Capítulo 0003
Com a fúria de uma fera acuada, Luciano despertou de súbito, os olhos injetados se fixando em mim.

— Será que você não se cansa de me tirar do sério? Quantas vezes preciso dizer para não me incomodar enquanto estou dormindo? Acha mesmo que sou tão idiota a ponto de não saber que horas são para comer? Sai da minha frente!

Não tive tempo de me proteger. O cinzeiro voou certeiro contra minha testa, o sangue jorrou imediatamente, descendo em filetes quentes pelo meu rosto. Até agora carregava aquela cicatriz feia como lembrança daquele momento.

Sem nenhum pingo de remorso, Luciano apenas avisou com gélida indiferença:

— Quando estou no meu sono, nem pense em me perturbar.

Naqueles tempos, minha ingenuidade ainda me fazia acreditar que a culpa era toda minha.

Agora eu entendia que o amor, ou a falta dele, já estava selado desde sempre. Era uma batalha que eu já havia perdido há muito tempo.

De repente, um estrondo rasgou o céu enquanto o balão de ar quente se transformava num fogo flamejante. As chamas se espalharam feito um animal selvagem à caça.

Ergui os olhos, o pavor congelando minhas entranhas, um grito preso na garganta que o vento uivante engoliu sem piedade.

No mesmo instante, o balão começou a despencar, como se arrastado por mãos invisíveis em direção ao abismo sem fim.

Com dedos que não me obedeciam, saquei o celular e, desesperada, disquei o número de Luciano.

— Me salva, pelo amor de Deus! Está pegando fogo!

Do outro lado da linha, sua voz soava irritantemente tranquila:

— Se a casa está em chamas, ligue para os bombeiros. Precisava desse escândalo todo?

— Não, você não entendeu! É o balão que...

Ele me interrompeu, impaciente, com um tom gelado:

— Chega! Estou com a Violeta fazendo exames. Se é algo tão sério assim, se vira sozinha.

Antes que eu pudesse explicar qualquer coisa, a ligação caiu mais uma vez.

Em toda nossa história juntos, as rédeas sempre estiveram nas mãos dele. Jamais teve paciência para me escutar até o fim.

Enquanto Luciano falava de "algo sério", Violeta ainda encontrava tempo para atualizar suas redes sociais.

[Obrigada por me apresentar as montanhas majestosas. Mesmo morrendo de medo de altura, com você ao meu lado, não tenho medo de nada. Estar junto de você é pura felicidade.]

A foto não mostrava nenhum hospital, mas sim trechos de um vídeo deles dois saltando de paraquedas.

Mal consegui terminar de ler, quando o fogo já se aproximava perigosamente, o calor intenso queimando meu rosto como brasa viva.

Se eu não decidisse naquele momento, restaria apenas o tormento das chamas devorando minha pele e a queda sem fim.

Com mãos trêmulas, acariciei minha barriga enquanto as lágrimas embaçavam minha visão como uma cortina de chuva fina. Entre soluços sussurrei:

— Meu pequeno, me perdoa. Mamãe falhou com você nesta vida.

Digitei uma última mensagem antes de me entregar ao vazio.

[Acabou. Fiquem juntos. Jamais nos encontraremos de novo.]

Num piscar de olhos, minha alma vagava pelos corredores brancos do hospital.

Lá estava Violeta, aninhada no peito de Luciano como um pássaro em seu ninho. Ela disse com uma voz doce e fraca:

— Senti uma dor tão profunda no peito. Pensei que fosse partir deste mundo.

Os dedos de Luciano deslizavam pelos cabelos dela com ternura, sua voz se derretendo como mel quente:

— Nem fale uma coisa dessas. Enquanto eu respirar, nada vai te acontecer.

Com olhos de falsa preocupação, Violeta ergueu o rosto para ele.

— E a Daniela está bem? Ela não parava de te ligar?

— O que poderia acontecer com ela? — Luciano soltou uma risada despreocupada. — Na faculdade, era ela quem encarava aquelas brincadeiras de queda livre sem medo nenhum. Fui eu que ensinei ela a saltar de paraquedas, lembra? Deve estar em casa agora. Comentou algo sobre um incêndio.

O corpo de Violeta se retesou, sua voz oscilando como folha ao vento:

— Em casa? Tem certeza de que foi lá mesmo?

Após um breve silêncio, Luciano acenou com a cabeça.

— Claro que sim.

Entre lábios quase fechados, Violeta tentou indagar:

— E então sobre o incêndio? Não vai verificar?

— Já pedi que chamasse os bombeiros. Não posso apagar fogo sozinho. — Luciano respondeu com firmeza, seus olhos transbordando carinho por ela. — Agora é você quem precisa de cuidados. Sua vida vale mais que qualquer coisa.

Testemunhando aquela cena, mesmo já do outro lado da existência, senti meu coração se despedaçar.

Será que a minha vida não tinha valor algum?

Ele nem se deu ao trabalho de perguntar. Simplesmente ignorou minha situação como se eu não existisse.

Durante dois anos ele ficou preso àquela cadeira de rodas, e fui eu quem esteve ao seu lado em cada momento, cuidando de tudo. E agora? Me tratava com a mais fria indiferença.

Luciano havia tirado licença para cuidar da Violeta, mas o chefe acabou chamando ele de volta para o trabalho, sem muito aviso.

Segui seus passos até o escritório do parque.

O chefe estava com aquela cara fechada, o olhar cortante feito navalha.

— Quem te autorizou a levar turistas para a Zona A?

A tal Zona A era conhecida pelo perigo, terreno todo acidentado. Se desse qualquer problema com o balão, não tinha um pedaço de chão seguro para pouso. Sem experiência, ninguém conseguiria saltar sem se machucar feio.

Luciano respondeu numa boa, como se o assunto não fosse nada:

— Não eram turistas, chefe. Uma era minha namorada, a outra era uma amiga. Minha namorada sabe saltar de paraquedas. Ela ia se virar tranquilo.

O chefe ficou na dúvida, franzindo a testa enquanto coçava o queixo.

— Mas a equipe de resgate recebeu uma ligação de socorro. Não acharam ninguém no ponto de pouso. Vai ver a pessoa se perdeu e acabou morrendo. Deve ter sido a Daniela, né?
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