POV DO AUTOR“Era para acontecer.”Essas eram as palavras que Sharon repetia para si mesma, tentando sufocar a culpa crescente.Muitas vezes, ela pensava que teria sido melhor ter contado a verdade sobre a gravidez e lidar com as consequências. Estar com Aiden não valia aquele peso, aquele buraco escuro e sem fundo em que estava afundando.Agora que se aproximava da data falsa do parto, Aiden estava mais carinhoso com ela. Eles estavam mais próximos do que nunca. Às vezes, Sharon se perguntava se era a morte da pobre menina que havia causado essa mudança.Seja lá o que fosse, não valia a pena, porque ela não estava feliz. Tinha tudo o que sempre quisera: a atenção total de Aiden. Ou tão total quanto poderia ser, com ele se enfiando cada vez mais na investigação.Sempre que Aiden não estava com Sharon, ajudando-a a preparar uma refeição, entregando as comidas que havia pedido ou limpando a casa, já que ela não queria mais a empregada, ele estava na delegacia, tentando resolver o caso de
POV DO AUTORÀ medida que a investigação se aprofundava, mais pessoas eram interrogadas. Taxistas e funcionários das lojas que estavam abertas nas proximidades da cena do crime foram chamados para prestar depoimentos. Todas as câmeras de segurança da área também foram verificadas.Aiden estava realmente determinado a não deixar pedra sobre pedra.E, conforme mais pedras eram viradas, mais evidências chocantes surgiam. Como o sapato de Amie, encontrado ao lado de um ônibus abandonado, a poucas lojas de distância de onde ela havia estado com a mãe.Eventualmente, os culpados foram localizados.O coração do detetive se encheu de satisfação ao descer da van e liderar a equipe em direção ao prédio, certo de que, desta vez, havia encontrado as pessoas certas.Na entrada, cada equipe se dispersou para suas posições previamente planejadas, já que o local vinha sendo monitorado há dias.Bastaram as digitais encontradas no ônibus abandonado para que o resto do caso praticamente se resolvesse por
DENNISApós algumas semanas, quando não ouvi mais nenhum som vindo do quarto da Amie, soube que algo estava errado.Não hesitei em forçar a porta e, quando consegui abri-la, a encontrei inconsciente. Ao seu redor, havia garrafas de água e tanto fast food que logo suspeitei que ela devia ter saído escondida à noite para comprar tudo aquilo enquanto eu dormia. Também havia farelos de torradas e caixas de pizza — as mesmas que eu vinha empurrando por debaixo da porta. Mas, ao que parecia, não tinham sido suficientes.Corri, peguei-a nos braços, coloquei Justin na cadeirinha do carro e fui direto para o hospital.Cerca de uma hora depois de ela ter sido levada para atendimento, o médico apareceu.— Ela teve muita sorte de você tê-la trazido a tempo.Passei as mãos pelo rosto, aliviado, grato por não estar ouvindo mais um anúncio de morte.— No momento, ela apresenta desidratação severa, hipoglicemia e sinais de sobrecarga nos órgãos. Se tivesse demorado mais, estaríamos falando de exaustão
AIDEN— Está tudo bem — disse Sharon, abraçando-me pelos ombros. — Você precisa parar de se culpar, amor. Não foi sua culpa e se afundar nessa investigação não vai te ajudar.— Eu preciso encontrar os responsáveis, Sharon. Descobrir quem fez isso é a única coisa que pode tornar essa culpa menos insuportável.— Se essa é a única forma, então faça isso — ela me encorajou. — Vou garantir que meu pai continue envolvido no caso, prometo.O pai dela já havia me ligado uma vez para me consolar pela morte da minha filha — que não era filha da Sharon — e o tom dele não soava muito disposto a ajudar. Fiquei surpreso que ela tenha contado algo para ele. Duvido que queira se envolver na busca pelo assassino de uma criança com quem ele não tem nenhuma relação. Mas guardei esse pensamento para mim.— Obrigado — agradeci.Ela me abraçou de leve e, dessa vez, não se afastou imediatamente. Eram dias assim, raros, que ela não recuava como se eu tivesse alguma doença sempre que eu tentava tocá-la.— Agor
