Hugo atendeu descontraído.
— Senhor Hugo Novaes?— Sim. Quem é?— Sou Pedro Costa, organizador do feirão de usados aqui do Campo Grande. Queria informar que seu stand está vazio. Tentamos contato com os telefones dos gerentes e nenhum está atendendo. Não podemos nos responsabilizar pelos carros que estão aqui.— Como assim vazio? O pessoal da loja não apareceu? — Hugo se levantou rapidamente, chamando a atenção de todos. O semblante dele se tornou preocupado. — Quem deveria estar no Campo Grande hoje? — Ele se voltou para Alexandre com urgência.— Deixa eu ver na planilha. O que aconteceu? — Alexandre conferia o celular rapidamente.— Não. Uma das vendedoras com quem consegui contato disse que estava com dengue e passou o telefone do gerente, mas esse nem atendeu. Vocês precisam pelo menos busNicole zapeava as redes sociais na beira da piscina do hotel. Hugo demorou mais do que imaginou para chegar. Enviou vários presentes e muitos passeios para que ela se distraísse enquanto ele resolvia questões importantes de trabalho. Ela podia lidar com isso; afinal, estava namorando um homem de negócios. Sabia que, eventualmente, seria substituída por uma pilha de papéis. Mas o que viu nos stories de Alexandre a fez tremer de ódio. Hugo havia dado um churrasco com todos os amigos importantes da família e dos negócios.Reconheceu pelo menos quatro pessoas ali. As crianças com seus amigos e Jéssica posando como a esposa dele.Sempre ao lado dele, atendendo aos convidados com toda a gentileza. Isso era demais! Hugo a enganou. Olhou nos stories dele e não viu nada sobre o churrasco. Jéssica fez apenas um post de agradecimento aos amigos pela compreensão.Compreensão por quê? Correu novamente pelas redes das pessoas próximas. Ela montava o quebra-cabeça daquele dia com a voracidade de ci
— Posso aparecer a qualquer momento. Não sou nenhuma criminosa. Nicole não estava disposta a aceitar os desaforos de Jéssica. Passou da hora de mostrar que, na vida de Hugo, ela não era mais do que a mãe das crianças.— Gente, podemos tomar um café da manhã tranquilo? — Hugo tentava apaziguar os ânimos.— Isso não significa que você pode invadir a minha casa sem ser convidada. — Jéssica não estava de brincadeira. Se Nicole estava disposta a arrumar confusão, iria encontrar.— É a casa do meu namorado. Tenho todo direito de aparecer quando eu quiser!— Calma, gente. Vamos conversar com calma. Olha, a Célia fez um bolo. Vamos comer, parece tão gostoso. Hugo apontava para a mesa ricamente posta tentando desviar o foco das duas.Jéssica e Nicole se encaravam com expressões sérias. O mínimo gesto faria um estrago na casa.— Seu namoro não deve abalar a vida dos meus filhos! Sua presença não é bem-vinda e você sabe disso. Jéssica se aproximou com postura assustadora.— O quê? Hugo, você vai
No corredor dos quartos do hospital, Jéssica estava alinhada com Mariana, Jonathan e os outros residentes, aguardando as apresentações dos médicos que seriam seus mentores na residência.— Bom dia. Sou o professor Thomas, vou acompanhar os residentes de cardiologia.— Bom dia. Sou a professora Ana Lúcia, vou acompanhar os residentes de pediatria.— Bom dia. Sou o doutor Paschoal e vou acompanhar os residentes de ginecologia.Após as apresentações, todos se dirigiram às respectivas alas para acompanhar o andamento dos casos. Jéssica sentiu uma sensação de impotência e descrença ao se deparar com uma paciente que chegou com uma hemorragia intensa, que persistia há três dias e não respondia ao tratamento.O professor Paschoal aproximou-se de Paula, uma mulher pálida e visivelmente debilitada. Sua respiração estava ofegante, e seus olhos, com olheiras profundas, buscavam um fio de esperança de que logo sairia dessa situação.— Essa é a Paula. Está com uma hemorragia severa. Marcos, o que c
