Sombra se lembrou da própria adolescência, seu primeiro teste, aquele que definiria se seria ou não aceito como um maggiore na organização.Na época, não bastava nascer na máfia, era preciso provar o seu valor, eram treinados para aquele dia e todos sabiam que só havia uma chance. Aquele que voltavam derrotados eram executados na frente dos seus pais em uma espécie de cerimonia que alertava as outras crianças de que na máfia, falhar não é uma opção.Entrar em uma das bases mais bem protegidas dos Estados Unidos sem ser visto e desligar o sistema de segurança.Sombra escolheu a própria missão, na época ninguém acreditou que ele conseguiria, mas o fez sem dificuldade. Voltou para casa sem que nem mesmo os guardas do local percebessem que ele havia estado entre eles.Ainda sentia na pele o frio das paredes úmidas, cada passo calculado, as câmeras reprogramadas uma a uma, os lasers de detecção de movimento enganados por uma estratégia que ele pensou quando ainda era uma criança.Agora, mu
Sombra foi o filho desejado, não podia dizer que teve um pai presente, ainda assim, se comparado a Elijah teve sorte, muita sorte.Foi treinado pelos melhores, criado pelo padrinho, um homem honrado e que acreditava no código que seguiam e acima de tudo. Sombra conheceu o amor desde a infância, algo que Elijah só encontrou com Ayla.Achava natural que ela fosse a única capaz de trazer o irmão de volta das crises que o jogavam no fundo do poço.— Consegue andar?Perguntou para o rapaz apesar de achar que a resposta seria um óbvio não. Luigi parecia estar com ao menos uma das costelas quebradas e o sangue seco nos pés indicavam que Cosimo gostava de torturas.— Consigo.Sombra ergueu as sobrancelhas, talvez o italiano não fosse tão fresquinho quanto imaginava.Soltou o rapaz e indicou o que fariam.— Eu ando, você anda. Eu paro, você para. Pisa onde eu piso e nem respira até eu dizer que pode, estamos entendidos? Se eu começar uma guerra por sua causa, pode apostar que eu mesmo arranco
Clara nem olhou para o pai, não enxergava nada além de Luigi, mas Sombra brincou com o amigo.— Kenro? Achei que o fresquinho fosse italiano.— Também achava.A menina começou a chamar o namorado de Kenro depois de uma noite que ele apareceu vestindo um terno branco impecável, os cabelos alinhados como os de um galã de revista e um buquê de flores tão exagerado que mal cabia nos braços dela. Parecia um boneco de luxo, um Ken mafioso, um príncipe fora do tempo. Mas o que realmente fez Clara rir naquela noite foi quando Luigi, no auge de seu romantismo, se ajoelhou dramaticamente e recitou versos de Petrarca como se estivesse em pleno Renascimento.Ela o interrompeu no meio do poema, mordendo o lábio para conter o riso.— Luigi, para! Sério, eu já te achava meio Ken, mas você é um Kenro.Ele franziu a testa completamente confuso.— Kenro?Clara riu enquanto apertava o buquê enorme contra o peito com o carinho que começava a nascer e ela nem mesmo reconhecia.— Bonito, metido e perfeito
Ivan não tentou o abraço que queria, mesmo brincando com Sombra sobre a forma como a filha chamou o namorado, ele gostou de vê-la daquele jeito.Clara nunca pareceu se importar com nada e agora era uma tempestade de emoções.— A Clarinha cresceu.Comentou com o amigo, mas a opinião de Sombra era diferente.— Não, ela voltou a ser menina, Grandão. A Clara cresceu rápido demais e acho que o fresquinho ali a vez voltar a ser criança.Olharam juntos para o jeito que ela andava ao lado de Luigi, descalça, os cabelos fora do lugar e agarrada ao braço do rapaz.— Eu deveria ter olhado para ela.O que tinha tudo para ser um momento bonito, Ivan estava enxergando com culpa, sentiu que não era apenas com Nick que estava em débito, por mais que tenha oferecido respeito e proteção, simplesmente ignorou as cicatrizes de Clara, aliás havia feito o mesmo com Mel.— Deveria? Sabe o que eu acho? Que você é um Grandão cabeça dura. Relaxa, elas te amam exatamente como você é.Ivan parou de andar, ficou
