Ricardo Albuquerque conhecia cada esforço que ela havia feito.Por isso, tinha tanta confiança, quase arrogante.— Catarina, eu sei que esse encontro foi só pra me provocar. Você sabe muito bem que não vai encontrar ninguém melhor do que eu. Aquele cara de agora não vale nem um décimo do que eu sou. Não faça algo de que vai se arrepender depois.As emoções descontroladas pareciam ter, pouco a pouco, se acalmado.Ricardo alternava entre ameaças e palavras suaves.— Vamos voltar. Sei que você não consegue viver sem mim. Volta pra mim, podemos ser como antes. O que há de errado nisso?Para Catarina, aquela frase soava ridícula e ofensiva.— Fui eu quem terminou. Não importa quantas vezes você venha me perguntar, minha resposta continua sendo a mesma. Ricardo, pare de ser egocêntrico. Você não é alguém tão inesquecível assim.Naquele momento, outro carro saía do estacionamento.Os faróis intensos iluminaram o local.Catarina e Ricardo estavam frente a frente, separados por uma distância.U
— Pai... Eu acredito que a nossa família é inocente...Mas não havia provas.Todas as acusações estavam perfeitamente fundamentadas.Seu pai não cometeu suicídio por culpa, sua morte foi causada por um acidente de carro.Ainda assim, até hoje, a família não conseguiu provar sua inocência.Essa era a ferida mais profunda e dolorosa que Catarina carregava no peito.— Eu vou comprar a última obra do meu pai. Vou voltar ao mundo do design usando o nome da filha de Jorge Vasconcelos...Catarina chorava de forma contida, mas sofrida.Toda a dor e raiva tornaram-se o combustível de seus objetivos.Do outro lado da porta, Gabriel saiu do quarto para beber água.Ele já estava preocupado, e ao passar em frente ao quarto da irmã, escutou seu choro abafado.Justo nesse momento, recebeu uma mensagem de Ricardo Albuquerque."Gabriel, sua irmã está bem desde que voltou pra casa?"Do lado de fora, sob a luz fraca da noite, Ricardo se encostava preguiçosamente no carro, segurando um cigarro entre os de
Antes de descer, Catarina olhou ao redor cuidadosamente.Só quando teve certeza de que Ricardo Albuquerque havia ido embora, conseguiu relaxar.Ela nunca imaginou que, um dia, ele se tornaria um peso em sua vida.— Toma cuidado, Catarina. Não se preocupe com a casa.— Tchau, mãe.Catarina ficou emocionada com o fato de sua mãe não ter feito perguntas.Ela lhe dava tempo e espaço suficientes para lidar com tudo do seu jeito.Assim que voltou para Cidade J, Catarina foi direto à casa da Doutora Lorena Ferreira.A professora havia organizado uma viagem de pesquisa de campo.Segundo o GPS, o trajeto de carro duraria mais de duas horas, com caminhos apenas por estradas vicinais, nada de rodovias.Catarina pegou emprestado o Range Rover vermelho da Beatriz.O carro era espaçoso e ideal para transportar os materiais que poderiam precisar.Durante o trajeto, a professora Lorena falava sobre as culturas tradicionais do país reconhecidas como patrimônio imaterial.Catarina Vasconcelos às vezes a
Por algum motivo, ela sentia um nó na garganta.— Catarina, isso não é só uma responsabilidade. É também uma esperança. — Disse a Doutora Ferreira, com um olhar sincero, assim como os demais.— Eu acredito que você é capaz. Com essa divulgação do patrimônio imaterial, você vai conseguir trazer essas obras culturais à vista de todos.Catarina sentia o peso do valor cultural em seu coração.— Sim. Eu vou organizar bem essa campanha de divulgação.Nos dois dias seguintes, Catarina ficou hospedada na vila com a doutora, imersa em um mundo sem máquinas nem tecnologia, apenas arte feita à mão.Na volta, ela recebeu um presente ligado ao patrimônio imaterial. Seu ateliê na casa nova também já estava pronto, e ela convidou a professora para conhecer.— Esses são esboços antigos seus? Que talento! Ainda bem que você não desistiu do seu sonho. O Sr. Jorge estaria muito orgulhoso. — Disse a Doutora Ferreira com um sorriso de aprovação.— Professora, na verdade, eu queria perguntar se a senhora sa