AIDENFiquei paralisado com as palavras de Dennis. Ele já sabia?Mas, claro, Dennis também estava envolvido na investigação, embora não tão ativo quanto eu. Não deveria ser surpresa que ele estivesse a par da situação. Era o caso da própria filha, afinal. Ele tinha todo o direito de saber.Mesmo assim, tentei ignorar a hostilidade. O que me preocupava agora era Ana. Uma clínica psiquiátrica? Como ela chegou a esse ponto? Como Dennis permitiu isso? A vontade de confrontá-lo era grande, mas me contive. No fundo, tudo isso era minha culpa... e de Sharon.— Em qual hospital ela está? — minha voz saiu sem força, como se a pergunta não fosse real. Eu sabia que Ana amava Amie com todo o coração, mas nunca imaginei que a perda a afetaria tão profundamente.Dennis me encarou, cerrando os olhos com raiva.— Por que quer saber? Vai correr pra contar pra sua esposa?Maldito seja... senti meus punhos se fechando sozinhos.Respirei fundo.— Eu tentei ligar para vocês, mas ninguém atendeu. Quando o c
AIDENO detetive me enviou o endereço do hospital para onde Sharon foi levada.Quando entrei no quarto, ela estava encolhida, o máximo que as algemas à grade da cama permitiam. Assim que me viu, se endireitou de repente, com os olhos arregalados de medo.— Aiden — sussurrou, trêmula.— Então, além de criminosa, você também é uma mentirosa? Uma fraude! — cuspi as palavras, e meus olhos foram direto para o estômago dela, agora plano. Soltei uma risada seca enquanto me jogava na cadeira em frente à cama. Me sentia exausto demais para sequer permanecer de pé.Ela balançou a cabeça, as lágrimas desciam como no dia em que foi presa.— Não é o que você está pensando, eu juro, eu... — ela desabou, os ombros tremendo.Inclinei a cabeça, observando-a com frieza. Não senti um pingo de pena.— Então me diz, Sharon. Se não é o que estou pensando, o que é?— Por meses você fingiu estar grávida! — minha risada amarga ecoou pelo quarto. Mesmo com todas as evidências, parecia uma piada de mau gosto.Ap
DENNISAna foi internada em um centro de crise psiquiátrica, e eu passei a maior parte dos meus dias lá. Apesar de tentar equilibrar meu tempo entre o trabalho, Justin e Amie, me pegava passando a maior parte do tempo ao lado de Ana.No trabalho, as coisas iam muito bem. Eu ganhava bem mais do que antes de ter sido enganado, mas não me sentia feliz. O amor da minha vida estava em uma clínica psiquiátrica. Todos os dias em que eu a visitava, torcia para que seu quadro finalmente começasse a melhorar. Metade do tempo, ela parecia bem, sentada sozinha com uma expressão neutra, sem falar com ninguém por horas. Na outra metade, chorava e me implorava para levá-la até Amie.O médico dizia que ela estava melhorando, mas para mim não parecia.Justin estava bem. Não parecia estar sofrendo tanto como Aiden sugeriu. Às vezes chorava sem parar e só se acalmava ao adormecer, mas eu sabia que era saudade da mãe.Me esforcei para sempre estar presente para ele, assim como fazia com Ana, mesmo quando
AIDENCom o tempo, o caso de Amie ganhou grande atenção da mídia. Todos os canais de notícias exibiam a foto da pobre menina enquanto falavam de sua morte trágica e de como todos os responsáveis deveriam ser punidos severamente.No meio de toda essa comoção, o foco da imprensa passou de Amie para Sharon e para mim. De alguma forma, vazaram informações sobre nosso casamento e a falsa gravidez dela.Comecei a receber ligações de vários números desconhecidos, com perguntas absurdas, todos em busca de algo direto da fonte. Acabei trocando o chip do meu celular pelo do meu assistente. Se houvesse algo importante, ele me repassaria. Eu estava farto daquelas ligações incessantes.Quando Sharon teve alta e foi levada de volta à delegacia, havia uma multidão de repórteres na porta.Os policiais a escoltavam, mas isso não impediu que os jornalistas gritassem perguntas:— Você realmente fingiu uma gravidez, Sra. Aiden?— A senhora ainda é uma mulher casada?— Onde está seu marido? Ele ainda te am