Capítulo 18 A Primeira ConversaO sol ainda nem havia surgido no horizonte quando Madame Estela caminhou pelos corredores silenciosos da boate. Eram cinco horas da manhã e o ambiente cheirava a perfume adocicado, fumaça de cigarro e o eco distante da música que havia silenciado há pouco tempo. Vestida em seu robe de seda azul, com os cabelos loiros presos em um coque impecável, Madame Estela parou diante da porta do pequeno quarto onde Ariadne dormia.Ela bateu três vezes com firmeza.— Mocinha, vamos conversar.A voz era calma, mas carregava uma autoridade que dispensava repetições. Ariadne acordou sobressaltada, os olhos castanhos arregalados no escuro. Vestida com uma camisola simples e descalça, ela correu até a porta, abrindo-a com as mãos trêmulas.— Bom dia, Madame Estela. — A voz dela saiu quase em um sussurro.— Sente-se. — ordenou Madame Estela, já se dirigindo até sua cadeira de madeira entalhada com estofado bordô.Ariadne se sentou à sua frente em uma cadeira simples. Se
Capítulo 18Entre passos e olhares, um talento desperta.O sol mal tinha nascido quando Ariadne abriu os olhos. O pequeno quarto que ela dividia com Rosângela, a garçonete número 15, estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas por uma fresta de luz que escapava pela janela entreaberta. A cama simples de madeira rangia sob seu peso enquanto ela se ajoelhava aos pés dela, as mãos unidas e a cabeça baixa.— Obrigada, meu Deus, por mais um ano de vida. — sussurrou, com os olhos úmidos.Dois anos haviam se passado desde a noite em que Rosângela a acolheu sob uma tempestade cruel, trazendo-a para a boate de Madame Estela. Durante esse tempo, Ariadne havia aprendido a rotina, respeitado as regras e trabalhado duro, sempre carregando a esperança de um dia conseguir entrar em contato com sua família e enviar dinheiro para eles.O tempo havia moldado a menina frágil em uma jovem resiliente, mas a saudade era uma constante em seu coração. Ela respirou fundo, enxugou uma lágrima solitária que
Capítulo 19Quando o destino chama, a coragem precisa responder.Por um momento, apenas o som distante da música ambiente da boate preenchia o espaço entre as duas. Então, Madame Estela perguntou:— Quer dançar?Ariadne levantou os olhos, confusa.— Como assim, senhora?— Você gosta de dançar? Quer dançar?— Eu gosto, senhora. Mas... como que eu vou dançar?Madame Estela se inclinou para frente, os lábios se curvando em um sorriso quase imperceptível.— Simples. Você vai vestir uma roupa das meninas, vai subir no palco e vai dançar. Enquanto você dança, as meninas continuam o trabalho delas.— Mas... eu vou dançar quanto tempo?— O tempo que você quiser. Ouviu uma música, sentiu vontade de dançar? Você sobe e dança. Cansou? Você desce. Ouviu outra música, sentiu vontade de novo? Você sobe de novo.Ariadne assentiu, mas ainda parecia incerta.— Sim, senhora... mas... eu começo quando?Madame Estela ergueu uma sobrancelha, e sua voz ecoou pelo escritório com firmeza:— Hoje! Você não ou
Capítulo 20Um Espectador MisteriosoO relógio marcava duas horas da tarde e a boate de Madame Estela estava lotada. Homens bem vestidos, com charutos entre os dedos e copos de uísque na mão, conversavam entre si, enquanto as garçonetes numeradas circulavam pelo salão, equilibrando bandejas e distribuindo sorrisos ensaiados.Madame Estela observava tudo de sua mesa privativa, no canto mais alto do salão, com uma visão privilegiada de todo o ambiente. Seus olhos verdes analisavam cada detalhe, mas havia algo que a incomodava profundamente.— Ela não dançou nenhuma música ainda. — murmurou para si mesma, cruzando os braços com força.Ariadne, vestida com seu vestido vermelho com babados pretos, caminhava discretamente pelo salão, limpando algumas mesas e evitando qualquer contato visual direto com os clientes. A máscara vermelha escondia parte de seu rosto, mas não conseguia disfarçar o brilho de seus olhos.No palco, o espaço estava vazio, iluminado por holofotes que aguardavam ansiosa
