Enquanto isso, em Veneza… no Porto de Marghera, onde o vento frio do outono cortava os canais como uma lâmina, erguendo pequenas ondas que batiam contra os pilares de madeira centenários. Victor caminhava com passos firmes pelas calçadas desertas, seu sobretudo preto balançando levemente com a brisa. O relógio de pulso de platina marcava quase meia-noite quando ele parou em frente a uma pequena rua, afastada dos pontos turísticos. Ali, onde as luzes dos postes eram mais escassas e o som das gondolas já não chegava, ele esperava por alguém, olhando para os lados com discrição.Uma figura envolta em um sobretudo bege com capuz surgiu da escuridão, com passos leves e rápidos sobre as pedras antigas. Victor não fez nenhum gesto de reconhecimento, apenas caminhou abrindo a porta de um carro alugado e discreto que estava estacionado por ali, sem nenhum detalhe que chamasse atenção. A figura entrou rapidamente, e seguiu para o volante e deu a partida, dirigindo sem pressa. Nenhuma palavra foi
Ela sentiu as pernas fraquejarem, mas suas mãos permaneceram firmes nas dele, segurando a flor. Rique abriu então o estojo, revelando um anel de compromisso, com uma pedra central azul-safira cercada por pequenos diamantes que cintilavam como estrelas. — Alice, minha flor... eu não imaginava isso. Mas não quero mais esconder o que sinto por você. Quero declarar para o mundo o nosso amor, — continuou ele, os olhos nunca deixando os dela. — Então, você aceita namorar comigo? Alice olhou para o anel, depois para Rique, e então para as pessoas ao redor, todos parados, expectantes, alguns com os celulares levantados para capturar o momento. Seu coração batia tão forte que ela temeu que todos pudessem ouvir. — Rique... — seu nome saiu como um suspiro, carregado de emoção. Ele esperou, paciente, seus olhos implorando por uma resposta. E então, sem conseguir conter-se, Alice jogou os braços ao redor de seu pescoço, enterrando o rosto em seu ombro. — Sim, sim! Eu aceito estar com vo
Naquela manhã, antes do meio-dia, Valentina fez o checkout. Partiram para almoçar com Rique. Era a primeira vez que Alice visitava o luxuoso apartamento dele. O prédio inteiro lhe pertencia, um símbolo claro de seu sucesso. O almoço foi caloroso, recheado de risadas e histórias compartilhadas. Quando chegou a hora de partir, Rique insistiu para que Alice ficasse e voltasse de jatinho com ele, mas ela recusou. Não queria deixar Valentina sozinha. Então, finalmente, se despediram.A viagem de volta foi silenciosa. Chegaram de madrugada, e Alice mal podia acreditar que, em poucas horas, precisaria estar no trabalho novamente. O cansaço era imenso para se pôr de pé. Porém, tinha que encarar a dura realidade. Mais tarde, o sol matinal entrava em ângulos agudos pelos vitrais do saguão, da Lancaster que pintava padrões geométricos no chão de mármore branco. Alice cruzou as catracas de acesso às 8h17, com passos rápidos, ainda sentindo o cansaço da viagem noturna e ajustando a pasta de couro
O ar na VIVA estava diferente, carregado de uma tensão que Alice sentiu assim que cruzou as portas. O saguão, normalmente tranquilo, hoje fervilhava com cochichos e olhares furtivos. No centro do burburinho. Dora, ocupava a mesa da recepção principal, organizando documentos com mãos que estavam levemente rígidas. Alice aproximou-se, os sapatos ecoando no piso de madeira. — Amiga... E aí? A secretária ergueu os olhos, surpresa. Seu rosto, normalmente composto, estava pálido. — Alice! Eu... não sabia que você viria hoje. — O que você está fazendo aqui? — Alice manteve a voz baixa, mas a pergunta veio cortante. Dora olhou em volta, antes de responder, como se temesse ser ouvida. — Foi ordem do RH. Chegou um e-mail no sábado à noite e recebi uma ligação, — transferência imediata. Quando cheguei aqui de manhã, Gaby já estava arrumando as coisas. — Ela foi demitida? — Não. Não foi isso... — Dora abaixou ainda mais a voz. — Parece que ela foi promovida como assistente pessoa
