Quando acordou, Florence ainda não conseguia ver nada além de completa escuridão. Mas, aos poucos, alguns pontos brancos começaram a surgir em sua visão, seguidos por formas borradas. Foi nesse momento que Rosana apareceu. Agora, Florence já conseguia enxergar as pessoas com alguma clareza. Antes, ela estava apenas provocando Rosana, afinal, quem mandou ela colocar algo no leite? Florence abaixou o dedo indicador e deu uma mordida na batata frita: — Vocês podem ir cuidar das suas coisas. Eu estou bem. — Mas e a Rosana... — Bruna murmurou, apontando discretamente para a porta. — Aqui é um hospital. Ela não vai tentar nada. — Tá bom. As três arrumaram suas coisas e saíram do quarto. Assim que elas se foram, Rosana voltou. Seu rosto parecia completamente normal, até com um leve sorriso estranho. Florence continuou fingindo que não a via. — Flor, o dia lá fora está lindo. Que tal eu te levar para dar uma volta? Vai te ajudar a relaxar e, quem sabe, acelerar a sua recuperaçã
Ela não aceitava aquilo! Rosana fez menção de se levantar, mas, quando conseguiu erguer o corpo pela metade, vacilou e caiu diretamente em direção a Lucian. Ele, que ainda segurava Florence, deu um passo para trás, e Rosana acabou desabando aos pés dos dois, em uma posição completamente humilhante. Qualquer pessoa em uma situação dessas, mesmo que desmaiasse de vergonha, não ousaria causar mais problemas. Mas Rosana não era esse tipo de pessoa. Ela, tremendo, esticou a mão e agarrou a barra da calça de Lucian. Seu corpo ligeiramente inclinado revelava o que estava por baixo das roupas molhadas. Ela sequer tentou cobrir-se. Com uma expressão de fragilidade, levantou o rosto cheio de lágrimas e encarou Lucian: — Sr. Lucian, eu só voltei porque fiquei preocupada com a segurança da Flor. Quando a vi perto do lago, fiquei com medo de assustá-la ao falar, então fui me aproximando com cuidado. Mas, quando tentei segurá-la, acabei perdendo o equilíbrio e caí no lago. Sr. Lucian, a culpa
Quando Florence ouviu a voz de Lucian, ela instintivamente se virou para olhar. O homem à sua frente vestia uma camisa preta. O vento de outono soprava suave, colando o tecido ao seu peito e destacando suas linhas perfeitas. Os olhos de Florence se estreitaram por um instante, mas ela rapidamente ergueu a mão para fingir que não via. — Quem está aí? — Perguntou, fingindo não enxergar e interpretando, com uma dose de nervosismo, alguém completamente perdido. Quando tentou aproveitar a oportunidade para fugir, sentiu seu pulso ser agarrado. Antes que pudesse reagir, foi puxada à força por Lucian para uma trilha deserta. — Me solta... — Ela protestou, mas sua voz foi engolida pelo vento frio. Lucian se inclinou e, sem qualquer aviso, selou os lábios dela com os dele. A brisa parecia congelar o momento enquanto ele a encarava com intensidade, observando seus olhos arregalados. Florence tentou lutar, mas suas mãos estavam presas pelos pulsos, completamente imobilizadas. Ela se
— O que aconteceu? Sua visão acabou de voltar, e agora você machucou o pé e as mãos? — Fernando perguntou. Florence olhou para ele com desconfiança: — Como você sabe que minha visão voltou? Fernando congelou por um instante. Ele abaixou a cabeça e não respondeu, fingindo estar concentrado em examinar o tornozelo dela. Um aperto tomou conta da garganta de Florence, e ela soltou a pergunta devagar: — Foi o Sr. Lucian quem te contou? Ele não respondeu, mas o silêncio dele foi o suficiente para confirmar. Florence apertou o lençol com força, enquanto o deixava tratar de seus ferimentos. Ela se sentia como um pássaro com as asas quebradas, preso na gaiola de Lucian, incapaz de escapar de seu controle. Ele fazia o que queria, jogava-a de lado quando bem entendia, e ela não tinha escolha. A dor repentina no tornozelo trouxe à tona memórias de sua vida passada, de um sofrimento sem fim. A dor de perder a filha e a impotência de não poder fazer nada. Era uma dor que nunca a aban
