O sol de fim de tarde inundava o carro de Pedro enquanto ele nos levava até a academia de dança, as ruas da cidade deslizavam pelo vidro como uma paisagem desfocada. Teri e eu permanecíamos em um silêncio incomum, o rádio tocava uma música qualquer ao fundo, quase abafada, enquanto meus pensamentos ecoavam, presos nas camadas mais profundas da minha mente. O mundo parecia distante, como se estivéssemos isoladas da realidade, cada uma perdida em suas próprias preocupações. O movimento suave do carro não ajudava a aliviar o peso no meu peito.De repente, Teri quebrou o silêncio, virando-se para mim com uma expressão curiosa e um sorriso ligeiramente provocador.— Ainda não acredito que estamos indo atrás da sua ex-melhor amiga que se casou com o seu ex-marido... Isso parece coisa de novela, Ayla.— Uma novela bem nojenta — Pedro completa.Suspirei, sentindo o peso dessas palavras se acomodar no fundo do meu estômago. A indignação ainda queimava em mim. Não era nem o fato de Miguel ter s
A semana tinha sido tão desgastante, que era estranho encontrar algum conforto na boate. Mas a excitação de ver Nicolas na plateia me dava um tipo estranho de animação. Não sabia explicar, mas sempre que ele estava lá, eu sentia algo que me fazia querer agradá-lo, sem saber ao certo por quê.O som de meus saltos ecoava pelas escadas enquanto eu subia em direção ao quarto, ainda sentindo a energia da performance se dissipando lentamente do meu corpo. Quando abri a porta, porém, algo dentro de mim congelou. Lá estava ele, tão imponente quanto sempre. Quando ele me viu, seus olhos brilharam de uma maneira que me fez sentir desconfortável. Eu nunca sabia como agir diante dele, não quando ele me observava com aquele olhar que parecia me ver além do que eu realmente era.Sem dizer uma palavra, ele caminhou até mim com dois copos na mão, oferecendo um com um sorriso discreto. Eu peguei o copo, sem pensar, e virei a bebida de uma vez só. O álcool queimou minha garganta, aliviando a tensão, ma
O ambiente da reunião de condomínio era o oposto do que Teri e eu precisávamos naquele domingo de manhã. A sala estava abafada, as cadeiras de plástico incomodando, e o som da voz de Senhor Mendonça, o dono do nosso prédio, era monótona demais. No entanto, nos sentamos no fundo, longe dos olhares dos outros moradores, e começamos a fofocar, como boas amigas.Eu não conseguia conter a risada enquanto contava a Teri sobre a noite anterior com Nicolas. Quando pedi para ele ficar, não sabia ao certo o que esperar. Nicolas ficou, como se, de repente, algo mais íntimo estivesse acontecendo entre nós. Ele fez algo que eu não esperava: desligou a música, pegou o controle remoto e, com um sorriso, sugeriu que assistíssemos a algo na televisão.Eu olhei para ele, sem entender, e ele, quase de forma debochada, comentou que queria fazer algo "normal", como qualquer outra pessoa faria numa noite sem compromisso. Com o ritmo da boate e o jogo de poder entre nós, aquilo parecia surreal. Mas, ao mesm
~NICOLAS~A reunião estava em andamento há mais de uma hora, mas minha mente estava distante, os olhos fixos no mapa projetado na tela à minha frente, embora eu mal prestasse atenção. O que Ricardo estava dizendo soava distante, uma melodia monótona que eu ouvia sem ouvir, uma mistura de números e áreas no gráfico que não conseguiam despertar meu interesse. Eu sabia que ele estava falando sobre a compra dos imóveis da área que estávamos planejando desenvolver, a região que estava, como dizem, “em ascensão”. Um projeto de condomínios de luxo, hotéis e shoppings. Mas, em meio àquelas discussões sobre terrenos e propostas, meu cérebro só conseguia pensar em uma coisa: Nyx.Eu sabia que não devia, mas a atração que sentia por ela parecia estar crescendo de maneira incontrolável. Eu precisava tomar decisões, firmar parcerias e garantir que o projeto fosse adiante, mas sempre que fechava os olhos, ela estava lá. Aquela expressão inocente, aquele corpo que me atormentava em cada pensamento.
