Nos meses seguintes, Gabriel mergulhou em uma busca frenética por Marília.Visitou sua cidade natal. Falou com seus antigos professores, colegas, vizinhos…Tentava desesperadamente encontrar qualquer pista sobre ela.E, pela primeira vez, começou a realmente conhecê-la.Descobriu que ela cresceu sem pai, abandonada quando ainda era uma criança.Sempre teve uma terrível falta de segurança.E por nunca ter recebido amor, aprendeu a agradar os outros para ser aceita.Seu silêncio, sua paciência, sua tolerância…Nunca foram por amor.Foram porque a vida já tinha sido cruel demais com ela.Ela simplesmente aprendeu a suportar.Mas, apesar de tudo, Marília sempre foi bondosa.Depois que se casaram, fazia doações mensais para o orfanato.E ainda reservava tempo toda semana para trabalhar como voluntária.As crianças a adoravam.Quando foi ao orfanato, ouviu uma menina dizer, sorrindo enquanto pintava:— A irmã Marília ama azul! Porque é a cor do mar! Ela disse que gosta do oceano, porque o oc
Diferente de Gabriel, que estava à beira da loucura, Marília vivia em plena paz.Ela não sabia que ele a procurava desesperadamente.O chip do celular foi partido ao meio e descartado no instante em que partiu.Todas as suas contas em redes sociais foram deletadas.As ligações, as mensagens, as buscas frenéticas…Nada chegou até ela.E, na verdade, ela nem queria saber.O passado era uma ferida cicatrizada.Uma sombria tempestade da qual havia escapado.Tinha lutado com todas as forças para se libertar daquele pesadelo.Não queria, de forma alguma, qualquer vínculo com o que ficou para trás.E, entre tudo o que abandonou…Gabriel também ficou para trás.Durante um almoço tranquilo, sua tia sorriu ao lhe fazer uma pergunta:— Marília, você estudou Artes, não foi?Ela assentiu.— Tenho percebido que você tem feito muitas pinturas desde que chegou. Seus quadros são lindos, com uma atmosfera única. Eu e seu tio adoramos.O tom da tia era animado.— Seu tio acha um desperdício essas obras f
No mundo, talvez não haja dor maior do que finalmente alcançar o sucesso, mas a única pessoa que você queria retribuir… já não estar mais aqui.Sempre que falava sobre a irmã, os olhos de Elisabete se enchiam de lágrimas.A perda de Graça Moreira deixou nela um vazio irreparável, um arrependimento eterno.Mas, apesar da dor, sua irmã deixou um pedaço dela no mundo.Deixou Marília.— Quando eu era pequena, meus pais só pagavam os estudos para aquele inútil do meu irmão. Para mim, diziam que mulher não precisava estudar.A voz da tia tremia.— Eu me recusei a aceitar isso. Mas, quando insisti em continuar estudando, eles cortaram minha mesada e se recusaram a pagar minhas mensalidades.Os olhos de Elisabete ficaram vermelhos.— Foi minha irmã quem me sustentou.Ela engoliu seco.— Trabalhava dobrado, fazia vários bicos para conseguir juntar dinheiro… e me mandava tudo, escondido.Marília sentiu um nó na garganta.— Para mim, minha irmã não foi só uma irmã.Apertou a mão de Marília.— Ela
O homem que, sem hesitar, comprou cinco quadros por meio milhão de dólares cada, definitivamente merecia uma saudação.Seria grosseiro ignorá-lo.Por isso, acompanhada da tia, Marília caminhou até ele.— Há quanto tempo — cumprimentou Elisabete, sorrindo com familiaridade.Ficava claro que já o conhecia.— Não imaginei que um homem tão ocupado como você teria tempo para prestigiar minha sobrinha.Giano Bosque sorriu levemente.— Coincidiu com um dia de folga.O tom dele era tranquilo, sem pressa.— Esta é minha sobrinha, Marília — apresentou Elisabete.O orgulho era perceptível em sua voz.— Uma artista de talento. Todas as pinturas desta exposição são dela.Marília ficou sem graça com o elogio exagerado.Suas bochechas esquentaram.— Tia, não exagera…Baixou o olhar, um pouco embaraçada.— Eu só pinto por hobby.Giano riu.— Mas há talento, sem dúvida.Olhou para um dos quadros atrás dele.Uma pintura de montanhas.— Esta, por exemplo. Embora retrate montanhas e use tons quentes, tran