Rique aguardava ansioso para conhecer a família de Alice. A cada minuto que passava, sua impaciência crescia. Olhava para o celular, verificava o relógio e ajeitava a gola da camisa, como se cada detalhe da aparência fosse crucial para causar uma boa primeira impressão. Mas demonstrar que ele não era um homem superficial seria um desafio.Já Alice, por outro lado, não conseguia esconder o nervosismo. Mexia incessantemente nos cabelos, mordia os lábios e tamborilava os dedos na mesa, como se pudesse dissipar a tensão que sentia. O convite para que seus pais almoçassem na fazenda dos Lancaster havia sido um desafio. Regina e Saulo hesitaram em aceitar. Para eles, a diferença social entre sua família e a de Rique era um abismo intransponível. O que ele tinha a ganhar com uma garota que não poderia lhe oferecer muita coisa? Essa dúvida levantada por Regina ressoava na cabeça de Alice.Dias atrás.— Eu não sei o que você tem na cabeça, Alice! — Regina resmungou, franzindo a testa. — Você r
O vento assobiava entre as tábuas do estábulo, carregando o cheiro de feno seco e terra molhada. Victor encostou-se numa pilastra de madeira, olhando fixamente para Saulo antes de começar a falar. Sua expressão era dura, carregada de emoções contidas.— Não sei se você está lembrado dessa história, mas era uma vez dois garotos que perderam os pais em um acidente. Eles estavam começando a vida em um novo país, sem conhecer ninguém, sem ter a quem recorrer. Eram apenas dois rapazes e, de repente, se viram num orfanato, sem futuro, sem saída. — Victor tomou um gole de sua bebida e observou Saulo, que ouvia em silêncio. — O irmão mais velho, prometeu que sempre cuidaria do mais novo. Mas veja só o que aconteceu. — Ele riu, com um tom amargo. — O tempo passou e, um dia, o mais velho foi embora, sem explicações. Simplesmente desapareceu, abandonando o outro.Saulo ergueu os olhos, tentando argumentar:— Eu não podia fazer nada, Sérvio. Eu não tinha para onde ir, não tinha como sustentar nós
O despertador tocou pela terceira vez, até que Alice finalmente se levantou, em um salto. O coração disparou, antes mesmo de seus pés tocarem o chão. — Droga, vou chegar atrasada de novo! — murmurou ao olhar a hora.Morar com os pais e dois irmãos, um de doze e outro de vinte anos, significava uma rotina caótica. Entre discussões sobre quem usaria o banheiro primeiro e a briga por café da manhã, sair no horário era quase um milagre. Ela correu para o banheiro, escovou os dentes com pressa e jogou água gelada no rosto. Seu cabelo ondulado, de tom loiro-mel, estava um caos. Mas não havia tempo para grandes ajustes, então fez um coque improvisado, colocou sua bolsa no ombro e desceu as escadas às pressas, desviando do seu irmão mais novo, Tomás, que bloqueava a passagem com uma mochila gigante.— De novo? Vai chegar atrasada. — Benício zombou, com um sorriso. — Já aviso, que não vou te dar carona. — Cala a boca, Benício! — Alice resmungou, pegando uma maçã da mesa antes de sair.Alice,
Alice ainda sentia o eco das palavras de Dora e Dona Santa em sua mente quando se afastou do refeitório. O peso da conversa parecia ter ficado impregnado na sua mente, uma sensação estranha, como se estivesse carregando um segredo perigoso. Tentando se concentrar no trabalho, ela passou por alguns departamentos, trocando cumprimentos rápidos com colegas. Mas sua mente não conseguia se afastar da imagem de Valentina Lancaster. A postura, o sorriso, o olhar, tudo parecia envolver Alice em uma rede de incertezas e angústia. Ela ainda estava tentando processar o que tinha acontecido de estranho, quando o telefone tocou e precisou se dirigir ao escritório do CEO. Ela parecia anestesiada, sentindo o cheiro de perfume caro que preenchia o ar.O escritório de Victor era um reflexo sofisticado da empresa, que trabalhava com cosméticos de luxo. Era um lugar organizado e imponente, um espaço dominado por uma grande mesa de mogno escuro, ladeada por poltronas rústicas. As paredes eram cobertas p