~AYLA~O teatro estava cheio de vida naquela manhã. Bailarinas se alongavam pelo salão, seus corpos se movendo com precisão milimétrica, enquanto conversas ansiosas e sussurros nervosos preenchiam o ar. Camila andava ao meu lado, segurando sua mochila com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Seus olhos brilhavam com uma mistura de nervosismo e esperança.— Obrigada por vir comigo hoje, professora — ela disse, sua voz doce e trêmula. — Meus pais me apoiam muito, claro, financeiramente falando. Mas eles não entendem… eles não entendem o que isso significa pra mim. Não entendem o peso emocional de estar aqui. Você entende.Eu sorri de forma suave, tentando confortá-la.— Entendo, sim. E você vai se sair bem, Camila. Eu tenho certeza disso.— Eu assisti Coppélia pela primeira vez quando tinha 14 anos, em uma viagem que ganhei de aniversário para Nova York, na época você ainda me treinava, lembra?— É claro que lembro, você só falava disso!— Sim, se tornou meu ballet favo
A música preencheu o quarto com uma batida pesada, enquanto meu corpo se movia de maneira fluida e controlada. Eu estava usando uma fantasia de couro toda preta, extremamente sexy. A cada movimento, sentia olhar de Nicolas em mim, pesado e intensamente focado. Ele estava hipnotizado, seus olhos fixos em cada curva do meu corpo. O toque do couro, apertando a minha pele, fazia-me sentir poderosa, no controle, mas sabia que ele gostava do meu corpo mais do que da minha performance. E, ainda assim, ele nunca tomava a iniciativa.Quando terminei a coreografia, vi seus olhos seguirem cada movimento meu, um olhar que sempre me desestabilizava. Ele me observava como se estivesse esperando algo, mas não se movia, não dizia nada. Eu esperava que ele pedisse algo, que me tomasse de alguma forma, mas nada vinha.De repente, ele quebrou o silêncio, com uma expressão séria, um pequeno sorriso nos lábios.— Você não usou a roupa que pedi — ele disse, a voz suave, mas firme.O que me incomodava em se
~NICOLAS~O sol refletia na superfície azul da piscina, criando padrões cintilantes que dançavam sobre o rosto de Amélie enquanto ela brincava com seus primos. As risadas infantis ecoavam pelo pátio, mas eu mal conseguia prestar atenção nelas. A bebida em meu copo estava quase intocada, o gelo derretendo lentamente enquanto eu girava o líquido âmbar sem real interesse.— Você parece perdido — a voz de Sofia quebrou o silêncio, trazendo-me de volta. Minha irmã estava sentada no banco ao meu lado, seu olhar atento demais para o meu gosto.— Só cansado — respondi, desviando o olhar para as crianças.Sofia riu baixinho, aquele tipo de riso que carregava mais compreensão do que humor.— Cansado, Nicolas? Isso é pouco. Você está exausto. E não só fisicamente.Permaneci em silêncio, tomando um gole da bebida e deixando o álcool aquecer minha garganta. Ela não desistiria tão fácil.— Você acha que Enrico ficaria feliz com isso? — Sofia perguntou suavemente, e eu senti algo se contrair dentro
~AYLA~O pequeno salão de festas do prédio estava lotado. Não que fossemos muitos, mas o lugar era realmente pequeno. Uma reunião informal, feita às pressas pelos próprios inquilinos, mas ainda assim, fervilhava de ansiedade e murmúrios. Teri e eu estávamos encostadas na parede ao fundo, como sempre, evitando as cadeiras na linha de frente. Ela mexia no celular, provavelmente trocando mensagens com algum de seus contatinhos duvidosos, enquanto eu observava as expressões preocupadas ao nosso redor.— Teri — murmurei, puxando de leve seu braço e olhando para o pulso dela. — Você nunca teve uma tatuagem aqui?Teri me olhou, franzindo o cenho antes de rir.— Você já me viu pelada mais vezes do que qualquer homem nesse prédio, Ayla. Onde diabos eu esconderia uma tatuagem?Ri baixinho, balançando a cabeça enquanto olhava para Teri. Nossa amizade era tão sólida, tão íntima, que nem mesmo essa conversa – ou o fato de já termos nos visto nuas inúmeras vezes – carregava qualquer constrangimento