2. O ALFA KAESAR  

KAESAR: 

O meu lobo, Kian, não me deu descanso durante todo o dia. Desde o amanhecer, contorcia-se com uma inquietação que eu não conseguia decifrar. A sua urgência crescia a cada minuto, impedindo-me de me concentrar, muito menos de desfrutar do jantar que me tinham servido. No final, desisti. Transformei-me, deixando que Kian assumisse o controlo.  

A ventania era cruel; a neve caía com força, cobrindo cada centímetro da floresta. Mas Kian corria com determinação, sem se importar com o frio que cortava como lâminas nem com os ramos que arranhavam o meu pelo enquanto passávamos a toda a velocidade entre as árvores. Sabia para onde ia, ainda que me custasse admiti-lo. Reconhecia aquela direção. A cada passo, a verdade tornava-se mais clara na minha mente: o refúgio da mãe de Kaela.  

A minha respiração tornou-se rápida. Teria ela voltado? Depois de tantos anos a procurar sinais, poderia ser verdade? O pensamento deixou-me tão abalado que até Kian diminuiu o passo por um momento. Lembrei-me do pacto com o Alfa Ridel, o pai dela. A estratégia perfeita para a proteger, para a esconder do perigo depois daquela noite escura em que a mãe dela perdeu a vida. Kaela tinha desaparecido sem deixar rastro, e nem mesmo os meus recursos eram suficientes para encontrá-la. Eu era apenas um menino naquela altura, um filhote impotente comparado com os lobos que a perseguiam.  

Agora, tudo indicava que ela estava aqui. Estávamos tão perto que Kian acelerou novamente; o seu impulso tornou-se frenético. A sua alegria quase infantil era palpável, como se finalmente tivéssemos encontrado o que tanto desejávamos. A minha mente encheu-se com uma imagem: Kaela. Forte, indomável, a loba que eu tinha prometido transformar na minha Lua. Tudo estava pronto, exatamente como tinha planeado. Ridel tinha cedido à minha insistência, vencido pela promessa de paz e algo mais.  

Um uivo, de partir o coração e carregado de sofrimento, reverberou entre as árvores, seguido por vozes que cheiravam a traição. O peito de Kian vibrava com um rugido desesperado enquanto as suas patas nos impulsionavam ainda mais rápido. Era ela, a minha Lua. Eu sabia. Sentia em cada fibra do meu corpo. Tínhamos que chegar, protegê-la. Mas quando irrompi na clareira, as minhas patas travaram repentinamente, e o ar faltou-me.  

Ali estava ele, o Alfa Ridel. O seu corpo enorme contorcia-se sobre uma poça de sangue vermelho que se misturava com a neve branca, formando grossos riachos escarlates. A sua garganta, rasgada, já não emitia rugidos de comando, mas sim gemidos intermitentes e fracos.  

—Alfa Ridel! —exclamei, mudando para a minha forma humana sem pensar. Apressei-me para me aproximar dele, pressionando contra a sua ferida, mas era inútil. A vida escapava do seu corpo tão rápido quanto o sangue.  

Ele olhou para mim, os seus olhos vidrados, opacos, apagavam-se com cada segundo que passava. A dor vencera-o, mas mesmo assim, ele tentava falar, lutando contra a gravidade da sua ferida. Da sua garganta rasgada escapavam borbotões de sangue que tingiam a neve de vermelho, como se a terra chorasse por ele. Inclinei-me para o seu rosto, implorando por mais uma palavra, uma última pista que me guiasse entre a fúria que fervia no meu peito.  

—Kaela… —murmurou, num sussurro arrastado—. Salva Kaela. Levaram-na.  

Aquelas palavras cravaram-se na minha alma como garras afiadas. A minha Kaela. A minha futura Lua. Levaram-na e, com ela, levaram a única razão que tinha para conter o monstro que rugia dentro de mim. Eu não era um simples Alfa, não era mais um entre os lobos. Eu era um Alfa Real, o último da minha linhagem, o herdeiro de uma estirpe que governava com honra e sangue desde que os lobos caminhavam por estas terras.  

Ninguém podia roubar-me o que me pertencia sem pagar um preço tão alto que os ecos do erro ficariam gravados na memória de todas as alcateias. As minhas garras enterraram-se na neve ensanguentada de Ridel, tremendo enquanto a raiva e a dor ferviam nas minhas veias como um veneno incandescente, alimentando a minha transformação.  

—Quem? Diz-me quem fez isto! —rugI cheio de fúria, sob o peso da ira. A minha futura Lua estava em perigo. —Por que não me avisaste que ela viria para que eu a protegesse?  

Ridel, já mais próximo da morte que da vida, ergueu lentamente uma mão e apontou para as sombras da floresta. Um último suspiro escapou dos seus lábios antes de deixar o braço cair, inerte.  

—É tua Lua… É uma Alfa Real. Salva-a —murmurou, e então o silêncio envolveu tudo.  

Fiquei ali, congelado por um instante que parecia eterno, observando os seus olhos apagarem-se como brasas que finalmente cediam ao frio. Ridel, o lobo que depois da morte do meu pai me tinha ensinando a dominar a minha força, a respeitar o legado que corria nas minhas veias, agora jazia imóvel. As suas palavras ressoavam na minha mente com incredulidade.  

Kaela? Minha Kaela? Era uma Alfa Real como eu?  

Não era apenas a minha Lua destinada, mas, tal como eu, ela carregava o mesmo sangue sagrado, a mesma linhagem. Agora entendia tantas coisas que não compreendia antes, porque me tinham sido escondidas até ao momento. Ela não era só minha por destino; era minha por direito, como o último Alfa Real. E tinham-se atrevido a tocar na essência do que nós éramos!  

Um rugido saiu das minhas entranhas como um trovão, enchendo o ar frio com uma declaração que fazia estremecer o chão sob os meus pés. Não era apenas um grito; não era algo que pudesse ser ignorado. Era o chamamento do Alfa Real. Era um aviso para todos os que tivessem a audácia de cruzar o meu caminho.  

Transformei-me imediatamente no meu lobo, Kian. A neve, agora tingida de vermelho, estalava sob as minhas patas, com o meu peito ainda vibrando com uma energia que só o meu sangue conseguia invocar. Hoje, saberiam o que era enfrentar o último da minha espécie.  

Observei o horizonte, cerrando os dentes enquanto o controlo desvanecia-se entre tanta fúria. Hoje, não haveria limites. Hoje, não haveria tréguas. Deixei o meu Alfa Real assumir o controlo sem resistência. Era o momento. Era a hora de libertar a tempestade que tinha estado adormecida na minha linhagem por séculos.  

Os rastos de Kaela e dos seus raptores tinham sido apagados pela neve, e a ventania tornava-se cada vez mais intensa. Fechei os olhos e deixei que o eco do meu chamamento se espalhasse como um clamor desesperado, ao mesmo tempo cheio de poder. Ela não podia ter-me esquecido; era algo nosso, íntimo. Mas não obtive resposta. Por quê? Porque ela não me respondia para que eu pudesse ajudá-la?  

O silêncio que se seguiu foi mais aterrorizador que qualquer rugido inimigo que eu pudesse enfrentar. A floresta permaneceu muda, e a ventania roubava uma resposta antes mesmo que pudesse chegar aos meus ouvidos. Senti algo indescritível a apertar o meu peito, um peso que não era medo, mas algo pior: a incerteza.  

—Kaela! —chamei novamente, desta vez com mais força, rompendo a quietude, exigindo a sua resposta como um direito absoluto. —Kaela, vou encontrar-te!  

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