Na minha infância, diversas foram as tentativas de conquistar a atenção dos meus pais. Tirava notas baixas propositalmente, me envolvia em confusões na escola, chegava até a brigar com os colegas. No fundo, era o único jeito que encontrava para receber migalhas de afeto deles, por menor que fosse esse gesto.Com o passar dos anos, desisti de esperar por esse carinho.Nos meus aniversários, passei a me presentear sozinha, celebrando mais um ciclo completado. Quando havia reunião escolar, eu mesma anotava o contato deles para os professores, sugerindo que qualquer problema fosse tratado diretamente.E foi assim, nessa solidão cotidiana, que fui crescendo. Até o dia em que Ricardo cruzou meu caminho.Na escola, os rumores já corriam soltos. Me chamavam de "a menina abandonada" porque meus pais nunca apareciam.Certa tarde, ao sair das aulas, um grupo de garotos atrevidos me cercou no caminho, exigindo todo o dinheiro que eu carregava.Foi quando ele surgiu.Num movimento rápido, Ricardo d
Mal cheguei em casa, me deparei com meus pais me esperando na sala, os olhos fixos em minha direção. O silêncio pesava no ar como uma nuvem de tempestade prestes a desabar.Não tive sequer a chance de abrir a boca quando a tormenta começou. A voz de meu pai cortou o ar primeiro, carregada de decepção:— Ricardo já me cntou tudo o que houve hoje. Você me decepcionou bastante.Erguendo as mãos em sinal de indignação, ele continuou:— Estamos falando do oceano! Uma força devastadora que poderia ter arrancado sua vida num piscar de olhos, e mesmo assim você permitiu que Ricardo socorresse outra pessoa antes!Minha mãe, que até então mordia os lábios em contenção, não se conteve mais e adicionou lenha à fogueira.— Age por impulso, sem refletir! — Exclamou ela, a voz trêmula de frustração. — Como podemos confiar a empresa a alguém tão impetuosa? É pura imaturidade!Então era isso? Não confiavam em mim? Por isso haviam entregado a empresa ao Ricardo, cortado minha mesada... Tudo para me forç
Jamais imaginei que Ricardo me seguiria. Ao chegar, avistei o carro de Augusto estacionado junto à porta. Com o ânimo esgotado para mais discussões, decidi ser direta:— Meu namorado acabou de chegar para me buscar. Vou embora.Ricardo arqueou as sobrancelhas e retrucou com um tom carregado de ironia:— Teresa, você realmente quer alguém desse tipo como namorado?— Ah, é? — Rebati, cruzando os braços. — E você seria melhor? Uma pessoa que jamais admite seus próprios erros?Percebendo que eu desviava o olhar, Ricardo agarrou meu pulso com força.— Teresa, por favor, me escuta só um instante...Uma pontada de dor me fez estremecer.— Ai! Está me machucando! — Exclamei, tentando me soltar.Num movimento brusco, Augusto saltou do carro e, tomado pela fúria, acertou um soco certeiro no rosto de Ricardo, enquanto me puxava para trás de si.— Se afaste dela! Já dentro do carro de Augusto, meus olhos capturaram um objeto pendurado no retrovisor que me pareceu estranhamente familiar. Meu coraç
Me levantei sem mais delongas, já farta de desperdiçar meu tempo com Joyce, quando, para meu completo espanto, ela se ajoelhou de joelhos à minha frente.— Teresa, eu te suplico, não destrua ele. — Implorou ela com voz trêmula.Que absurdo era aquele? Eu apenas competia de maneira honesta, como isso poderia ser interpretado como destruir alguém?Já havia conhecido muitas pessoas sem escrúpulos na vida, mas alguém tão descarada assim era novidade para mim.Me inclinei em sua direção, a encarando diretamente nos olhos.— Escuta bem, Joyce. — Falei com firmeza. — Se você não consegue deixar ele, por que não usa a fortuna da sua família para ajudá-lo? A sua família pode não ser tão abastada quanto as nossas, mas conseguir esse projeto não deveria ser problema para eles, não é mesmo?Após essas palavras, saí do local. Não tinha a menor intenção de continuar me envolvendo com alguém de raciocínio tão limitado.Nas semanas que se seguiram, mergulhei completamente no projeto, me esquecendo por
— Sobe primeiro, Teresa. — Ordenou Ricardo, com um tom de urgência na voz.Quando me dei conta de que havia retornado no tempo, o iate já fazia água por todos os lados.O dilema era cruel. Apenas dois lugares disponíveis no bote salva-vidas. Entre nós três, somente Ricardo dominava as técnicas de navegação. Portanto, uma das vagas necessariamente seria dele.E quanto à outra vaga...Após momentos de angustiante indecisão, Ricardo estendeu sua mão em minha direção.Dei um passo para trás, sentindo o peso da minha nova chance.— Salve a Joyce primeiro. — Pronunciei com firmeza, sem titubear.Dessa vez, me recusava a carregar o fardo de ter alguém morrendo em meu lugar.Ao escutar minhas palavras, ele exalou profundamente, como quem finalmente se liberta de um grande peso. As rugas de preocupação em sua testa se suavizaram num instante.Num impulso, agarrou a mão de Joyce e a guiou até o bote.— Teresa, você é minha noiva. — Ele se justificou, evitando meu olhar. — Ia te salvar primeiro.
Somente quando a última silhueta desapareceu no horizonte é que finalmente me movi, numa tentativa desesperada de sobreviver.O iate afundava rapidamente, mas ainda restavam objetos úteis em seu interior. As águas subiam a cada segundo, me obrigando a correr para dentro da embarcação em busca dos coletes salva-vidas e das boias que havia guardado anteriormente.Na minha vida anterior, por não saber nadar, adquiri algumas boias para desfrutar do mar sem preocupações. Agora, elas se tornavam essenciais para minha sobrevivência.Recolhi todas que encontrei, vesti apressadamente o colete salva-vidas, inflei as boias e passei uma delas pelo corpo. Consegui também agarrar algumas barras de chocolate e garrafas de água mineral. Quando o iate começou a submergir completamente, enchi os pulmões de ar e mergulhei, nadando com todas as forças em direção à costa.Embora estivesse em mar aberto, pescadores costumavam navegar frequentemente por aquela região. Encontrar um barco de pesca significaria
Em minha vida anterior, logo após desposar Ricardo, me recordei daquela noite fatídica em que ele chegou em casa embriagado. Com paciência, eu o auxiliei até o quarto, apenas sugerindo, com voz branda:— Tenta beber menos, meu bem.Foi o suficiente para despertar sua fúria. Com um gesto brusco, ele me empurrou com tamanha violência que fui ao chão, perdendo completamente o equilíbrio. Minha cabeça bateu contra o piso, e o sangue começou a escorrer instantaneamente.Gritei, assustada, contemplando minhas mãos tingidas de vermelho.Ricardo me fitou de cima, sua expressão desprovida de qualquer compaixão. Quando falou, suas palavras cortaram como navalha: — Está doendo? Ótimo! Imagina a Joyce, quanto sofrimento deve ter sentido antes de morrer! Mil vezes pior! Se eu não tivesse arriscado minha vida para te salvar, ela jamais teria se afogado. Teresa, a culpa é toda sua!Permaneci imóvel, sentindo o sangue quente escorrer pela nuca, incapaz de acreditar no que havia acabado de ouvir. Meu