Capítulo 0003
Em minha vida anterior, logo após desposar Ricardo, me recordei daquela noite fatídica em que ele chegou em casa embriagado. Com paciência, eu o auxiliei até o quarto, apenas sugerindo, com voz branda:

— Tenta beber menos, meu bem.

Foi o suficiente para despertar sua fúria. Com um gesto brusco, ele me empurrou com tamanha violência que fui ao chão, perdendo completamente o equilíbrio. Minha cabeça bateu contra o piso, e o sangue começou a escorrer instantaneamente.

Gritei, assustada, contemplando minhas mãos tingidas de vermelho.

Ricardo me fitou de cima, sua expressão desprovida de qualquer compaixão. Quando falou, suas palavras cortaram como navalha:

— Está doendo? Ótimo! Imagina a Joyce, quanto sofrimento deve ter sentido antes de morrer! Mil vezes pior! Se eu não tivesse arriscado minha vida para te salvar, ela jamais teria se afogado. Teresa, a culpa é toda sua!

Permaneci imóvel, sentindo o sangue quente escorrer pela nuca, incapaz de acreditar no que havia acabado de ouvir. Meu coração foi se congelando aos poucos, enquanto lutava para aceitar que aquelas palavras cruéis haviam mesmo saído da boca dele.

Após um silêncio que pareceu eterno, finalmente encontrei minha voz.

— Pelo amor de Deus, Ricardo! — Exclamei, incrédula. — O iate foi sabotado pelos seus inimigos! Foi você mesmo quem me mandou para o bote salva-vidas! E agora quer jogar a culpa em mim? Isso não é absurdo demais até para você?

Seu olhar se tornou ainda mais gélido, e a embriaguez pareceu evaporar num instante.

— Teresa. — Declarou ele, seco. — Desde o princípio eu nunca quis esse casamento. Se você não tivesse ido correndo contar para minha avó que estava apaixonada por mim, eu jamais teria sido forçado a me casar com você.

Uma gargalhada amarga escapou dos meus lábios enquanto o encarava, atônita.

— Então, segundo sua lógica distorcida, a culpa é minha? — Indaguei, sacudindo a cabeça. — Ricardo, você não culpa seus inimigos, não culpa a pressão da sua família, mas me culpa? Você só pode ter enlouquecido de vez.

Sem esperar resposta, lhe dei as costas e saí. Peguei um táxi sozinha até o hospital para tratar do ferimento.

Depois daquela noite, nosso relacionamento desmoronou por completo. E foi ali que prometi a mim mesma: nunca mais demonstraria fraqueza diante dele.

Agora, no entanto, esse estranho à minha frente segurava minha mão com delicadeza extrema, como se eu fosse uma porcelana preciosa que pudesse quebrar ao menor toque.

Senti um nó apertar minha garganta e virei o rosto rapidamente, inspirando profundamente para conter as lágrimas teimosas que ameaçavam cair.

— Obrigada. — Murmurei, baixinho.

Augusto ergueu os olhos, me presenteando com um sorriso genuíno que iluminou seu rosto.

— Não há nada a agradecer. — Ele respondeu com sinceridade.

— Sr. Augusto, está aí? — Uma voz repentina ecoou da porta.

Um homem de pijamas, usando óculos de armação preta, surgiu no quarto. Ao me avistar, seus olhos se fixaram em minha figura com interesse profissional.

— É esta a moça que caiu na água, a que mencionou ao telefone? — Indagou ele, ajustando os óculos.

Augusto confirmou com um aceno e se voltou para mim.

— Este é o Dr. Leonardo, médico do iate. Ele pode examinar você para garantir que tudo esteja bem. — Ele explicou, com gentileza.

Acenei levemente com a cabeça.

Augusto se afastou para dar passagem ao médico, que se aproximou. Após um exame rápido e algumas perguntas diretas, Leonardo concluiu que eu não sofia ferimentos graves, apenas exaustão por ter permanecido tempo demais no mar.

— O estado da Sra. Teresa não é preocupante. — Anunciou ele a Augusto, fechando sua maleta. — Ela necessita apenas de repouso adequado para uma recuperação completa.

Augusto concordou e acompanhou o médico até a porta. Trocaram algumas palavras em sussurros antes que ele retornasse.

Aproveitei esse momento para contemplar a vista pela janela. A chuva se intensificava lá fora, açoitando o vidro, e o mar estava completamente escuro, uma vastidão negra sem contornos visíveis.

Estranhamente, senti um profundo alívio percorrer meu corpo.

Quando Augusto voltou, sua voz soou melodiosa e tranquilizadora:

— O iate vai atracar em breve. Onde você mora? Posso levar você para casa em segurança.

Por um breve momento, senti uma resistência brotar dentro de mim. Voltar para casa? Não, não era o que eu desejava.

Meus pais, sempre ausentes que eram, mal notariam minha presença mesmo quando estavam por perto. Na realidade, tão pouco se importavam comigo que um mês de ausência passaria despercebido aos seus olhos.

E quanto a Ricardo... Na vida que deixei para trás, partimos juntos desse mundo. Agora que me foi concedida essa segunda chance, era provável que ele também tivesse retornado no tempo.

Naquele exato instante, devia estar nos braços de Joyce, celebrando sua nova oportunidade, lhe jurando amor eterno entre sussurros.

Nos cinco anos em que fomos casados, em minha vida anterior, jamais fui apresentada publicamente como sua esposa. Sequer compartilhávamos o mesmo leito. Ele se apoderou da empresa da minha família e cortou meus recursos financeiros sem pestanejar.

Quando alguém mencionava meu nome, seus olhos transbordavam desprezo, me transformando na piada do nosso círculo social.

Que desfrutassem da felicidade eterna nessa nova existência.

Me voltei para Augusto, deixando transparecer um toque de súplica na voz:

— Não tenho para onde ir. Poderia me acolher por alguns dias?

Diante de seu silêncio, puxei levemente a barra de sua camisa, erguendo para ele um olhar repleto de vulnerabilidade e carência.

Se a memória não me falhava, Augusto era o caçula da família Frota e, em minha vida passada, foi o único que estendeu a mão quando busquei o divórcio.

Salvador em ambas as vidas, impossível que fosse uma pessoa de má índole.

Ao perceber minha expressão suplicante, ele se inclinou e me encarou com olhos que ardiam em intensidade.

— Não sou um homem bondoso. — Ele advertiu. — Ficar comigo tem seu preço.

Estávamos tão próximos que o aroma refrescante de hortelã que emanava dele invadiu meus sentidos, me causando uma leve tontura.

— Tudo bem. — Consenti. — Aceito qualquer condição.

— Tem certeza disso?

— Absoluta! — Respondi sem hesitar, o que provocou um súbito sorriso em seus lábios.

No entanto, o iate finalmente atracou. Eu havia permanecido na água tempo demais, e meu corpo já reagia com febre baixa.

Augusto me tomou nos braços e me carregou para fora da embarcação quando uma voz conhecida cortou o ar.

— Teresa? É você mesmo? — Exclamou Ricardo, que coordenava uma operação de resgate com a polícia.

Ao me avistar, correu em nossa direção, o rosto contorcido em preocupação.

— Teresa, você está bem? — Ele indagou, ofegante.

Me desvencilhei dos braços de Augusto e encarei Ricardo com firmeza.

— Se algo grave tivesse acontecido... — Retruquei com ironia. — Você acha mesmo que eu estaria com esta aparência?
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