Diego acordou cedo naquela manhã, mas o peso de suas escolhas parecia maior do que nunca. A promessa que havia feito a Elisa estava começando a desmoronar. Ele sabia que, para cumprir o que dissera, precisaria abandonar o mundo que havia construído com tanto esforço – e isso era algo que ele não estava disposto a fazer.
Ao descer as escadas, encontrou Elisa na cozinha, mais uma vez envolta em silêncio. Desde o confronto que tiveram, a distância entre os dois parecia insuportável. Ele tentou sorrir, mas ela desviou o olhar, como se já não acreditasse em qualquer gesto dele. Diego não gostava daquele clima. Sentia-se acuado, encurralado entre a expectativa de Elisa e as pressões externas que não paravam de aumentar. — Elisa, ainda está brava comigo? — perguntou, tentando soar mais suave. Ela suspirou e cruzou os braços. — Não é uma questão de estar brava, Diego. É uma questão de não saber Elisa suspirou e cruzou os braços, tentando conter o cansaço emocional que sentia. — Não é uma questão de estar brava, Diego. É uma questão de não saber mais quem você é. As palavras dela atingiram Diego em cheio, mas, ao invés de gerar arrependimento, trouxeram raiva e frustração. Ele odiava sentir-se julgado. Odiava que Elisa não enxergasse o quanto ele lutara para chegar onde estava. — Quem eu sou, Elisa? Sou o homem que trabalhou duro para te dar tudo isso — respondeu, abrindo os braços e apontando para a casa espaçosa em que viviam. — Mas parece que nada disso é suficiente para você. — Tudo isso? — Elisa deu uma risada amarga. — Você acha que uma casa bonita e dinheiro compensam mentiras, traições e noites vazias? Diego, o que eu queria era o homem com quem me casei, não essa versão obcecada por poder e status. — Eu não me casei para continuar sendo pobre e invisível. Eu me casei com sonhos, Elisa, e realizei todos eles. Você devia estar do meu lado, não contra mim. — Estar do seu lado? — Elisa ergueu a voz. — Como posso estar do seu lado se você vive me deixando de fora da sua vida? E não me venha com essa conversa de que fez tudo por nós. Fez por você, Diego. Só por você. Ele fechou os punhos, sentindo a tensão crescer. — Chega, Elisa. Já cansei dessa conversa. Antes que ela pudesse responder, Diego pegou as chaves do carro e saiu batendo a porta, deixando Elisa sozinha com o coração despedaçado. Dirigindo pelas ruas da cidade, Diego sentia o sangue fervendo. Não queria admitir, mas as palavras de Elisa o atingiram em um ponto sensível. Parte dele sabia que ela estava certa. Sabia que havia cruzado limites. Mas, ao invés de refletir e tentar mudar, ele preferia afundar ainda mais. Sem perceber, dirigiu até o prédio de Paula Vasconcelos. Ela era a única pessoa que parecia compreendê-lo naquele momento. Diferente de Elisa, Paula não o julgava, não o pressionava. Ao contrário, o incentivava a ir cada vez mais longe. Quando chegou, Paula estava esperando na porta do apartamento com um sorriso sedutor. — Não esperava te ver tão cedo. Problemas em casa? — perguntou, enquanto ele entrava e jogava o casaco no sofá. Diego suspirou, passando as mãos pelos cabelos. — Elisa não entende. Ela quer que eu largue tudo, que vire outra pessoa. — E por que você faria isso? — Paula perguntou, aproximando-se e deslizando os dedos pelo braço dele. — Você é mais poderoso agora do que jamais foi. E sabe que o poder não perdoa os fracos. Diego a olhou e, por um momento, sentiu-se dividido. Elisa era sua esposa, o amor da sua vida, mas Paula representava o poder, a liberdade e o risco que ele não conseguia abandonar. — Às vezes, penso que Elisa nunca vai aceitar quem eu sou de verdade — murmurou. Paula sorriu e tocou o rosto dele. — Talvez você esteja olhando para a pessoa errada. Sem resistir, Diego cedeu ao desejo e a beijou com intensidade, tentando silenciar o turbilhão de emoções que o consumia. Enquanto Diego mergulhava ainda mais em sua vida dupla, Elisa sentia que o casamento estava desmoronando. Naquela noite, ele voltou para casa tarde, com o perfume caro de Paula ainda impregnado em suas roupas. Elisa o esperava na sala, sentada no sofá com os olhos fixos na porta. Quando Diego entrou, ela o encarou em silêncio por alguns segundos antes de