CaíqueEstou sentado no sofá da sala, olhando para o nada. O celular repousa sobre a mesa de centro, e a notificação da proposta de trabalho ainda brilha na tela, como se me provocasse.Deveria estar feliz. É exatamente o tipo de oportunidade que eu sempre esperei. Trabalho estável, em uma empresa de prestígio, longe daqui — um recomeço. Mas, ao invés de comemorar, só consigo sentir um nó apertando minha garganta.Passo as mãos pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. Quando vim para cá, não planejava ficar muito tempo. Queria resolver os problemas da família, ajudar com as contas, colocar tudo nos eixos. Mas agora tudo mudou.Se fosse em outra época, eu aceitaria sem pensar duas vezes e agradeceria ao universo por isso. Eu estava ansiando por uma oportunidade melhor, e uma vaga nessa empresa era um sonho profissiona
Mayara— Você falou que encontrou mãe dele? E como foi? — Gabi pergunta do outro lado da linha. Desde que cheguei em casa, estou atualizando-a sobre todo o nosso final de semana. Posiciono o celular entre meu ombro e orelha, seguindo nossa conversa enquanto lavo a louça.— Liguei para ele e contei, ele parecia nervoso, mas falei tudo e foi bom fazer isso. Estamos do mesmo lado. Sem segredos. — Respiro fundo. — Na verdade, tudo tem sido muito bom. — Não consigo evitar o meu sorriso ao lembrar de como foram maravilhosos os últimos dias em que estivemos juntos. — Caíque é incrível.— Huuuuum… Incrível, né? — brinca, me fazendo rir. — É bom te ver feliz.— Obrigada. É bom estar assim de novo. — Fecho a torneira e seco as mãos no pano de prato. — Gustavo também está feliz.— Está mesmo. Ele falou para a gente sobre o Caíque por horas. E quando você falou que Caíque ia vir buscar ele, Gu ficou desesperado. — Sorrio. — Ele está muito feliz.Estou na cozinha, preparando o jantar enquanto Gust
MayaraPasso o pano na bancada da cozinha pela terceira vez. Não tem mais sujeira, mas meus pensamentos estão tão bagunçados que preciso manter minhas mãos ocupadas. Respiro fundo e olho pela janela, tentando clarear a mente.Desde que o Caíque falou sobre a proposta de trabalho, não consigo pensar em outra coisa. Ele disse que não sabe o que fazer, que precisa de tempo para decidir. E eu? O que faço enquanto ele pensa?Eu sabia que isso poderia acontecer. Desde que ele voltou, sempre imaginei que, a qualquer momento, ele poderia ir embora de novo, voltar para sua vida. Mas imaginar é uma coisa. Encarar a possibilidade de verdade é completamente diferente.Olho para a sala e vejo Gustavo distraído com os brinquedos espalhados pelo chão. Ele parece tão feliz agora que o Caíque está presente, tão seguro e confiante. Me dói pensar que isso pode mudar de novo.Mas o que posso fazer? Não posso simplesmente pedir para ele ficar. Não seria justo. Não quero ser um peso, um obstáculo no caminh
CaíqueDepois de conversar com a Mayara, pedi se podia ficar no seu sofá, pensando em falar com o Gu pela manhã. Ela não se opôs. Ofereceu espaço, como fez outras vezes. Passei a noite em claro, com as palavras de Mayara e preocupações do Gustavo ecoando na minha cabeça. Ele tem medo de eu ir embora de novo. Medo de me perder. Eu nunca quis que ele se sentisse assim, mas a verdade é que deixei isso acontecer. Minha ausência no passado criou uma insegurança que eu talvez nunca consiga apagar.Ficar ou partir? Essa pergunta tem me atormentado há dias. Desde que recebi a proposta de trabalho, só consigo pensar no que seria melhor para todos nós. Mas, no meio de tanta indecisão, esqueci de considerar o mais importante: como isso afetaria meu filho.Por mais que a minha preocupação sempre foi sobre como o Gu e a Mayara receberiam a possível novidade, sei que ele é o ponto mais sensível. Com Mayara, consigo conversar e pedir sua opinião, mas com ele, não. Preciso ter uma solução para levar
