Capítulo 2

Meu coração congelou, ao ver Elise novamente, olhando diretamente para mim como se estivesse pronta para me desvendar, me desmascarar, me humilhar.  Mas para meu alívio, ela logo foi puxada para os preparativos finais. A cerimônia estava prestes a começar.

Eu já esperava que assistir à cerimônia fosse um pesadelo, mas, sinceramente? Nada poderia ter me preparado para aquilo. Sentada no banco, segurando firme a mão de Christian, eu tentava manter minha expressão neutra enquanto Elise e Alex trocavam votos de amor eterno. A cada "você é o amor da minha vida", minha vontade era de me levantar e gritar "TRAIDORES".

Cada frase me atingia como um tapa. E se eu fechasse os olhos por um segundo, conseguia me lembrar do dia em que Alex me disse exatamente as mesmas palavras.

Minha mão apertou a de Christian com tanta força que meus próprios dedos doeram.

— Se continuar apertando assim, vou acabar sem circulação, amorzinho — ele sussurrou.

— Desculpa. Estou tendo um leve surto interno.

— Percebi. Quer que eu finja um desmaio para interromper a cerimônia?

— Não. Quer dizer… talvez. Se tudo falhar, jogue vinho na roupa da noiva.

Ele riu, mas não negou que faria.

Após a cerimônia, a festa revelou-se um espetáculo de riqueza. Luzes suaves, buffet sofisticado e garçons circulando com champanhe em taças de cristal.

Foi assim que Elise me encontrou: segurando minha segunda taça como se minha vida dependesse disso.

— Zoey! Estou tão feliz que você veio. — Sua voz era açucarada. — Significa muito para mim ver que conseguimos superar tudo.

Superar. Como se eu fosse a inconveniente por guardar rancor.

Alex se aproximou, analisando-me dos pés à cabeça.

— Você está diferente, Zoey.

Era quase como se ele quisesse dizer que eu não deveria estar assim. Bonita. Sorridente. Inteira. Eles esperavam me ver destruída.

— Obrigada.

Elise sorriu ao perceber Christian. Seus olhos deslizaram sobre ele, como quem avalia um produto.

— Que surpresa. Uma companhia, tão rápido?

Antes que eu pudesse responder, Christian riu baixo.

— Noivo — corrigiu Christian, deslizando a mão pela minha cintura de maneira casual, mas possessiva. Seus olhos se fixaram em Elise com um brilho desafiador. — Engraçado você falar isso, Elise. Parece que não é Zoey quem ainda vive no passado.

O sorriso de Elise não vacilou, mas eu vi seus olhos se estreitarem e suas mãos apertarem levemente o copo de champanhe. Embora tentasse esconder, era óbvio que ela estava furiosa com a insinuação. Eu, por outro lado, precisei me esforçar para conter o sorriso. 

— Então vocês estão mesmo noivos? — Elise cruzou os braços. — Que surpresa… nunca vi nada sobre vocês em lugar nenhum.

— Somos discretos — Christian respondeu.

Amanda, ex-colega da faculdade, se aproximou com seu grupo.

— Esse é o famoso noivo herdeiro? — perguntou com um sorrisinho malicioso.

— Christian Bellucci — ele se apresentou.

— Bellucci? — Helena ergueu uma sobrancelha. — Nunca ouvi falar de nenhum Bellucci solteiro no Rio de Janeiro.

— Isso não me surpreende — Christian respondeu com um sorriso educado que carregava desdém. — Afinal, não estou solteiro, não é mesmo?

Alex tentou recuperar o controle.

— Bellucci... Da vinícola Bellucci? Aquela premiada no mundo inteiro?

Senti um frio na espinha. Era um teste. Christian, ou sei lá qual fosse o nome dele de verdade, era só um gigolô. O que ele poderia entender de vinhos refinados?

— Sim, essa mesma — Christian respondeu com naturalidade. — Embora eu esteja mais focado nos investimentos internacionais da família. Raramente visito a vinícola.

Elise arregalou levemente os olhos.

— Eu trabalho com várias marcas de vinho premium e nunca te vi em nenhum evento.

— Passo a maior parte do tempo em Londres. A propósito, Alex, como vai aquele seu projeto na marina sul? Ouvi dizer que estão com problemas nas licenças ambientais.

O rosto de Alex ficou pálido.

— Como você sabe disso?

Christian deu de ombros.

— Tenho meus contatos.

Eu fiquei boquiaberta e Christian precisou apertar levemente a minha mão para que eu levantasse o queixo. Quando ele teve tempo de pesquisar sobre Alex?

Elise interveio, claramente irritada.

— Deve ser muito recente, esse noivado. — Ela me olhou com pena mal disfarçada. — Depois de tudo, eu realmente não esperava que você... conseguisse seguir em frente tão rápido.

O modo como ela disse "conseguisse" era como se eu fosse um caso de caridade.

— Não subestime Zoey — Christian disse. — Ela é muito mais incrível do que qualquer um de vocês imagina.

Elise sorriu condescendente.

— Claro que é. Estou tão feliz por você, querida. Fiquei preocupada que você... bem, não superasse. Mas o caso é...  Vocês parecem tão... diferentes — acrescentou, olhando para Christian. — Como se fossem de mundos diferentes.

— Ou talvez — Christian sorriu, puxando-me para perto — você simplesmente nunca tenha conhecido o verdadeiro valor dela.

Senti minha garganta queimar, as lágrimas querendo cair ao lembrar das exatas palavras de Elise ao dizer que eu jamais seria boa para qualquer um. Definitivamente ela não esperava que eu fosse boa para alguém como Christian. Um homem rico e bonito. Bem, era de mentirinha, mas ela jamais descobriria.

— Você quer dançar? — ele me perguntou, seus olhos fixos nos meus, como se soubesse que eu precisava ser resgatada.

— Claro.

Christian me guiou para o centro do salão, suas mãos deslizando pela minha cintura.

De longe, vi Elise nos observando furiosa, sussurrando algo para Alex.

— Não deixe que eles te abalem — Christian murmurou. — Você é incrível, Zoey.

Deixei escapar uma risada amarga.

— Sou apenas uma vendedora de vestidos de noiva de luxo. E ela é uma das RPs mais famosas do país, vivendo a vida que eu sempre quis. Viagens, celebridades... Alex...

Christian me olhou diretamente nos olhos, sem um pingo de pena.

— Se a vida que você sonhava era ser uma cobra casada com um idiota traidor, você precisa urgentemente rever seus conceitos.

Pisquei, surpresa com sua franqueza. Então, contra minha vontade, senti um sorriso se formar.

— Você é insuportável.

— Mas gostoso. — Ele piscou.

Eu ri, balançando a cabeça negativamente.

— Seus olhos estão brilhando — ele disse suavemente. — Mas não é de felicidade, é de raiva contida.

— Não sei do que você está falando.

— Essa fachada de mulher forte e invencível deve estar te matando por dentro — ele murmurou. — Você não merecia passar por isso.

Uma onda de emoção me atingiu, e precisei controlar para não derramar as lágrimas ali mesmo. Como ele podia estar tão certo?

— Não quero mais ficar aqui — sussurrei.

— Tenho uma suíte reservada aqui no hotel. Se quiser continuar fazendo seu investimento valer a pena... podemos sair dessa festa chata e nos divertir de verdade.

— Eu quero — respondi, sem hesitar.

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