Capítulo 0002
Pousar?

Uma risada amarga escapou dos meus lábios enquanto o desespero me consumia por dentro. Nem sequer tinha certeza se voltaria viva para casa.

Antes que pudesse dizer mais uma palavra, o silêncio do telefone já anunciava que ele havia desligado.

O amor entre mim e Luciano sempre fluiu como um rio de mão única. Eu, constantemente me lançando em sua direção; ele, um rochedo imóvel diante da correnteza dos meus sentimentos.

Crescemos como vizinhos, e por dez longos anos cultivei esse amor em silêncio, o guardando como quem guarda um tesouro proibido no porão mais escuro do coração.

No décimo ano desse amor não correspondido, o destino interveio com crueldade. Um acidente de carro quase condenou Luciano a passar o restante da vida em uma cadeira de rodas

Foi então que Violeta, sua namorada na época, encontrou nos estudos no exterior o pretexto perfeito para abandoná-lo justamente quando ele mais precisava de alguém.

Fui eu quem ficou ao seu lado. Eu, de plantão ao lado da sua cama, dia após dia, noite após noite. Eu, o acompanhando nas consultas médicas e nas dolorosas sessões de fisioterapia, sem jamais deixar escapar uma única reclamação.

Talvez por gratidão, Luciano finalmente me aceitou como companheira.

Aquele período, embora marcado pelo sofrimento, me presenteou com uma felicidade que jamais havia experimentado.

Como seu amor por mim não se igualava ao que eu sentia por ele, passei a amar por nós dois, como se pudesse preencher aquele vazio com o excesso do meu próprio sentimento.

Até que chegou o dia do nosso aniversário de namoro. Preparei um bolo, enfeitei a mesa com todos os pratos que ele adorava e aguardei, ansiosa, seu retorno do trabalho.

Do entardecer à madrugada, esperei em vão. Liguei inúmeras vezes.

Ele sempre respondia com uma voz monótona:

— Estou cobrindo um colega que faltou.

Não consegui conter a pergunta:

— Mas está tão escuro. Quem vai querer andar de balão à noite?

— Para de ser paranoica. É só uma hora extra. O balão precisa de manutenção. — Retrucou ele, sem esconder a impaciência.

Com cautela, ousei perguntar:

— E volta que horas?

— Mais tarde eu apareço. — Ele respondeu de forma evasiva.

Forcei um sorriso que ele não podia ver.

— Beleza. Fiz um monte de comida gostosa para você. Não demora, tá?

Quando insisti novamente mais tarde, sua irritação transbordou:

— Já falei que volto depois.

Aquele "depois", porém, se arrastou pela madrugada como uma promessa esquecida.

A comida já tinha sido aquecida inúmeras vezes. Na cozinha silenciosa, minha ansiedade crescia como uma maré que sobe sem aviso, quando o celular vibrou, cortando o silêncio.

Na tela, o nome de Violeta piscava junto a uma nova postagem.

[Quanto tempo pode passar, e mesmo assim, certas conexões permanecem intactas. Não é o ontem nem o hoje que importa, mas o quanto ainda temos a dizer um ao outro. Que bênção ter você na minha vida.]

Ao lado das palavras, a imagem de uma vela aromática brilhava suavemente.

Nos comentários, alguém indagou sobre a origem daquele presente.

Violeta respondeu com um tom ambíguo: [É de um antigo amigo que acabou de curtir a foto. Passamos a tarde numa oficina de artesanato. Ele fez isso especialmente para mim porque sabe dos meus problemas de insônia.]

Os comentários transbordavam de admiração e invejas mal disfarçadas.

Notei, com um aperto no peito, que Luciano estava entre os que curtiram a postagem.

Algo dentro de mim sussurrava verdades que eu não queria ouvir. Ele estava certamente com ela.

Tantos anos juntos e jamais recebi um gesto assim dele. Bastou Violeta voltar ao país para ganhar tudo o que eu sempre desejei.

Me encolhi no sofá, pernas abraçadas contra o peito, olhos perdidos além da janela, enquanto a noite lentamente abria espaço para os primeiros sinais da manhã.

Na madrugada alta, às três horas, a fechadura da porta finalmente girou. Luciano entrou cambaleante, exalando álcool, com a camisa para fora da calça e olheiras profundas.

Franzindo o cenho, ele disparou com um tom de irritação:

— Por que você ainda está acordada?

O cheiro de bebida misturado ao perfume de lavanda pairava ao seu redor, uma combinação dolorosamente familiar.

Mesmo sabendo de tudo, engoli o nó na garganta e perguntei com uma calma que não sentia:

— O trabalho te prendeu até essa hora?

Seu olhar caiu sobre a mesa, repleta dos pratos que tanto gostava, agora frios e intocados. Com naturalidade ensaiada, mentiu:

— Meu colega ficou me devendo por ter coberto o plantão dele, sabe? Daí fez questão de me pagar com um jantar.

A dor que reprimi durante toda a noite ameaçava transbordar como rio na cheia. Mordendo o lábio inferior, deixei escapar com voz embargada:

— E você não lembrou a ele que hoje faz anos que estamos juntos?

Passando a mão pelo rosto cansado, Luciano retrucou irritado:

— Precisa levar essas datas muito a sério, né? Dia dos Namorados, mês-versário e não sei mais o quê... A gente precisa mesmo comemorar cada coisinha?

O coração apertado dentro do peito e as lágrimas teimosas que eu me recusava a derramar foram minha única resposta.

Com voz quase sumida, murmurei entre os lábios:

— Violeta voltou, né?

O semblante dele endureceu na hora, as palavras saindo afiadas como navalha:

— Daniela, eu já estou com você. O que mais você quer? Que eu arranque o coração do peito e coloque na sua mão?

Verdade, o que mais eu poderia querer mesmo?

Tinha ele ao meu lado, mas o coração dele jamais seria meu por completo.

Me deixando sozinha na sala, Luciano se recolheu ao quarto. No silêncio da noite, minhas lágrimas desciam silenciosamente, encharcando minha blusa enquanto o sono teimava em não chegar.

Se passou uma hora quando o celular dele vibrou. Era ela, com aquela vozinha melosa que tanto me angustiava:

— Luciano, estou com o peito apertado. Vem ficar comigo, por favor.

Mesmo exausto, não pensou duas vezes. Num piscar de olhos, vestiu a primeira camisa que achou e disparou para o hospital.

Me veio à memória o começo do nosso namoro. Naquela manhã, eu havia preparado um café caprichado e fui toda animada acordá-lo no quarto.

De repente, os olhos dele se abriram, transbordando fúria. Num movimento brusco, arremessou o cinzeiro na minha direção, berrando:

— Sai daqui!
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