CLARAA luz fraca das telas dos nossos laptops era a única fonte de iluminação no vasto porão.O interfone tocou, e eu o atendi de imediato.— Recebemos outra denúncia, Clara. — Informou ela com a calma de sempre.— Envie para cá. — Respondi, abrindo a aba onde recebíamos mensagens e chamadas anônimas.— Adolescente e mãe abusados, endereço anexado. Urgente. — Ela resumiu, enquanto a mensagem aparecia na tela.— Obrigada! — Disse, pegando a mensagem. — Vou repassar para a equipe de resgate.Eu revisei o endereço antes de ler a longa mensagem que alguém provavelmente digitou às pressas.O texto vinha de um garoto de treze anos, que fora forçado a pedir ajuda porque sua mãe, desempregada, tinha medo de abandonar o padrasto abusivo. O padrasto estava fora do estado, e eles precisavam de ajuda antes que ele voltasse naquela noite.Rapidamente, transferi os detalhes para o nosso chat seguro, marquei como alta prioridade e enviei para a equipe de resgate.Eu estava na casa de caridade havia
DENNISFranzi a testa ao atender a ligação dela.— Por que...— Onde está Amie, Dennis? Onde ela está? — Ela perguntou, frenética, emendando logo que Amie estava prestes a ser sequestrada.— O quê? — Larguei a panela que estava segurando no balcão. — Espera, calma aí! Minha Amie? Quando?— Agora, Dennis. Agora. As tire do perigo. Onde ela está?— Elas... Quer saber? Te ligo de volta. — Interrompi, encerrando a chamada rapidamente e discando para Ana.Comecei a andar de um lado para o outro na cozinha, uma mão no quadril, a outra segurando o celular no ouvido, enquanto esperava ela atender.— Dennis? Quer que a gente compre alguma coisa?— Amor. — Suspirei assim que ela atendeu, aliviado por saber que, pelo menos, ela estava bem. Amie também estaria bem, pensei, mas ainda assim perguntei: — Onde vocês estão? Estão voltando? Amie está aí com você?Ela tinha levado Amie às compras para a distrair depois da nossa briga. Amie adorava fazer compras, e Ana achou que isso ajudaria a melhorar
ANASTASIA— Amie foi sequestrada.Essas palavras eram inimagináveis para mim. Mesmo enquanto corria pela loja, procurando desesperadamente por Amie antes da chegada de Dennis, nunca passou pela minha cabeça que ela pudesse ter sido levada por alguém. Tudo o que imaginei foi que ela tivesse se afastado, se perdido e que estivesse em algum lugar, assustada, sozinha e com frio.Mas agora, estava claro: minha Amie havia sido sequestrada.— Por quê? — Chorei nos braços de Dennis. As lágrimas, que começaram como um fluxo constante, se transformaram em uma torrente incontrolável. — Por que alguém levaria minha filha, Dennis? Por quê?— Eu não sei, amor. Você precisa se acalmar. — Ele me segurou firme, caminhando até um dos seguranças.Como eu poderia ficar calma? Alguém cruel, com um coração de pedra, havia levado minha filha para longe de mim, para um lugar desconhecido. Como, em nome de tudo que é sagrado, eu poderia simplesmente ficar calma?Dennis trocou algumas palavras rápidas com dois
ANASTASIAEm apenas um dia, precisei sentar e ouvir muito mais interrogatórios do que jamais imaginei enfrentar na minha vida.Todos os funcionários da loja, assim como os transeuntes, foram inquiridos de forma educada. Cada um foi questionado se, por acaso, havia observado uma mulher acompanhada de uma criança. Fizeram as perguntas acompanhadas da descrição da mulher e de Amie, mas ninguém, nem sequer uma alma, os havia avistado. Parecia que os dois haviam se evaporado no ar.Não pude evitar que as lágrimas escorressem pelos meus olhos.Pobre Amie. Ela mal tinha saído de meses confinada à cama de hospital para ser sequestrada por algum infeliz. Que injustiça com ela. Qual seria o benefício de tudo aquilo?Fiquei imaginando como ela estaria naquele exato instante. Em que local teriam decidido a manter? Será que já havia se alimentado? Estaria com sede? Com toda certeza, estaria sentindo um frio cortante.Observei os remédios dela, que repousavam imaculados no balcão, aguardando que sua
