Capítulo 0002
Eu precisava ficar internada por alguns dias para estabilizar a gravidez.

George Cardoso, meu vizinho que me trouxe ao hospital, foi muito prestativo, correndo de um lado para o outro para cuidar dos trâmites.

— Você não vai ligar para o seu marido?

Eu hesitei por um momento, com a mão ainda segurando o copo de água.

— Não precisa avisar. Eu já decidi que iria me divorciar dele.

George fez um som de surpresa, parecendo um pouco sem jeito.

Eu me senti um pouco culpada.

— Desculpe, não deveria ter falado isso com você.

Ele sorriu de forma calorosa e, balançando a mão, disse que não tinha problema nenhum.

Isso me fez pensar em Roberto. Já fazia tanto tempo desde a última vez que ele me tratou bem.

Sempre que falava comigo, era com impaciência ou me lançava olhares severos, como se qualquer palavra minha fosse um incômodo ou uma acusação contra ele.

Uma notificação no celular interrompeu meus pensamentos.

Roberto havia enviado uma foto: um lenço de seda feio e sem graça.

[Comprei um presente de aniversário para você. Satisfeita agora?]

Olhei para o logotipo da marca que aparecia no lenço e fui direto ao Instagram de Nicole. Como esperado, lá estava a foto de sua nova bolsa Hermès.

[Grávida e enjoada, mas um presente resolve tudo! Obrigada, Beto, pelo mimo. ♥]

Soltei uma risada fria. Aquele lenço era claramente um brinde que vinha com a compra da bolsa.

Provavelmente, Nicole achou o lenço tão feio que nem quis ficar com ele, e Roberto o transformou em meu presente de aniversário.

[Não preciso disso. Deixe com a Nicole para ela limpar a bolsa.]

Minha resposta foi o suficiente para despertar a fúria de Roberto. Ele ligou imediatamente, gritando:

— Você pode parar de ser tão ciumenta e imatura? Eu e a Nic somos apenas amigos de alma, não esse tipo vulgar de relação entre homem e mulher que você imagina! Se eu realmente tivesse algo com a Nic, você acha que teria tido a chance de casar comigo e viver tão bem?

"Viver tão bem?"

Essas palavras me fizeram sentir uma pontada de desespero.

Eu comecei a namorar Roberto no segundo ano da faculdade. Naquela época, Nicole estava na Europa como estudante de intercâmbio.

A família do Roberto tinha uma condição financeira mediana, então nunca vivi nada luxuoso.

Após se formar, ele começou seu próprio negócio. Por fora, parecia estar indo bem, mas, na verdade, vivia economizando em tudo e ficava constantemente exausto por causa dos altos custos da empresa.

Só dois anos atrás as coisas realmente melhoraram, com o sucesso de seus contratos.

Mesmo assim, eu já estava acostumada a uma vida de economias e sentia pena de Roberto por todo o esforço que fazia. Por isso, nunca gastava dinheiro de forma imprudente. Apesar disso, ainda tinha que suportar as cobranças e insultos diários da minha sogra por não ter conseguido engravidar.

Eu realmente não sei que tipo de vida boa Roberto acha que me deu.

— Tome um pouco de mingau.

George havia acabado de buscar comida e entrou no quarto, me chamando para comer.

A voz dele atravessou o telefone, e Roberto ficou em silêncio por alguns segundos antes de explodir em fúria:

— Quem está aí com você? Juliana, acha que arrumar um homem qualquer vai me provocar? Manda esse vagabundo sair da minha casa agora! Não quero que suje meu lar!

Eu já não suportava mais ouvir aquilo e expliquei que estava no hospital porque estava me sentindo mal.

Roberto ficou calado por dois segundos, então soltou uma risada sarcástica:

— Entendi, você é mesmo muito infantil. Ficou enciumada porque a Nic está grávida e decidiu usar esse truque para chamar minha atenção, não é? Não vai me dizer que você também está grávida? Você só sabe me enojar e me fazer rir com essas ideias ridículas!

Apertei o celular com força e me obriguei a não ficar com raiva, muito menos triste.

Meu bebê não podia passar por mais turbulências.

— Roberto, não estou tentando forçar você a voltar. Espero que você e Nicole se divirtam. Por aqui, tenho quem cuide de mim, e, sem você, minha vida até fica bem mais tranquila.

Foi a primeira vez que encerrei a ligação antes dele.

Logo depois, ele enviou uma sequência de mensagens furiosas, repetindo que eu era dramática e fazia questão de estragar o humor dele de propósito.

Além disso, me alertou para não me arrepender e para não aparecer chorando e pedindo perdão em menos de um dia.

Deixei o celular de lado e comecei a tomar o mingau que George trouxe, uma colherada de cada vez.

Dois dias depois, o médico disse que minha condição tinha se estabilizado e que eu poderia ter alta.

George apareceu com o carro para me buscar.

— Não precisa se incomodar, posso chamar um táxi.

George riu com seu jeito descontraído:

— Que isso, vizinhos têm que se ajudar. Não é incômodo nenhum.

Aquelas palavras mexeram comigo.

Roberto raramente me buscava de carro.

Mas, para Nicole, bastava ela ligar e, não importa a distância, ele ia correndo.

"— Você tem carro, não sabe dirigir por si própria?"

Eu só precisava reclamar um pouco, e ele já me cortava:

"— A Nic não tem carteira. Se eu não for buscá-la e acontecer algo com ela no táxi, você se responsabiliza?"

Quando fui abrir a porta do carro para se sentar no banco do passageiro, senti um puxão forte no braço.

Era Roberto, com uma expressão sombria. Ele estava atrás de mim, e levei um susto.

— O que você está fazendo aqui?

Nos últimos dois dias, ele não havia mandado nenhuma mensagem. Será que, no fundo, ele ainda se importava comigo? Talvez tenha vindo direto do aeroporto me buscar no hospital?

Mas Roberto apenas lançou um olhar frio para George e falou em tom agressivo:

— Você ainda tem coragem de perguntar? Voltei para casa e encontrei a mesa cheia de comida podre e fedorenta! Juliana, você é boa para alguma coisa? Outras donas de casa pelo menos sabem cuidar da casa e dos filhos. Você não conseguiu nem ter um filho e agora nem as tarefas de casa faz direito?

Aquelas palavras destruíram o que restava das minhas esperanças.

Soltei meu braço da mão dele e respondi com calma:

— Eu já tinha avisado que estava internada. Para sua esposa, que está doente, você não tem nenhuma preocupação, só sabe me culpar por não limpar a casa?

Roberto me olhou de cima a baixo com desconfiança:

— Você está com uma aparência ótima, que doença é essa? Para de fingir!

Graças aos cuidados de George, que me trouxe sopas e suplementos nutritivos todos os dias, minha aparência tinha melhorado um pouco.

Quando George ouviu Roberto, ele desceu do carro, disposto a explicar.

Mas fiz um sinal para ele parar, pedindo que fosse embora.

O que eu não esperava era que Roberto não me levaria para casa descansar. Em vez disso, ele estacionou o carro na frente de um bar.
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