Promessas e juramentos são vistos com seriedade dentro da máfia, não importa a idade, o gênero ou crença. A palavra deve ter o mesmo peso que o sangue e só o sangue paga a desonra da palavra.Sara sabia disso, apesar de não ter nascido na máfia, nasceu da máfia, filha de um antigo capo e com sangue das duas maiores organizações criminosas do mundo, ela foi criada como filha única de um médico, mas a roda do destino a levou de volta para casa e o seu lar tinha um nome e quase dois metros de altura.Assim que a porta se abriu Ivan olhou para a mulher e sentiu o peito paralisar, torceu para que não existisse saudade do outro lado, porque fugiria até do inferno só para poder olhar para ela.Sara estava com a cabeça apoiada no ombro na nora e as duas dormiam tranquilas, alheias as guerras que seus homens lutavam por elas.— Ela é linda, não é?Ivan falou com o filho quase como se conversasse com um amigo, estava com os olhos fixos em Sara.— Perfeita!Nick respondeu, mas estava se referind
Sara estava deitada sobre o marido quando se lembrou do jantar, era difícil pensar em qualquer coisa quando Ivan a segurava em seus braços.Beijou o tórax masculino, se aninhou ali, sempre ficavam daquele jeito depois de fazerem amor. Um tipo de silêncio que carregava milhões de declarações que não precisavam de palavras, mas depois do prazer ela se lembrou.— Vou buscar sua comida.Levantou animada, feliz como uma adolescente apaixonada. Talvez ainda tivesse o mesmo coração da menina que se apaixonou por um desconhecido no meio da rua e em um acidente encontrou um abrigo para a intensidade que sempre morou em seu peito.Ivan não teve tempo de recusar, daquela vez, o silêncio dele era saudade, um tipo de saudade estranha, daquilo que ainda não tinha perdido, mas sabia que estava no fim.A mesma angústia que se sente no fim de uma viagem perfeita e que apesar de não ser o momento de partir, arrumar as malas também traz uma certa melancolia dolorosa.Se pudesse fazer um último pedido se
Perto dali, Sombra tentou de todas as formas se livrar daquelas cordas. O olhar molhado de Clara mostrava que ela era tão prisioneira quanto ele, apesar de ter dado a ordem para levá-lo até aquele cômodo mofado.Pensou que tinha sido ingênuo ao acreditar que Cosimo aceitaria em silêncio toda aquela movimentação. O que parecia pouco para ele, para os italianos significava tudo.Não podiam comparar o alcance que tinham com o poder quase irrisório da Camorra, mas Cosimo e o pai tinham ambição, não podia negar.Movimentou o corpo para um lado, depois para o outro, na cadeira de trás Elijah estava desmaiado, e Sombra pensou que a queda doeria bem mais no irmão do que nele, mas precisavam sair daliContinuou tentando usar o corpo para provocar uma queda, o irmão era pesado e demorou até conseguir, sabia que assim que caíssem teria pouco tempo para encontrar uma saída daquela situação, os homens que Clara havia deixado ainda estavam por ali.Conseguiu depois de um tempo e diferente do que ac
Sombra sabia o que o amor é capaz de fazer com as pessoas, ele também era uma das vítimas desse sentimento, foi arrebatado há muito tempo por uma menina com quem não tinha nada em comum.Ela uma doce enfermeira de uma cidade pequena, ele, o executor da máfia americana. Dois destinos que se cruzaram por acidente e com o tempo e algumas batalhas, se tornaram um. Não teve raiva de Clara, mas brincou ao olhar o corte pelo retrovisor do carro.— Vou descontar naquele italiano fresquinho, há se vou!Se referia assim ao príncipe da Cosa Nostra, o rapaz não se parecia em nada com o pai, muito pelo contrário, enquanto o antigo Dom lidava com seus inimigos com punhos de aço, o filho sempre foi conhecido como um apreciador da esbornia.Luigi costumava ser visto com várias mulheres. Patrocinava festas em cruzeiros onde ele e poucos amigos eram ou únicos entre dezenas de garotas que dariam as vidas para caírem nas graças do rapaz.Quis o destino que justamente a menina com menos chances fosse a es