— Um cara desses, de encontro arranjado, ousa competir com o Sr. Albuquerque? Ele tá pedindo pra morrer.Pedro Castro balançou a cabeça, cheio de desdém.Todos ali tinham visto com os próprios olhos, um homem tão comum como aquele, como poderia sustentar uma mulher mimada como Catarina Vasconcelos?— Se a família Vasconcelos não tivesse falido, um homem desses poderia passar a vida toda se esforçando que nem teria chance de vê-la de perto.Comentários como esses se espalhavam, um atrás do outro, julgando David Costa. E cada frase parecia reforçar ainda mais a confiança de Ricardo Albuquerque.No começo, ele até tinha se sentido incomodado.Mas, sabendo que o encontro de Catarina fora forçado e que aquele homem não chegava aos seus pés, sua preocupação se dissipou.— Por isso, parem de comentar que a Catarina foi obrigada a ir ao encontro. Eu não me importo com isso e não quero pressioná-la. Sei como conquistá-la de volta, no meu tempo.Nesse momento, Thiago Ribeiro fez um comentário b
— Além de mim, quem mais a Catarina poderia escolher?Por algum motivo, Ricardo não gostou nem um pouco do que ouviu.Antes de a família Vasconcelos ter problemas, Catarina realmente tinha muitos admiradores.Thiago Ribeiro ergueu o olhar mais uma vez, agora com a expressão serena:— Quem mais poderia ser? Catarina te amava tanto... Todos nós vimos isso com nossos próprios olhos. Pode se gabar à vontade.Ricardo riu de repente.— Claro que eu me gabo. Catarina é minha mulher. Eu sou a única escolha dela!A certeza de que o amor de Catarina nunca mudaria, era essa a sua maior segurança.Nesse momento, Inês Rainha chegou dirigindo.— Sr. Albuquerque, vim buscá-lo.Sabendo que ele estava ali bebendo com os amigos, Inês manteve um tom gentil.Ela sabia muito bem que, comparada a Catarina, não tinha qualquer vantagem.Sua única chance estava em manter-se por perto.Ser sua secretária era uma oportunidade estratégica de estar ao alcance.Depois que entrou no carro, o silêncio tomou conta do
Catarina sabia muito bem reconhecer o tom de ironia nos olhos de Valentina.— Não precisa. — Respondeu, fria.Ela não tinha nenhum interesse.Pensando bem, ela já conhecia Valentina há muitos anos. Como irmã de Ricardo, Catarina um dia achou que poderiam ser amigas, até tentou se aproximar.Mas logo percebeu o desprezo escondido por trás do sorriso da outra.Não era algo que valesse a pena forçar. Desde então, mesmo quando se encontravam ocasionalmente, a relação entre elas sempre foi fria.Agora, então, era ainda mais desnecessário manter contato.— Tenho que ir, estou com compromissos. — Disse Catarina, sem esconder o desinteresse.Mesmo sem levar a pérola, precisava voltar, a Doutora Ferreira ainda a aguardava.Saiu apressada, com indiferença.Valentina, observando-a pelas costas, não conteve o sarcasmo:— Foi embora desse jeito? Aposto que ficou constrangida por eu ter presenciado sua humilhação. Deve estar morrendo de vergonha.A razão de Catarina não querer se afastar do irmão é
— Obrigada, Doutora Lorena.O sorriso de Valentina exalava uma confiança altiva, difícil de disfarçar.Ao lado dela, suas duas amigas pareciam apagadas em comparação, quase como meras coadjuvantes.— Doutora Lorena, todas nós nos inscrevemos para a competição de design de joias em Cidade J. Com a sua autoridade no setor, a senhora provavelmente será convidada como jurada, certo?As duas amigas não conseguiram mais conter a ansiedade.Na verdade, a visita com presentes naquela tarde era só uma desculpa para tentar agradar à professora.— Por enquanto, não recebi nenhum convite formal.A resposta de Lorena Ferreira foi vaga.Nesse momento, Valentina recuou estrategicamente, disfarçando ambição com elegância:— Na verdade, acho até melhor se a senhora não participar como jurada. Assim não tem aquela coisa de favorecimento, nem comparação por status. Os trabalhos serão avaliados de forma mais justa.No fundo, Valentina Albuquerque queria muito vencer essa competição.Mesmo sendo filha da f