Muito longe dali. Outra pessoa tinha voltado para casa, Lara havia se formado em medicina, apesar disso, nunca fez a residência, nem pegou o diploma, faltou durante todo o estágio.Há sonhos que se realizam de uma forma diferente da que pensamos, Lara queria ser médica para poder comprar a própria liberdade. E por fim, foi a prisão de um casamento arranjado que deu a ela essa tão sonhada liberdade.O problema era que abandonar a faculdade tinha seu ônus, ela sabia muito, mas não o bastante para resolver o problema de Kwami.— Precisa se acalmar, os remédios não fazem efeito e só consigo controlar a sua pressão quando te dou sedativos. Isso está errado, mas não sei o que fazer.Fez o que qualquer pessoa faria, ligou para Jocellyn. A ex-namorada de Lobo era neurocirurgiã, mas tinha muito mais experiência do que Lara.— Jô, preciso da sua ajuda.— Não posso, estou ocupada.A médica que inicialmente ficou na ilha africana com a desculpa de investigar a melhora de Nick em relação a deficiê
Quando Kwami abriu os olhos ela sorriu, ele demorou um tempo até perceber onde estava e o que estava acontecendo. A cada vez que acordou sempre foi Marina que encontrou então perguntou por ela quase que automaticamente.— MarinaJocellyn sentiu os olhos encherem de lágrimas, a boca secou, sentiu algo se partir dentro dela, algo que nem sabia que ainda estava inteiro. Não esperava que Kwami fizesse algo assim, não ele.Foi como voltar no tempo e ouvir Lobo chamando pela ex-mulher, mas daquela vez, a pessoa por quem o africano chamava, estava mais viva do que nunca e tinha alguns anos a menos do que ela.A médica passou a língua umedecendo os lábios e ao invés de responder seguiu com o procedimento padrão, verificou os sinais vitais, a oxigenação, a pressão arterial e os reflexos.Lembrou dos olhos de Kwami o dia em que ela o acusou de ser prosaico. Se achou ingênua por achar que ele ficaria tão feliz em vê-la como ela ficou ao saber que se reencontrariam.Na ocasião ela beirou a crueld
Jocellyn se afastou de Marina como se estivesse fugindo de um incêndio. O corredor pareceu ter quilômetros e sentia como se nas suas costas a mulher se divertisse com a sua humilhação.Cada passo era dolorido, cada respiração uma luta para não ceder às lágrimas. Não era cansaço, sabia que não.Era a certeza do que sempre evitou admitir.Nunca foi boa em cuidar de pessoas. Só sabia consertá-las, nisso sim ela era imbatível. Pensou que talvez por isso ela e Lobo se davam tão bem.— É ursão! Erámos dois vazios tentando preencher um ao outro. Sinto a sua falta.A médica ficou no próprio consultório, na organização um pedido dela era como uma ordem, muitos ali deviam as vidas a ela, ou a Lobo e homens como eles não se esqueciam das próprias dívidas.Lara ganhava presentes fofos das mulheres e das crianças, mas Jocellyn era cercada de tudo o que desejasse.Encontrou o consultório cheio de caixas, um computador novo, joias, um relógio de colecionador, um vestido exclusivo e até dois ingresso
Ainda estava no avião quando descobriu que na cesta de palha havia uma serpente, o réptil parecia sonolento, obviamente tinha se alimentado há pouco tempo. Fechou novamente o cesto, mas dessa vez amarrou cada parte que conseguiu.Lembrou que o animal ficou no carro durante o tempo em que ela ficou com Kwami, havia se esquecido de tudo, só não se esquecia dele.Uma ideia quase maluca passou pela cabeça da médica. Talvez o africano e seu feiticeiro estranho tivessem feito algo para que ela ficasse daquele jeito.Afastou a ideia em seguida.— Isso não existe! Estou ficando louca.Saiu do centro médico tentando não olhar para trás, imaginando o que o melhor que podia fazer era se dedicar a coisas que não a machucaria, se lembrou de uma frase que gostava de usar com os residentes a quem dava aula.— O fundo do poço é o lugar que guarda mais vida. Aprendam a viver nele e farão descobertas incríveis. Quem tem medo do escuro jamais aprenderá a ser a própria luz.Foi até o carro, pegou a cesta