Corpos Distantes.

A casa estava finalmente em silêncio. Os pequenos furacões estavam adormecidos em seus quartos, e Hayley percorria a cozinha, recolhendo os restos do jantar. Seus movimentos eram automáticos, a mente ainda divagando entre a frieza da manhã e a imagem fugaz de David, o vizinho silencioso.

Ela ouviu a chave girar na fechadura e o som da porta se abrindo. Marcos havia chegado. Ele entrou, o uniforme policial ainda vestido, a farda um pouco amassada após um longo dia. Deixou o cinto com o coldre sobre a mesa da sala, o peso do equipamento ecoando no silêncio. Parecia exausto, as olheiras mais pronunciadas sob os olhos cansados.

— Oi — disse Hayley, tentando manter um tom leve enquanto se aproximava e lhe dava um beijo rápido na bochecha.

— Oi — ele respondeu, a voz arrastada. — Que dia...

Hayley observou-o desabotoar os primeiros botões da camisa do uniforme, um gesto de alívio após horas de serviço. Ela sabia que o trabalho dele era exigente, mas às vezes sentia que não havia espaço para mais nada em sua vida além disso.

Mais tarde, depois que Marcos tomou um banho rápido e vestiu uma camiseta e calças de moletom, ele se jogou no sofá, absorto no noticiário da televisão. Hayley se sentou ao lado dele. Ela hesitou por um momento, sentindo uma necessidade súbita de proximidade, de quebra daquela barreira invisível que parecia se erguer entre eles a cada dia.

Ela pousou a mão em seu braço, um gesto simples, buscando contato. Marcos pareceu notar, mas seus olhos permaneceram fixos na tela.

— Cansado? — ela perguntou, a voz suave.

Ele assentiu, sem tirar os olhos da TV.

Hayley esperou um instante, e então, com um pouco mais de ousadia, deslizou a mão por seu braço e roçou os dedos em seu antebraço. Ele estremeceu levemente, mas não houve reação em seus olhos.

— Marcos... — ela sussurrou, aproximando-se um pouco mais.

Ele finalmente virou a cabeça, um olhar vago e distante.

— Estou realmente exausto, Hayley. Preciso desligar um pouco.

A rejeição, embora suave nas palavras, atingiu Hayley como um golpe frio. Ela retirou a mão, sentindo o calor em suas bochechas se dissipar, substituído por uma tristeza familiar.

— Claro — ela murmurou, desviando o olhar.

O silêncio retornou, pesado e carregado de palavras não ditas. Marcos voltou sua atenção para a televisão, e Hayley ficou ali, sentada ao lado dele, sentindo-se mais sozinha do que nunca. A imagem de David, tirando a camisa sob o sol frio da manhã, passou brevemente por sua mente, uma estranha e fugaz contraposição à frieza de seu próprio lar.

Hayley sentiu o peso do silêncio se instalar entre eles. A rejeição, mesmo que não fosse dita com rispidez, era palpável. Ela mordeu o lábio inferior, tentando engolir a onda de frustração e tristeza que a invadia. Por um breve momento, uma faísca de rebeldia acendeu em seu interior. Já que palavras não pareciam funcionar, talvez uma ação...

Com um suspiro quase inaudível, ela se inclinou um pouco mais, aproximando o rosto do dele. Seus lábios roçaram de leve na bochecha de Marcos, descendo lentamente em direção ao canto de sua boca. Ela sentiu o corpo dele enrijecer minimamente, os olhos ainda fixos na tela.

Ela sussurrou em seu ouvido, a voz carregada de um desejo reprimido e uma ponta de desafio: — Só um minuto... esquece a televisão. 

Ela tentou virar o rosto dele em sua direção, mas Marcos manteve o olhar fixo na tela, como se estivesse hipnotizado. Ele suspirou pesadamente, um som que expressava mais cansaço do que desejo.

— Hayley, por favor... estou exausto. Tive um dia infernal.

Aquelas palavras, ditas sem emoção e sem sequer encontrar seus olhos, foram como um balde de água fria. A faísca de rebeldia se apagou, substituída por uma resignação amarga. Ela se afastou lentamente, o toque em seu braço agora parecendo uma queimadura.

Marcos finalmente pareceu notar a mudança em sua postura. Ele virou a cabeça, franzindo a testa levemente ao ver a expressão magoada no rosto de Hayley.

— Ei, o que foi? Eu só estou cansado, você sabe como é...