Marília ficou em silêncioEla achava que Giano fosse aquele tipo de empresário sério, distante, sem paciência para brincadeiras…Mas ele era bem mais descontraído do que imaginava.— Então eu também deveria te agradecer por me chamar de bonita? — rebateu, rindo.Os olhos de Giano brilharam com diversão.— Finalmente sorriu.Ela piscou, surpresa.— Eu… sempre estive sorrindo.Desde que a tia a trouxe para cumprimentá-lo, ela manteve um sorriso educado no rosto.Era o mínimo.Mesmo sem ter muito contato com a alta sociedade antes, sabia que um bom sorriso era essencial para boas interações.Mas Giano sacudiu a cabeça, negando.— Antes, você só estava sendo educada.Seus olhos escuros e penetrantes a analisaram com um interesse tranquilo.— Agora, você realmente sorriu.Marília sentiu algo se mover dentro dela.Era estranho.Eles acabavam de se conhecer.Mas, de alguma forma, ele enxergava através dela.Sentia como se ele soubesse de coisas que ela nunca contou a ninguém.Como se ele cons
A exposição foi um sucesso absoluto.Das 51 pinturas exibidas, 33 foram vendidas em um único dia.A maioria por valores entre 10 mil e 50 mil dólares.Mas as cinco adquiridas por Giano…Foram vendidas por 500 mil dólares cada.Enquanto conferia as contas da exposição, Elisabete não resistiu à provocação:— Giano pagou dez vezes mais pelas suas pinturas.Ela ergueu uma sobrancelha.— Você acha que ele só queria os quadros… ou queria a artista também?Marília nem piscou.O olhar dela permanecia fixo na calculadora.— Ele não tem interesse nenhum em mim.A resposta veio rápida e indiferente.— Deve ser só um cara charmoso que gosta de flertar.A tia arregalou os olhos.— O quê?A expressão dela era de puro choque.— Você tá brincando?Marília finalmente levantou os olhos.E então viu o olhar inacreditado da tia.— O que foi?— Giano não é esse tipo de homem.O tom de Elisabete foi categórico.— Ele é um dos solteiros mais cobiçados do meio empresarial, mas não tem uma reputação de mulhere
A exposição de Marília foi um sucesso absoluto.No dia do evento, não só a elite da sociedade compareceu, mas também diversos veículos de imprensa, garantindo uma ampla cobertura.No dia seguinte, sua arte dominava as colunas culturais dos jornais e sites.E um dos títulos mais chamativos?“A nova estrela em ascensão no mundo da arte.”— Esse jornalista sabe o que fala! — exclamou Elisabete, segurando o celular e relendo a matéria.Ela sorriu com orgulho.— Nossa Marília é cheia de talento! Cada pintura dela tem vida própria.— É claro que ela é a nova estrela da arte contemporânea!Marília riu, meio sem graça.O entusiasmo da tia era contagiante.Mas, no fundo, isso ainda parecia um sonho.Ela nunca foi tratada assim. Naquele país, porém, as coisas eram diferentes.Lá, as pessoas incentivavam em vez de criticar. Desde pequenos, os filhos eram encorajados.Até quando erravam, os pais começavam elogiando."Você tentou muito bem!""Que coragem de se arriscar assim!"E só depois disso, ex
Durante os meses em que Marília esteve desaparecida, Gabriel perdeu completamente o controle.O homem que sempre foi um viciado em trabalho, que colocava os negócios acima de tudo, simplesmente abandonou a própria empresa. Nada mais importava.Nada além de encontrá-la. E quanto mais o tempo passava, mais sua obsessão se transformava em loucura.Ele ignorou os conselhos dos amigos. Ignorou os gritos dos pais.Ignorou tudo e todos. Só queria vê-la de novo.Gabriel, o cético, o cínico, agora lia sobre arte.Antes, desprezava artistas. Especialmente pintores.Afinal, Dália tinha se casado com um. Mas quando descobriu que Marília era formada em belas-artes, isso mudou completamente.Passou a acompanhar jornais de arte, exposições, eventos culturais... E fazia isso por um único motivo. Porque queria entendê-la. Porque, quando a encontrasse, queria que ela soubesse que ele tentou. Que ele se esforçou para amar o que ela ama. Que não era mais aquele homem arrogante e insensível de antes.Mas,