Capítulo 21Entre lágrimas e despedidas, nasce um novo nome.O dormitório das garçonetes estava em caos. O som de vozes alteradas ecoava pelo pequeno cômodo compartilhado, onde camas de ferro se alinhavam em fileiras estreitas. Ariadne estava encolhida em um canto, com os olhos arregalados, enquanto Fátima, a garçonete número 1, apontava o dedo para ela, furiosa.— Eu avisei! Eu avisei que essa pirralha ia roubar a atenção de todos! — gritou Fátima, o rosto vermelho de raiva. — Agora ninguém quer saber das garçonetes, ninguém quer saber de nós. Só querem saber da dançarina misteriosa!Algumas garçonetes murmuravam em concordância, enquanto outras se entreolhavam, desconfortáveis. Rosângela estava ao lado de Ariadne, de braços cruzados, com o rosto sério.— Chega, Fátima! Isso não é culpa da Ariadne. Ela só está fazendo o que a Madame mandou!— Mandou? — Fátima cuspiu a palavra com desprezo. — Claro, porque a princesinha aqui é especial, né? Enquanto nós nos matamos de servir bêbados e
Capítulo 22Entre confidências e reflexões, nasce uma promessa.5h da manhãA luz fraca do abajur iluminava o pequeno quarto dos fundos, lançando sombras suaves nas paredes desgastadas. O silêncio era interrompido apenas pelo som suave da caneta deslizando pelo papel. Ariadne escrevia em seu diário, a única coisa que parecia ouvi-la sem julgamentos."Ariadne Paixão, hoje com 22 anos, é uma mulher de beleza marcante e presença magnética. Seus longos cabelos prateados caem em cascata até a cintura, contrastando com seus olhos azuis brilhantes que parecem ver além das aparências.Sua pele é pálida e impecável, complementada por lábios naturalmente rosados.No baile de máscaras, Ariadne veste um elegante vestido preto que realça suas curvas graciosas, e uma máscara de renda preta que adiciona um ar de mistério ao seu olhar intenso.Foi nesse ambiente que ela resolveu voltar a usar seu verdadeiro nome: Calysta, um nome artístico que adotou para proteger sua identidade e criar uma persona e
Capítulo 23Sei bem quem sou!Oi diário. O camarim é meu refúgio, um espaço onde posso ser eu mesma, ainda que apenas por alguns instantes. Hoje, enquanto passo o batom vermelho nos lábios, me pego olhando profundamente nos meus próprios olhos refletidos no espelho. Tento reconhecer a menina que fui, mas vejo apenas Calysta, a dançarina."Oi," murmuro para a imagem à minha frente. "Eu me chamo Calysta.Sou dançarina em uma boate em Orlando, na Flórida."Respiro fundo, sentindo o aroma dos cosméticos e o leve toque do batom ainda fresco. "Hoje será como todas as noites aqui. Homens vêm para se embriagar, trair suas esposas, e eu... eu danço, abrindo para eles o apetite, a vontade de se entregar à luxúria que guardam dentro de si."Enquanto coloco a máscara, sinto a transformação se completar. "Por que Calysta?" Me pergunto, ajustando o acessório que esconde mais do que apenas meu rosto. "Porque assim posso esconder quem sou, meu passado, e mostrar uma mulher madura e segura que nenhu
Capítulo 24 A Tragédia na Família do Conde Palácio Greenwich, 40 anos atrás: A mansão do conde ergue-se imponente, como uma testemunha silenciosa dos segredos e tormentos que suas paredes antigas guardam.Greenwich, com sua decoração austera, os móveis robustos e os corredores sombrios refletem a frieza e a melancolia que permeiam a vida do conde. Cada canto da mansão é um eco do passado, um passado marcado por dor e arrependimento. Voltamos no tempo, para uma época em que o conde ainda não carregava o peso da tragédia. Era um jovem de 18 anos, apaixonado, envolvido em um romance proibido com uma bela camponesa. Eles se encontravam às escondidas, longe dos olhos vigilantes de seus pais. A beira do rio era o refúgio deles, onde trocavam beijos e promessas de amor eterno. Um escritório luxuoso na mansão, com uma lareira acesa e paredes adornadas com retratos ancestrais da família. O jovem Alfredo de Albuquerque está de pé, de costas para a lareira, observando o fogo crepitar