finalmente falar. — Mais uma noite de trabalho, Diego? Ele evitou o olhar dela e caminhou até a cozinha. — Não quero discutir, Elisa. Estou cansado. Ela se levantou e o seguiu. — Eu também estou cansada, Diego. Cansada das suas mentiras, cansada de fingir que não sei o que está acontecendo. Diego parou e a encarou, impaciente. — O que você quer que eu diga, Elisa? Que eu sou perfeito? Não sou. Eu fiz o que precisava fazer para chegar onde estou, e não me arrependo. Elisa balançou a cabeça, decepcionada. — Então você escolheu o caminho que te afasta de mim, Diego. E, se é isso que você quer, talvez não haja mais nada que possamos salvar. Diego sentiu o impacto daquelas palavras, mas, em vez de recuar, respondeu com frieza. — Talvez seja melhor assim. Talvez você precise aceitar que as coisas mudaram. Com lágrimas nos olhos, Elisa deu um passo para trás. — Você já me perdeu, Diego. Só não percebeu ainda. E, antes que ele pudesse responder, ela subiu as escadas, deixando Diego sozinho mais uma vez. Naquela mesma noite, enquanto Elisa chorava em silêncio no quarto, Diego pegou o telefone e ligou para Roberto. — Estou dentro. Vamos continuar com o plano. Roberto sorriu do outro lado da linha. — Sabia que você não ia desistir. Você nasceu para isso, Diego. Ao desligar o telefone, Diego sabia que havia feito uma escolha. Escolhera o poder, o dinheiro e o risco – e essa escolha teria consequências irreversíveis Diego subiu para o quarto já passava da meia-noite. Esperava encontrar Elisa dormindo, mas ela estava sentada na beirada da cama, olhando pela janela. Quando ele entrou, o olhar dela não se moveu, como se ele já fosse apenas uma sombra em sua vida. O silêncio que preenchia o ambiente era quase insuportável, mas Diego, cansado e impaciente, resolveu ignorar. Começou a tirar o terno e a guardar as coisas, como se nada estivesse errado. — Vamos continuar assim? Fingindo que nada está acontecendo? — perguntou Elisa, finalmente quebrando o silêncio. Diego suspirou e fechou o armário com força. — O que você quer de mim, Elisa? Já conversamos sobre isso hoje. Não vou largar tudo o que construí. Ela se levantou lentamente e o encarou com um misto de dor e frustração. — Não é sobre o que você construiu, Diego. É sobre quem você se tornou. Um homem que eu nem reconheço mais. — Talvez o problema seja você que não consegue aceitar a realidade — rebateu ele, com frieza. Elisa arregalou os olhos, surpresa com o tom agressivo dele. — A realidade, Diego? A realidade é que você está destruindo tudo o que tínhamos. Eu queria um casamento baseado em amor e respeito, e você está me dando mentiras e segredos. Diego passou a mão pelo cabelo, exasperado. — Eu fiz o que precisava para nos dar uma vida melhor. Por que isso não é suficiente? — Porque eu não me casei com um homem disposto a vender a alma por dinheiro e poder — respondeu ela, firme. A tensão no quarto ficou ainda mais densa. Diego sentia o sangue ferver e sabia que, se continuassem aquela conversa, ele diria coisas das quais talvez se arrependesse. — Elisa, já chega. Não vou ficar me justificando para você. Se não consegue aceitar o homem que sou hoje, talvez seja você que precisa repensar o que quer. Ela deu um passo à frente, encarando-o de perto. — Talvez eu já esteja repensando, Diego. Porque eu não posso mais viver assim. Diego não esperava ouvir isso. Por mais que o casamento estivesse em crise, nunca achou que Elisa chegaria a pensar em desistir. Mas, ao invés de recuar e tentar salvar o que ainda restava, seu orgulho falou mais alto. — Faça o que quiser, Elisa. Se acha que pode encontrar algo melhor, vá em frente. Mas não espere que eu mude. Elisa sentiu o coração apertar com aquelas palavras. Lágrimas ameaçaram cair, mas ela se recusou a chorar na frente dele. Apenas balançou a cabeça, decepcionada. — Você já se perdeu, Diego. E, infelizmente, acho que perdeu a mim também. Sem dizer mais nada, ela pegou um cobertor e saiu do quarto, deixando Diego sozinho, consumido por sua raiva e frustraçao Na sala, Elisa se sentou no sofá e abraçou o cobertor com força, sentindo o vazio crescer dentro dela. Não sabia o que o futuro reservava, mas sabia que, se Diego continuasse naquele caminho, o casamento deles estava fadado ao fim. Enquanto isso, no quarto, Diego sentia uma mistura de emoções: raiva, culpa e, acima de tudo, medo de perder Elisa. Mas, em vez de enfrentar esses sentimentos, ele decidiu ignorá-los. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Paula: “Amanhã precisamos conversar sobre o próximo passo.” Ele havia feito sua escolha, e, naquele momento, a ambição ainda falava mais alto do que o amor que sentia por Elisa.O sol nasceu no horizonte, mas a luz que entrava pelas janelas da casa de Diego e Elisa não dissipava a escuridão que pairava entre eles. A noite anterior fora um divisor de águas, e Elisa sentia que algo dentro dela havia mudado. Ao sair do quarto e passar a noite na sala, refletiu sobre tudo o que estava acontecendo e percebeu que, se Diego não mudasse, ela precisaria tomar uma decisão definitiva. Na cozinha, Elisa preparava o café em silêncio quando ouviu os passos de Diego. Ele desceu as escadas com a expressão fechada, sem nem tentar esconder o cansaço e o aborrecimento. — Bom dia — murmurou ele, sem olhar para ela. Elisa apenas assentiu, sem responder. Diego notou o silêncio frio e sentiu um desconforto. Mesmo assim, decidiu ignorar, pensando que talvez o tempo resolvesse as coisas. Pegou uma xícara de café e se sentou à mesa. Após alguns minutos de silêncio sufocante, Elisa finalmente quebrou o gelo: — Diego, nós precisamos conversar. Ele suspirou, já esperando mais
A madrugada avançava lentamente, e Diego continuava sentado no sofá da sala. A garrafa de uísque agora estava quase vazia, mas a embriaguez não preenchia o vazio que consumia seu peito. O silêncio daquela casa antes tão viva parecia zombar dele. O som da risada de Elisa, as conversas leves durante o jantar, os planos que fizeram juntos… tudo parecia parte de uma memória distante, como se pertencesse a outra vida. Ele apertou os olhos, tentando afastar as lembranças, mas era inútil. O rosto de Elisa continuava presente em sua mente, e a culpa começava a corroer o que restava do orgulho que o impedia de admitir seus erros. Pela primeira vez, Diego não conseguiu se convencer de que estava no controle. Pela primeira vez, ele sentia que estava completamente perdido. Elisa acordou cedo na casa de sua mãe. Apesar da exaustão emocional, o sono fora leve e agitado. Ela olhou para o teto do antigo quarto e, por um momento, sentiu-se como uma adolescente novamente, buscando refúgio nos braços
Elisa estava deitada na cama que, anos atrás, fora seu refúgio durante a adolescência. Agora, porém, aquele espaço não trazia mais consolo. Ela encarava o teto escuro enquanto as lágrimas deslizavam silenciosamente pelo rosto. O choro se tornara uma rotina inevitável. A separação ainda parecia um pesadelo do qual não conseguia acordar. Casar-se havia sido seu maior sonho. Ela crescera acreditando no amor verdadeiro, no "felizes para sempre", e quando encontrou Diego, achou que ele fosse o homem que tornaria tudo isso realidade. Mas agora estava ali, sozinha, enfrentando a dura verdade: nem todo amor resiste. Ela pensava no momento do casamento, quando subira ao altar com o coração cheio de esperança. Lembrava-se do olhar apaixonado de Diego, do juramento que ele fizera, prometendo estar ao lado dela para sempre. E agora, anos depois, tudo aquilo não passava de lembrança. Elisa se sentia despedaçada. Não apenas pelo fim do casamento, mas pela sensação de ter fracassado. Desde menina
Diego sentia que estava em queda livre. Desde o fim de seu casamento com Elisa, a vida que ele construíra com tanto esforço parecia estar ruindo. Por fora, ainda mantinha a pose de empresário bem-sucedido, mas, por dentro, ele estava vazio. As reuniões de negócios, os jantares sofisticados e as cifras milionárias que antes o preenchiam já não tinham mais o mesmo brilho. Nada tinha. Algo dentro dele estava despedaçado, e ele sabia muito bem o que era: a ausência de Elisa. Nas semanas seguintes à separação, Diego tentou ignorar a dor. Jogou-se ainda mais no trabalho, aceitando projetos arriscados, correndo atrás de contratos maiores e passando noites em claro em reuniões intermináveis. No fundo, ele esperava que o sucesso profissional compensasse a perda pessoal. Mas não compensava. Diego havia entrado no mundo dos negócios movido pela ambição. Desde jovem, sonhava em ser poderoso, em ter status e reconhecimento. E, por algum tempo, ele teve tudo isso. Com Elisa ao seu lado, senti