Na sala de emergência, Daphne, apesar de estar um pouco assustada, não havia sofrido nada grave. Rosana, vestindo o casaco de Lucian, permanecia aos pés da cama, com os olhos cheios de lágrimas, parecendo ainda mais miserável do que Daphne, que havia caído no lago. Daphne, reclinada sobre um travesseiro macio, não esperou que Rosana se explicasse. Com lágrimas escorrendo silenciosamente, começou a falar: — Lucian, foi culpa minha. Eu interpretei mal, achei que Rosana pudesse ter segundas intenções com você e, por isso, pedi seu casaco. Acabei perdendo o controle e bati nela. Só não esperava que ela fosse enlouquecer de repente e me empurrar no lago. Ainda bem que você chegou a tempo, porque eu nem quero imaginar o que poderia ter acontecido. Daphne não chorava como Rosana, que parecia implorar por pena. Ela enxugava as lágrimas com elegância, mantendo toda a compostura de uma verdadeira dama da alta sociedade. Ambas estavam chorando, mas era evidente quem o fazia de forma mai
Rosana mordeu os lábios, tremendo enquanto tirava o casaco de Lucian. Após despir a peça, ela se ergueu com dificuldade. Daphne lançou-lhe um olhar de desprezo e soltou uma risada irônica: — Com esse corpo? Ninguém quer ver. Agora, suma daqui. Rosana, com o rosto pálido, segurou o peito com as mãos e saiu da sala de emergência. Os olhares curiosos das pessoas ao redor recaíram sobre ela, mas, em vez de fugir, ela começou a soluçar baixinho, encolhendo-se como se fosse desmaiar a qualquer momento. Uma enfermeira comovida se aproximou e a segurou pelo braço: — Você está bem? O que aconteceu? — Eu... Eu caí na água... Como vou embora assim, desse jeito? — Rosana respondeu, encolhida e com a voz trêmula. A enfermeira, com pena dela, colocou um braço ao redor de seus ombros: — Vou buscar um casaco para você. Não chore mais, está bem? — Obrigada, obrigada, obrigada... — Rosana soluçava, chorando ainda mais alto. A enfermeira, vendo o quão miserável Rosana parecia, ficou s
Assim que Florence voltou para Águas Serenas, dormiu profundamente, como se o mundo tivesse parado. Acabou sendo acordada pela fome. Sem conseguir se mover com facilidade, chamou em direção à porta: — Mãe? Tio? Ninguém respondeu. Ela achou que sua voz havia sido baixa demais e que Lyra e Bryan não tinham escutado. Quando esticou a mão para pegar o celular, viu um bilhete deixado sobre o criado-mudo. [Saí para acompanhar seu tio em um compromisso. Deixei alguns petiscos para você. Se estiver com fome, coma.]Florence abriu o prato coberto e encontrou três pequenos petiscos. Pelo visto, Lyra realmente a considerava alguém com o apetite de um passarinho. Três petiscos. Florence devorou tudo em duas mordidas, mas seu estômago continuava roncando alto. Sem outra opção, pegou o telefone interno ao lado da cama e ligou para a cozinha. — Hana, tem algo que eu possa comer? — O chef já foi embora. — Respondeu Hana, a empregada, com um tom desinteressado. Ela finalizou com um bocejo,
Ela abriu a boca para falar, mas antes que pudesse dizer algo, ele cobriu seus lábios com a mão. O rosto dele se aproximou, tão próximo que Florence conseguia sentir o calor de sua respiração. Sob a luz da lua, os traços profundos de Lucian pareciam ainda mais marcantes, e seus olhos escuros, como um abismo sem fim, exalavam perigo e uma aura de domínio. Florence tentou puxar a mão dele com força, mas ele permaneceu imóvel, inabalável. Ela o encarou irritada e, sem pensar duas vezes, mordeu os dedos dele. Lucian apenas franziu as sobrancelhas, mas não a soltou. Do lado de fora, no corredor, duas vozes começaram a se aproximar. — Quem está aí? — Será que é a Florence roubando alguma coisa? Mais cedo ela ligou pedindo comida. No meio da noite, nem deveria se atrever. Ela acha mesmo que tem esse direito? Roubar? Esse era o lugar que Florence ocupava na família Avery. Para eles, ela não tinha nenhum direito. Qualquer coisa que pegasse era vista como roubo. Os dentes de Floren