Capítulo 3

Capítulo 3

Ashley

    Já é tarde quando finalmente chego em casa e preciso correr para me arrumar. Mary, a governanta, resmunga quando passo correndo por ela no corredor. No meu quarto, me apresso em um banho e visto um vestido azul claro que foi presente da vovó Campbell. A saia dele é esvoaçante, enquanto o corpete é justo. As mangas são longas e um pouco bufantes, delicadas com a transparência do tecido. A peça é linda e delicada.

    Uma tiara com diamantes enfeita minha cabeça, assim como meu querido colar de girassol no pescoço. Aos sete anos encontrei ele em uma caixa de coisas antigas minhas. “Uma velharia”, foi tudo que minha mãe disse quando perguntei sobre o colar. Nos pés tenho um salto baixo branco e pretendo deixar meu cabelo solto. Em meu rosto há somente um pouco de rímel e gloss de cereja.

    Termino de me arrumar e observo meu reflexo no espelho atentamente. Vovô, vovó, Bella, Thony e Alexa falam que sou muito bonita, mas não consigo concordar. Acho minha aparência muito... comum. Meu cabelo é de um loiro claro natural, meus olhos são verdes, minha pele é clara com um fundo ligeiramente bronzeado e meus traços são delicados e simples. Como eu disse, muito comum.

Quando termino, alguém b**e na porta. Os três toques ritmados anunciam quem está prestes a entrar por ela. Ele cruza a soleira calmamente, seu olhar gelado e o sorriso falsamente acolhedor imediatamente enviando um arrepio ruim pelo meu corpo. Já presenciei pessoas caírem aos seus pés com esse falso charme de bom homem mais vezes do que posso contar. Nunca posso deixar de me perguntar como elas não percebem a rigidez fria em todo seu corpo. Como o sorriso as vezes se congela como uma fotografia viva. Ou pior, como seus olhos são mortos e vazios. Sem calor. Sem brilho. Sem vestígios de sentimentos

    "Olá Ashley." Sem me virar, observo cada mínimo movimento seu através do espelho. Nenhum esforço meu é capaz de fazer meu corpo relaxar. Ela nunca vem ao meu quarto, sempre que precisa me dizer algo ele faz no jantar ou no escritório

    "Oi pai." O nome é amargo na minha boca. Algo no meu peito me lembra constantemente que talvez ele não mereça esse título. "Correção: Definitivamente não merece", Donna disse uma vez, quando me descontrolei e falei mais do que deveria sobre nossa dinâmica familiar, embora ainda não fosse sequer um terço de tudo.

    Mais uma vez eu tento ler suas expressões e tentar identificar o que vem a seguir, e falho miseravelmente, como sempre. Ele se aproxima e segura em meus ombros, encontrando meus olhos através do espelho. "Você sabe que o homem que virá esta noite é alguém muito importante, certo?" Luto para não ficar rígida como uma tábua. Brian Campbell está longe de ser carinhoso em particular, embora não possua uma natureza diretamente agressiva. Na maior parte do tempo.

    "Sim." Respondo, ainda em alerta e tentando entender aonde ele quer chegar.

    "Essa noite, preciso convencer esse homem de que é uma boa ideia trabalhar comigo. E acredito que todos vocês possam ajudar." Brian faz uma pausa deixando o silencio se estender até que eu responda. "Como ?"

    "Quero que ele conheça minha família, então seja agradável e simpática. Certo?"

    “Tudo bem.” Brian nunca ordenou algo assim quando esperávamos visitas, no máximo Giulia dizia para meus irmãos e eu nos comportarmos.

    "Ótimo."

    Meu corpo quase relaxa quando ele se vira para sair, então ele para na porta e se vira. “Use o vestido preto do que sua irmã comprou.”

    Há alguns dias Beatrice foi às compras e me trouxe um vestido preto lindo, um pouco diferente do que costumo usar. “Ordens do papai”, ela disse.

    Brian permanece parado na porta esperando minha resposta, talvez me desafiando a negar, talvez não. Eu quase nunca sabia dizer ao certo.

    “Vou me trocar.” O pequeno sorriso que encontro deveria ser encorajador mas nada mais é do que frio. Eu devolvo com um pequeno sorriso praticado.

    Atuar é o que fazemos de melhor.

Joseph

    Eu amo a minha mãe e pela educação que ela me deu – por medo dela também, diga-se de passagem – tento ser educado e minimamente sociável. Muitas vezes, porém, tenho empecilhos que tornam essa tarefa muito mais difícil. Como agora, por exemplo, nesse jantar tedioso onde Brian Campbell se concentra em me bajular discretamente e me convencer a aceitar sua proposta de sociedade, enquanto sua esposa e filha mais velha me observam como um falcão. Giulia ao menos tenta ser discreta, mas ainda quase posso ver cifrões de dinheiro reluzindo em seus olhos, ao contrário da filha que não parece ligar se algum de nós já notou, na verdade isso parece deixá-la ainda mais ousada.