MayaraChego em casa e vou até o quarto trocar de roupa. Coloco peças leves, tentando me sentir confortável, mas estou com a mente longe. As palavras de Caíque ecoam na minha cabeça, ele falou com o Gu pela manhã e pediu para conversarmos mais tarde. Como perdi hora e ele foi levar nosso filho e avisou que o buscaria, não consegui falar com o Gustavo sobre o assunto.Mas nosso filho estava calmo e feliz, isso é um bom sinal, não é?Uma parte de mim ainda está com medo.Assim que termino de me trocar, ouço batidas na porta. Corro para abrir e ao puxar a maçaneta e abrir a porta, encontro Caíque e Gustavo, em uma conversa animada.— Olha quem chegou. — Brinco, me abaixando e meu filho ri vindo para meus braços. — Saudades de você. — Beijo o seu pescoço quando o abraço e ele ri.&m
MayaraO cheiro de café fresco invade a sala enquanto ajeito os cobertores no sofá. Gustavo está no chão, cercado de brinquedos, fazendo um aviãozinho decolar com um sorriso enorme no rosto. Caíque surge na porta da cozinha, segurando duas xícaras fumegantes, e me lança um olhar tranquilo que me faz sorrir.Ainda estou me acostumando com essa sensação de paz. Depois de tudo que aconteceu, eu achei que nunca mais experimentaria essa leveza. Mas aqui estamos nós, juntos, fazendo algo tão simples como passar a noite em família.— Aqui está o café, como você gosta — ele diz, me entregando a xícara e se sentando ao meu lado no sofá.— Obrigada. — Seguro a xícara com as duas mãos, sentindo o calor aquecer meus dedos. Caíque observa Gustavo brincar e depois me olha, um sorriso suave nos lábios.— Ele está tão feliz — comenta, baixinho.— Sim. Eu também estou — confesso, quase sem pensar. Quando percebo, Caíque está me encarando com aquele olhar sério e intenso. Meu coração acelera.Antes que
CaíqueAcordo com o som das mensagens chegando no celular. Ainda meio sonolento, estico o braço para pegá-lo na mesinha de cabeceira. A claridade da tela quase me cega, mas reconheço o nome da Larissa na notificação.Lari: Precisamos conversar. Coisa boa. Me liga quando acordar.Reviro os olhos, mas um sorriso já está surgindo nos meus lábios. Larissa sempre tem um jeito dramático de dar as notícias. Me espreguiço e levanto, indo até a cozinha. O cheiro do café que ficou na garrafa de ontem ainda está presente, mas prefiro preparar um novo.Enquanto a cafeteira trabalha, encosto na bancada e finalmente ligo para minha irmã. Ela atende no segundo toque, com uma animação que eu quase nunca vejo.— Bom dia, dorminhoco!— Bom dia, senhora Larissa. Fala logo, que mistéri
MayaraAinda estou com a cabeça na rotina do trabalho quando recebo a mensagem de Caíque. Ele pergunta se podemos jantar na casa dele hoje, só nós três. Um sorriso meio bobo aparece no meu rosto. Respondo que sim, tentando não parecer empolgada demais. Quando dá o horário de buscar o Gu na escola, saio do escritório em que trabalho e faço o caminho apressadamente. Chego a tempo de ouvir o sinal da escola tocar, enquanto espero Gustavo no portão, como sempre. Ele vem correndo na minha direção, cheio de energia, e me dá um abraço apertado.— Mãe, o papai vem buscar a gente? — pergunta, os olhos brilhando de expectativa.Quando vou falar que não sei, pois não perguntei para ele quando nos falamos mais cedo, avistamos Caíque atravessando a rua. Ele vem em nossa direção com aquele sorriso tranquilo, e só de vê-lo ali, sinto meu peito aquecer.— Oi, May — ele cumprimenta, passando o braço por minha cintura e me dando um beijo rápido na boca, claramente não se importando em sermos vistos ju