Mas para Hayley, as palavras já não tinham o mesmo impacto. Aquele momento de vulnerabilidade, sua tentativa de se conectar fisicamente, havia sido ignorada, quase descartada. A explicação de Marcos soava vazia, como uma desculpa repetida tantas vezes que perdera o significado.

Ela balançou a cabeça levemente, um sorriso triste nos lábios.

— Não importa, Marcos. Deixa para lá. Você precisa descansar.

Ela se levantou do sofá, a rigidez em seus ombros denunciando a mágoa que ele não percebera a tempo. Ele a observou se afastar, uma ruga de confusão entre as sobrancelhas, mas o cansaço logo o venceu novamente, e seus olhos voltaram para a tela brilhante.

Hayley foi para a cozinha, o nó na garganta apertando. Ela sabia que ele estava cansado, mas sentia que a exaustão dele sempre vinha em primeiro lugar, deixando pouco ou nenhum espaço para as necessidades dela, para a intimidade que parecia escorrer pelos dedos a cada dia.

Enquanto enchia um copo d'água, ela olhou pela janela escura em direção à casa vizinha. As luzes estavam acesas em alguns cômodos. Ela se perguntou como era a dinâmica entre Sara e David. Será que eles também viviam essa desconexão silenciosa? A imagem fugaz de David sem camisa voltou à sua mente, e por um instante, ela se permitiu uma fantasia breve e proibida de ser vista, de ser notada, de ser desejada.

Com um suspiro, ela bebeu a água rapidamente e se dirigiu para o quarto, deixando Marcos sozinho na sala, imerso em seu mundo de trabalho e cansaço, alheio à distância crescente que se abria entre eles. Para Hayley, naquela noite, a sensação de solidão era mais fria e cortante do que a geada da manhã.

Hayley entrou no quarto em silêncio, fechando a porta atrás de si com um clique suave. O quarto estava escuro, apenas a fraca luz da lua que entrava pela janela iluminando os contornos dos móveis. Ela se sentou na beirada da cama, sentindo o tecido macio sob seus dedos, um contraste com a rigidez que tomava conta de seu corpo.

Seus pensamentos vagaram para os primeiros anos de casamento, a paixão avassaladora, os toques constantes, o desejo que parecia consumi-los. Ela se lembrava das noites em que mal conseguiam esperar para estarem sozinhos, a eletricidade que percorria seus corpos ao menor contato. Quatro filhos haviam chegado desde então, trazendo uma avalanche de amor, cansaço e responsabilidades. Ela entendia que a dinâmica de um relacionamento muda com a parentalidade, mas a ausência de toque, a falta de desejo por parte de Marcos, havia se tornado um abismo silencioso entre eles.

Ela passou as mãos pelos braços, sentindo um arrepio que não era de frio. Mesmo depois de quatro filhos, ela ainda se sentia mulher, ainda ansiava por aquela conexão íntima que antes era tão natural entre eles. Mas parecia que, para Marcos, ela havia se tornado apenas a mãe de seus filhos, uma parceira na administração do lar, e não mais a mulher que ele desejava.

Lágrimas silenciosas começaram a escorrer por suas bochechas enquanto a dor da rejeição se misturava à tristeza da constatação. Ela se deitou na cama, o lado de Marcos vazio e frio. Lembrou-se de suas tentativas frustradas naquela noite, do olhar distante dele, da desculpa do cansaço. Será que era só cansaço mesmo? Ou havia algo mais, uma distância emocional que ela não sabia como transpor?

Ela se encolheu sob as cobertas, o corpo tenso e dolorido não apenas pela rejeição física, mas pela sensação de invisibilidade. Ela se perguntou se ele sequer notava a falta que ela sentia, o vazio que se instalava cada vez mais em seu coração.

Olhou para o teto escuro, as lágrimas molhando o travesseiro. A imagem de David voltou à sua mente, não com desejo, mas com uma ponta de melancolia. Ele era um estranho, mas a breve intensidade que ela havia sentido ao vê-lo, mesmo que puramente física, contrastava brutalmente com a frieza de seu próprio lar.

Com um suspiro pesado, Hayley fechou os olhos, deixando que o cansaço físico a vencesse, mas o vazio emocional permanecia, um lembrete doloroso da distância que a separava do homem com quem havia construído uma família. Naquela noite, o silêncio do quarto era ensurdecedor, e a ausência de toque de Marcos era a mais eloquente das rejeições.

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