Milhões de coisas passaram pela cabeça de Clara, mas tudo o que conseguiu fazer foi chamá-lo de idiota de sair na frente.Os seguranças ficaram perdidos, não sabiam se seguiam a garota ou se ficavam com o chefe, mas ela era a prioridade de Luigi e com um gesto simples do líder, os homens a seguiram.O rapaz ficou para trás, precisava se acalmar, ter Clara tão perto pedindo por um beijo dele fez com que cada parte do seu corpo reagisse.— Que tipo de feitiço colocou em mim?Agora deitado em uma cama imunda e com tanta fome que parecia que desmaiaria a qualquer momento. Ele sorriu, lembrou daquele passeio, os passos apressados de Clara, a pele vermelha.Pensou que agora ela que rejeitaria seus beijos, passou a língua na própria gengiva, um pedaço do dente ainda estava preso apesar de balançar.E enquanto se distraia passando a língua na lasca do dente que havia sido arrancado com um chute, Luigi lembrava da namorada.Se havia uma tradução para mulher difícil, com certeza Clara fazia ess
Sombra se lembrou da própria adolescência, seu primeiro teste, aquele que definiria se seria ou não aceito como um maggiore na organização.Na época, não bastava nascer na máfia, era preciso provar o seu valor, eram treinados para aquele dia e todos sabiam que só havia uma chance. Aquele que voltavam derrotados eram executados na frente dos seus pais em uma espécie de cerimonia que alertava as outras crianças de que na máfia, falhar não é uma opção.Entrar em uma das bases mais bem protegidas dos Estados Unidos sem ser visto e desligar o sistema de segurança.Sombra escolheu a própria missão, na época ninguém acreditou que ele conseguiria, mas o fez sem dificuldade. Voltou para casa sem que nem mesmo os guardas do local percebessem que ele havia estado entre eles.Ainda sentia na pele o frio das paredes úmidas, cada passo calculado, as câmeras reprogramadas uma a uma, os lasers de detecção de movimento enganados por uma estratégia que ele pensou quando ainda era uma criança.Agora, mu
Sombra foi o filho desejado, não podia dizer que teve um pai presente, ainda assim, se comparado a Elijah teve sorte, muita sorte.Foi treinado pelos melhores, criado pelo padrinho, um homem honrado e que acreditava no código que seguiam e acima de tudo. Sombra conheceu o amor desde a infância, algo que Elijah só encontrou com Ayla.Achava natural que ela fosse a única capaz de trazer o irmão de volta das crises que o jogavam no fundo do poço.— Consegue andar?Perguntou para o rapaz apesar de achar que a resposta seria um óbvio não. Luigi parecia estar com ao menos uma das costelas quebradas e o sangue seco nos pés indicavam que Cosimo gostava de torturas.— Consigo.Sombra ergueu as sobrancelhas, talvez o italiano não fosse tão fresquinho quanto imaginava.Soltou o rapaz e indicou o que fariam.— Eu ando, você anda. Eu paro, você para. Pisa onde eu piso e nem respira até eu dizer que pode, estamos entendidos? Se eu começar uma guerra por sua causa, pode apostar que eu mesmo arranco
Clara nem olhou para o pai, não enxergava nada além de Luigi, mas Sombra brincou com o amigo.— Kenro? Achei que o fresquinho fosse italiano.— Também achava.A menina começou a chamar o namorado de Kenro depois de uma noite que ele apareceu vestindo um terno branco impecável, os cabelos alinhados como os de um galã de revista e um buquê de flores tão exagerado que mal cabia nos braços dela. Parecia um boneco de luxo, um Ken mafioso, um príncipe fora do tempo. Mas o que realmente fez Clara rir naquela noite foi quando Luigi, no auge de seu romantismo, se ajoelhou dramaticamente e recitou versos de Petrarca como se estivesse em pleno Renascimento.Ela o interrompeu no meio do poema, mordendo o lábio para conter o riso.— Luigi, para! Sério, eu já te achava meio Ken, mas você é um Kenro.Ele franziu a testa completamente confuso.— Kenro?Clara riu enquanto apertava o buquê enorme contra o peito com o carinho que começava a nascer e ela nem mesmo reconhecia.— Bonito, metido e perfeito