    Beatrice é bonita e muito sensual, ela poderia ser uma boa companhia no fim da noite se o meu foco principal não fosse este suposto acordo que talvez possa ditar o futuro da minha carreira. Tudo pelo que lutei pode valer a pena mais do que nunca, ou não.

    Apesar de tudo não me orgulho de admitir que quem realmente capturou minha atenção nesse jantar foi a jovem filha do meio dos Campbell, Ashley. Pelo que sei ela é o membro mais recluso do clã. A última vez que a vi foi alguns anos atrás em uma festa beneficente da empresa e ela definitivamente não tinha todas essas curvas. Essa mulher polida e de aparência impecável tem pouca semelhança com a garota desengonçada e deslocada naquele baile. Se parece menos ainda com o tipo de mulher que costumo sair, uma voz indesejada sussurra na minha mente. Sinto muita vontade de me dar um tapa mental com a pontada de interesse por uma garota de apenas dezenove anos – segundo Giulia.

    Quando Brian desvia a conversa para a empresa vejo uma possível brecha para adiantar as coisas e sair o quanto antes daqui. No momento oportuno, pergunto:

    "Sr. Campbell, se importa de irmos ao seu escritório para conversarmos melhor?"

    "Apenas Brian, por favor, não estamos na empresa, esse tipo de formalidade é desnecessária" Ele se recosta, adotando uma postura relaxada embora ainda demonstre bastante segurança. "A sobremesa está quase pronta, depois poderemos ir ao meu escritório e conversaremos melhor." O seu sorriso agradável é tão falso que me pergunto como as pessoas podem acreditar nessa fachada. Talvez o fato de já ter vivido em uma teia de mentiras me ajude a enxergar por trás desse teatro.

     A questão aqui é que Brian parece saber que preciso dele um pouco mais do que ele precisa de mim, e embora ambos estejamos supostamente interessados nos benefícios da sua proposta, ele vai segurar isso em volta do meu pescoço o quanto puder. Divertindo a si mesmo com esse espetáculo.

Ashley

    Joseph Crawford é o nome do homem que meus pais estão tentando impressionar. Ele é bonito e... eletrizante. E ao contrário da maior parte dos amigos do meu pai, é consideravelmente jovem. Seu aperto de mão quando fomos apresentados espalharam um agradável arrepio pelo meu braço, diferente do desconforto que normalmente sinto com os amigos de Brian e Giulia.

    Em determinado momento me vi reparando atentamente em seus traços. No seu cabelo castanho escuro penteado para trás, um pouco bagunçado, mas muito bonito. Na forma como suas bochechas adquiriram um pouco de cor, de maneira quase imperceptível, devido ao vinho. E, não me orgulho de dizer, mas também não deixei de notar como a camisa escura se agarrava e esticava ao redor dos seus bíceps definidos.

    No decorrer do jantar minha curiosidade sobre o senhor Crawford é ainda mais instigada. Ele não se comporta como nossos convidados convencionais, não houve troca de bajulações com meus pais nem sorrisos falsos. Ele não caiu tão facilmente no charme Campbell e isso desperta meu interesse.

    Os momentos que meus pais surpreendentemente tentaram me inserir na conversa, ao invés de me ignorar como normalmente fazem, foram os mais desconfortáveis. Eles estavam não tão discretamente tentanto incentivar uma troca entre o Sr. Crawford e eu. É claro que minha única alternativa era dançar conforme a música deles. Felizmente o assunto se desviou para a empresa e consegui alguma pausa.

    No fim do jantar, de repente nossos olhares se encontram e se fixam por algum tempo a mais do que seria aceitável. Felizmente todos estão se preparando para a sobremesa e ninguém se dá conta, eu espero pelo menos. Joseph dá um pequeno sorriso, quase inexistente, que logo morre quando sua atenção desce em direção aos meus lábios. Com o lábio inferior preso entre os dentes e o rosto aquecido pela vergonha, noto seus olhos ficarem mais escuros. Ou talvez seja coisa da minha cabeça. Rapidamente desvio minha atenção para minhas mãos que descansam sobre minhas coxas. Eu não sou totalmente inocente em relação aos homens, principalmente tendo uma amiga tão sem filtro como a Isabella, mas flertar não está na minha lista de especialidades.

    Após a sobremesa papai leva o Sr. Crawford até o escritório, os gêmeos Éric e Annabelle vão encontrar seus amigos e ficamos somente eu, mamãe e Beatrice para trás. Giulia entorta um pouco a boca enquanto olha para meu vestido e sua expressão piora quando coloca os olhos no colar em meu pescoço. Ela não comenta, apesar dos seus olhos dizerem tudo que ela pensa. Pra começa ela não gostou da roupa, o que não é novidade, ela nunca gosta de qualquer coisa que eu use. E gosta menos ainda do meu antigo colar. Talvez já prevendo o que pode acontecer, Beatrice me chama para seu quarto e me puxa pelas escadas sem que a mamãe tenha chance de falar algo.

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