PONTO DE VISTA DA AUTORA— Não!Aiden e Dennis exclamaram ao mesmo tempo.Anastasia os fitava de um lado para o outro, seu rosto revelando uma fúria crescente.— O que quer dizer com “não”? — Indagou.— Ana, você…— Eu não…Ambos começaram a falar simultaneamente, se interrompendo mutuamente.— Não quero ouvir nada! — Ela os silenciou, erguendo as duas palmas de cada lado. — Vou sozinha, simples! — Concluiu, agarrando a bolsa firmemente.Já fazia mais de uma hora desde o recebimento do vídeo. Tinham conseguido arrecadar o dinheiro, mas ainda não havia ninguém disponível para o levar até o local designado, pois Aiden e Dennis não conseguiam se entender.Os dois homens insistiram, tentando a convencer a desistir. Aiden compartilhava, em parte, o ponto de vista de Dennis. Não era como se ele dispusesse de uma fortuna para simplesmente a entregar aos sequestradores; o que ele desejava era ter sua filha de volta. Depois que Amie estivesse em segurança, poderiam acionar as autoridades e as
PONTO DE VISTA DA AUTORAEnquanto Aiden sentia o líquido morno escorrer pelo braço ao lado dela, seu coração afundou no fundo do estômago. Ele caiu de joelhos e deitou uma Amie inerte no chão.— Amie, não, papai está aqui. — Ele gaguejou freneticamente, pressionando a mão contra o lado dela na tentativa de conter o sangramento.Os olhos de Amie estavam abertos, mas pareciam sem vida. Amie tentou dizer algo. Tentou perguntar se ele realmente era seu papai, se ela de fato tinha dois pais, mas não conseguia mover os lábios e sua visão rapidamente se turvava.— Amie, Amie, você vai ficar bem. Aguente firme. — Aiden se apressou, arrancando a camisa e a amarrando em volta da cintura dela, fervorosamente na esperança de que o sangramento cessasse. Mas só piorava.Houve uma leve comoção. Passos apressados soavam enquanto Dennis entrava correndo no prédio acompanhado da polícia.Ao avistarem os policiais, os dois homens se debateram e saíram do local. Dois dos policiais imediatamente partiram a
PONTO DE VISTA DA AUTORALogo ali, o mundo de Amie desmoronou ao seu redor.— O que quer dizer que ela não resistiu? — Os olhos dela se encheram de lágrimas enquanto agarrava o paletó do médico. — Fale comigo, doutor, me diga que Amie vai ficar bem.— Sinto muito, Sra. Dennis. — Respondeu o médico, com uma compaixão genuína pela pobre menina. Ela não merecia o que lhe havia acontecido, especialmente depois de tudo pelo que havia passado.— Ana. — Dennis engoliu seco ao a puxar de volta, pois ela se recusava a soltar a camisa do médico.— Solta de mim! — Ela gritou, empurrando Dennis com força. — Saia fora!Dennis estava prestes a se aproximar novamente, quando o médico levantou a mão para o impedir, lançando-lhe um leve sorriso que indicava que tudo estava bem.Lentamente, Ana desabou no chão, envolvendo os braços em torno de si mesma, enquanto murmurava, quase inaudível:— Não.Pouco depois, ela balançou a cabeça com firmeza.— Não. Amie não vai simplesmente me deixar. — Ela chorava e
AIDENEu devia ter escutado a Ana. Devia simplesmente ter permanecido escondido quando a seguia. Não devia ter enfrentado aqueles homens. Devia ter controlado minha raiva... Mais importante ainda, aquela pausa, aqueles poucos segundos em que parei e disse a ela que era seu pai, eu não devia ter feito isso. Devia tê-la tirado dali imediatamente, levado-a para um lugar seguro. Se eu não tivesse desperdiçado aqueles segundos, talvez Amie ainda estivesse aqui. Mas fui egoísta, e ainda assim dizia que a amava e me importava com ela.Dennis estava certo. Ele se importava com ela mais do que eu jamais poderia. Ele a viu crescer, afinal. Ele cuidou dela, a acompanhou desde o nascimento. Eu nunca poderia amá-la mais do que ele.Havia tantas coisas que eu poderia, e deveria, ter feito diferente, feito melhor. Mas agora era tarde demais.Ela estava morta.Enquanto encarava a única foto que tirei de nós dois, ainda no hospital, tudo parecia irreal.Tinha se passado pouco mais de um ano desde que d