e o cansaço pesava em cada músculo. Estava difícil até manter os olhos abertos.Enquanto nos aproximávamos da portaria do prédio, notei Vanessa e Raul conversando em voz baixa. Vanessa era minha vizinha, mãe solteira de dois filhos pequenos, sempre correndo para equilibrar a vida e o trabalho. Raul, o porteiro, era uma presença constante e tranquila, sempre com um sorriso no rosto, mas naquela manhã, ele parecia um pouco mais sério que o normal.Por mais que os adorasse, eu estava tão cansada que suspirei, desejando poder simplesmente passar por eles sem que nada fosse dito, mas Vanessa foi rápida em nos notar.— Vocês já sabem da novidade? — ela perguntou, a voz carregada de uma mistura d
~ NICOLAS ~A semana foi uma sucessão de dias iguais, onde o relógio parecia avançar sem que eu realmente estivesse presente. O trabalho deveria ter sido o foco, especialmente com a competição acirrada contra Letícia pela área promissora que estávamos disputando. A região era estratégica, com potencial para uma expansão imobiliária de alto nível, e eu sabia que a vitória nesse negócio consolidaria ainda mais o nome do Grupo Sartori no mercado. Sem contar que eu sabia que Enrico estava trabalhando em algo ali antes de... antes de acabar com tudo. Letícia, por sua vez, já estava se movendo rápido, negociando diretamente com alguns dos proprietários. Eu deveria estar à frente, cuidando de cada detalhe, planejando cada movimento, mas a verdade era que minha mente estava longe dali.Nyx.Por mais que eu tentasse focar nos contratos, nas reuniões com os investidores e nos relatórios, a imagem dela continuava surgindo, invadindo meus pensamentos de maneira implacável. Não era só a beleza del
~AYLA~O camarim, que geralmente era o meu refúgio, um lugar onde eu me preparava em silêncio antes de cada apresentação, parecia mais apertado e sufocante naquela noite. O ar, normalmente denso com o cheiro de perfume e maquiagem, parecia pesar ainda mais sobre meus ombros. As luzes acima do espelho, que sempre me ajudavam a focar, agora pareciam fortes demais, quase cegantes. Minhas mãos tremiam levemente enquanto eu passava o batom vermelho escuro nos lábios — uma máscara que tentava me convencer de que eu estava no controle, de que poderia encarar o que estava por vir. Mas, por dentro, eu sabia que estava longe disso. O peso da decisão que havia tomado tornava cada movimento mais difícil. O batom, que antes era um símbolo de confiança e poder, agora parecia uma pintura sobre a insegurança que me consumia.— Estou nervosa, Teri — admiti, olhando para ela através do espelho, minha voz soando mais frágil do que eu gostaria.Teri, sentada ao meu lado enquanto retocava sua maquiagem, e
~ NICOLAS ~Assim que Nyx saiu do palco, minha decisão estava tomada. Eu não podia mais esperar. Cada segundo que passava, sentia a necessidade de ir até ela, como se algo dentro de mim estivesse me impulsionando para a frente, para uma escolha que eu mal entendia. Minhas pernas se moveram quase por conta própria, seguindo o caminho que a moça havia me indicado quando falou sobre a agenda de Nyx. O peso daquela decisão crescia em cada passo, mas eu não conseguia mais lutar contra isso. Ela havia se infiltrado em meus pensamentos de uma forma que nenhuma mulher jamais conseguiu.Quando cheguei ao fim do corredor, encontrei um homem sentado atrás de uma mesa. Ele não parecia se importar com as pessoas à sua frente, apenas com o dinheiro que estava prestes a ganhar. O sorriso em seu rosto, largo e quase presunçoso, era o reflexo de uma noite lucrativa. Eu observei a pequena fila que se formava na minha frente, enquanto meus pensamentos se aceleravam. Havia algo de desconcertante em estar