Após o encontro com Elisa, Diego sentiu um peso ainda maior sobre seus ombros. A rejeição dela foi como uma confirmação de tudo o que ele temia: o casamento deles realmente havia chegado ao fim, e não havia nada que ele pudesse fazer para voltar ao passado. Agora, só restava seguir em frente — mas como? De volta ao apartamento vazio, ele sentou-se à beira da cama e encarou o silêncio que o rodeava. Pela primeira vez em anos, Diego percebeu que o poder e o sucesso que tanto buscou não tinham valor algum sem alguém para compartilhar. Ele pensou em Elisa e nas palavras que ela havia dito na livraria. “Estou construindo uma nova vida.” Diego sabia que precisava fazer o mesmo. Não podia continuar se lamentando. Se queria ser um homem melhor, precisava agir. --- No dia seguinte, Diego tomou uma decisão que vinha adiando há muito tempo: ele pediu afastamento temporário da empresa. Precisava de um tempo longe da pressão, dos negócios e das reuniões que antes dominavam sua vida. — Vo
Apesar de suas tentativas de mudança, Diego não conseguiu escapar de sua própria natureza. O trabalho, que antes era uma ferramenta para alcançar status e poder, passou a se tornar sua única válvula de escape. A necessidade de preencher o vazio que sentia o empurrou de volta para o mundo corporativo, onde os problemas e a pressão o faziam se esquecer momentaneamente dos erros que cometeu, das falhas que não conseguia corrigir Ao retornar de sua breve estadia no interior, Diego mergulhou de cabeça no trabalho. Sua decisão de se afastar temporariamente da empresa logo foi revertida, pois ele se sentia incapaz de ficar longe das responsabilidades que sempre dominaram sua vida. Rafael, seu amigo e sócio, sabia o quanto ele estava lutando contra seus próprios demônios, mas não podia deixar a empresa sucumbir devido às distrações de Diego. Assim, ele pressionava Diego para voltar ao ritmo de antes. — Diego, você não pode parar agora. Temos um lançamento importante na próxima semana e su
Os dias no hospital foram longos. Diego passou por uma bateria de exames, conversas com médicos e visitas de familiares. Mas o que mais o atingia era o silêncio. Pela primeira vez em anos, ele não estava cercado pelo caos do trabalho. Não havia reuniões, não havia ligações incessantes, não havia decisões urgentes. Apenas ele, sua mente e o vazio que, agora, parecia ainda mais profundo. Os médicos recomendaram que ele fizesse terapia e considerasse um tempo afastado da empresa. Seu corpo estava frágil, mas sua mente estava ainda pior. Rafael assumiu as rédeas dos negócios temporariamente, garantindo que Diego tivesse o tempo necessário para se recuperar. Mas Diego se perguntava: recuperar-se para quê? --- Em uma das manhãs no hospital, Diego recebeu a visita de Rafael. O amigo entrou no quarto com um olhar preocupado, mas sem a formalidade dos negócios. — Você precisa mudar, cara — Rafael disse, sem rodeios. — Isso que aconteceu com você… é sério. Você quase cruzou um limite pe
Diego sentia o coração bater mais forte enquanto encarava Elisa. O tempo havia passado, mas vê-la ali, tão próxima, fazia as lembranças voltarem como uma avalanche. Elisa parecia diferente. Não apenas fisicamente, mas na maneira como mantinha a postura firme, segura de si. Seus olhos ainda carregavam uma sombra de mágoa, mas também um brilho de alguém que havia seguido em frente. — Como você está? — ela perguntou, rompendo o silêncio. Diego hesitou por um momento, escolhendo as palavras com cuidado. — Tentando me encontrar — ele disse, sincero. — Acho que perdi o controle da minha vida por um tempo. Elisa assentiu, mexendo na alça da bolsa. — Fiquei sabendo do que aconteceu com você — sua voz tinha um tom de compaixão, mas não de fragilidade. — Fiquei preocupada, mas não sabia se deveria procurar você. Diego baixou os olhos para o café intocado à sua frente. — Eu teria entendido se não procurasse — ele admitiu. — Eu causei muita dor a você, Elisa. Não espero que esqueç