Jéssica chegou muito feliz à porta da escola. Alinhou seu horário de residência para a manhã. Se organizou para que, mesmo que precisasse fazer horas extras — o que era muito comum —, sempre estaria livre no final da tarde e à noite.Reservou para si as sextas-feiras e os fins de semana. Estava muito satisfeita com esse arranjo. Sentia-se sobrecarregada por estar dividida entre a pressão de se dedicar ao trabalho e aos filhos na mesma intensidade.Nessa queda de braço, parecia estar constantemente devendo aos filhos, como se o tempo que dedicava a eles estivesse sempre aquém do que mereciam ou precisavam. Essa culpa latejava em seu coração permanentemente e, às vezes, comandava algumas atitudes que tinha com os filhos.Buscava sempre compensações extravagantes para o que considerava ser a falta diária.— Mamãe! — Os
Maria, na ânsia de afastar Nicole, acabou dando tudo o que ela precisava para se aproximar com mais força do “ecossistema”. O momento rude garantiu a presença de Nicole no jantar que seria apenas deles. E, graças a isso, nada aconteceu como de costume. Hugo foi de carro com ela. Jéssica levou as crianças. Chegaram juntos, mas seus corações não poderiam estar mais separados.— Olhe só, aquela mesa parece bem localizada. — Nicole se sentia no direito de tomar todas as decisões. Segurando firme no braço de Hugo, ela caminhava com imponência, usando esse momento para deixar claro que tinha um lugar na vida desse homem, as crianças gostassem ou não.— Já temos a nossa mesa. — Caio seguiu para o lugar de costume. De todos, ele era o mais irritado. Justo no dia em que ele escolhera o passeio, tudo estava diferente. Par
Jéssica caminhava com dificuldade pelos corredores lotados do hospital. Os pacientes estavam amontoados em todos os locais, formando barreiras pelos corredores. Um desconforto para todos da equipe. O excesso de gente trazia um aumento do barulho e um risco tremendo de contaminação.Passou enquanto o moço da assepsia limpava o vômito da paciente com dengue. Ela entrou no quarto e fechou a porta rapidamente. Finalmente, um segundo de silêncio. Se encostou na porta e fechou os olhos para aproveitar a tranquilidade.— Não se incomode, Jéssica. Temos a manhã toda para esperar você se recuperar. — O professor Paschoal a trouxe para a realidade com uma boa dose de sarcasmo.— Desculpe, professor. — Envergonhada, ela se aproximou da cama para uma boa surpresa. Paula estava visivelmente melhor. O sangramento tinha sido controlado, e o aspecto de calma deu lugar ao de sofrim
O professor Paschoal estava encurralado por três alunos descontentes. Fechou os olhos e respirou fundo para encontrar a calma necessária para responder à quantidade de reclamações.— Ela é uma residente do primeiro semestre, por que tem preferência na hora de realizar procedimentos, se eu, que estou no terceiro, não tive a chance ainda? Uma aluna reclamava, gesticulando meticulosamente, tentando mostrar ao professor que a decisão dele não fazia sentido.— Ela conquistou a confiança da paciente e já demonstrou mais habilidade do que alguns do terceiro ano. Paschoal estava encurralado na sala do café. Eram poucos os ambientes onde a equipe podia descansar alguns minutos com o hospital tão lotado.Ele verificava com a direção médica se já tinham emitido o aviso de superlotação para a central de regulaç&
Jéssica pediu para Hugo buscar os filhos, pois seria necessário fazer hora extra hoje. O corpo pesado e a mente um pouco aérea não eram motivo para deixar tantas pessoas sem atendimento.Ficou aliviada quando soube que não chegariam mais pacientes. Depois de um plantão de vinte e cinco horas, voltou para casa.Tomou outro banho por puro hábito e dormiu o quanto pôde. Era sexta feira; poderia passar o final de semana se recuperando.Jonathan não teve a mesma sorte. Pegou um paciente complexo, que precisou de várias cirurgias para se estabilizar. Não realizou o procedimento diretamente, mas acompanhou de perto todo o processo.— Ritmo sinusal — disse o professor Thomas, depois de inserir o último stent e observar a resposta do coração à intervenção. As mãos fechadas em uma celebração contida.Só