Capitulo3
LAIKA

A festa estava animada quando o Alfa e seu grupo chegaram e se instalaram em suas tendas. Mesas estavam dispostas ao redor do centro do acampamento e as refeições estavam expostas. Os lobos e as lobas se reuniam, todos parecendo alegres. A Madame Theresa me proibiu de ir à cerimônia porque eu não era digna de estar lá. Ajudava a Erika a filha dela, a vestir e a maquiar. Fui deixada com uma pilha de roupas por lavar e, finalmente, fui até a tenda do meu novo mestre para descobrir o que ele precisaria para a noite.

A festa seguiu sem mim e eu não me importava. Não era digna de nenhum daqueles mestres. Limpei o chão da tenda da Madame Theresa. Eu poderia ter feito aquilo pela manhã, mas a Madame Theresa me pediu para limpar o chão, para me manter longe do festival de chegada do Alfa e seu grupo.

Quando terminei de trabalhar na tenda da Madame Theresa, a noite já estava bem avançada. A cerimônia de boas-vindas estava quase terminando e eu corri até a tenda do meu novo mestre para fazer meus últimos ajustes antes que ele chegasse. Era obrigatório que ficássemos nas tendas e nos apresentássemos aos nossos novos mestres. Eu estava nervosa para conhecer meu novo mestre, e minhas mãos tremiam enquanto eu arrumava a tenda.

— Laika! — Ouvi meu nome vindo de fora da tenda. Era Erika, ela estava me procurando.

Olhei mais uma vez para o ambiente e saí correndo, mas acabei batendo em um pilar que não deveria estar ali e gritei. Só que não era um pilar, era um homem, um homem enorme. Seu cheiro me intoxicou tanto, e seu toque fez uma onda de arrepios percorrer meu corpo. Era o mesmo cheiro que eu havia sentido antes. O que Karim estava fazendo ali? Olhei para cima e seus olhos verdes e frios penetraram os meus. Fiquei grata por ele me segurar, pois minhas pernas teriam cedido.

— Hmm… desculpe. — Pedi desculpas, enquanto lentamente começava a entender a situação. Karim era um dos membros do grupo que havia retornado com o Alfa. Dei um passo para trás, me afastando dele. Meus olhos caíram até os pés dele. Ele usava botas sujas, ainda com lama da última interação que tivemos.

Havia algum engano. Eu não poderia me tornar companheira de um dos guerreiros, eu não era digna deles. Eu era uma Ômega de baixo escalão e feia, ninguém me aceitaria. Seria melhor ficar sem par do que passar pela dor da rejeição novamente.

— Vá para a pele e abra bem as pernas para mim. — Karim ordenou, com a voz profunda e grave.

Meus olhos se arregalaram. O que ele queria que eu fizesse? Eu não estava pronta para transar com nenhum guerreiro. Não estava pronta. Erika estava lá fora esperando por mim, e eu não poderia estar transando com ninguém enquanto ela estivesse ali. A Madame Theresa me mataria se descobrisse. Não poderia deixar Karim ver meu corpo feio e marcado; ele provavelmente já me odiava, por isso não me reconheceu como a parceira dele. Ele nunca havia falado nada sobre aquilo. Será que ele me rejeitaria?

— Eu te falei para se deitar e abrir as pernas. — Ele repetiu.

— Eu… eu não posso. — Gaguejei e me afastei.

— Consigo sentir o seu desejo, Ômega. Agora, pare de ser teimosa, abra essas pernas e me receba com gratidão.

Eu o olhei em silêncio. Eu estava molhada, mas não deixaria outro homem me usar assim.

— Desculpe, mas vou ter que recusar sua oferta.

Ele parou e ficou me encarando em silêncio por um tempo. Ele parecia mais surpreso por não acreditar que alguém pudesse o recusar. O que ele faria? Minhas mãos tremiam e meus joelhos quase falhavam. Meu coração estava disparado no peito e eu achei que fosse explodir. Estava dividida. Uma parte de mim se arrependeu por ter o rejeitado, sabia que isso traria problemas, enquanto a outra parte, que nunca quis fazer nada com um lobisomem de posto mais alto, se manteve firme.

— Você está me rejeitando? — Ele perguntou.

A maneira como disse aquilo soava desdenhosa e inadequada. Eu não queria isso, mas não estava pronta para ser destruída por dentro novamente. Precisava ficar firme na minha decisão e aguardar as consequências; eu já estava acostumada com a tortura, de qualquer forma.

— Eu estou dizendo que não quero transar...

— Alfa Karim. — Alguém chamou de fora, interrompendo-me. Foi minha vez de congelar, e eu tropecei para trás.

Karim era o Alfa do Clã Titã? Ele era filho do falecido Alfa Ehiz? Acabei de rejeitar o Alfa de todos os Alfas, e, para piorar, ele era meu COMPANHEIRO!!!

— Sim? — o Alfa respondeu e saiu da tenda para atender quem o chamava.

Aproveitei a oportunidade, peguei minhas ferramentas de limpeza e saí da tenda, atordoada, com o coração nas mãos. Eu não só o havia rejeitado, mas também o havia desrespeitado. O que ele faria comigo? Eu passaria por outra tortura de um Alfa, como passei com o Alfa Khalid? Ele me odiaria também? Tornaria minha vida insuportável por ter o rejeitado? Aquelas perguntas estavam na minha cabeça enquanto eu voltava para a tenda da minha Madame.

— Lá está ela! — Alguém disse. O tom estava raivoso, e só então percebi que estava em frente à tenda da Madame Theresa.

Olhei para cima e vi ela e Erika me encarando com raiva. O que eu tinha daquela vez? Joy gemeu dentro de mim, pois sentia o perigo, estávamos prestes a entrar. Com a Madame Theresa e sua filha, qualquer coisa que eu fizesse seria errado. Meu corpo se arrependeu todo quando vi o chicote longo na mão da Madame Theresa.

— Eu te avisei para não ir a esse festival, não? — Ela rosnou.

— Eu não fui ao festival. — Lamentei.

“Corra!!” Joy me implorou.

Eu não podia correr da Madame Theresa porque eu já não era mais rápida o suficiente. Ela mandaria os homens me pegarem, e me torturaria até o último suspiro. Eu tentei antes e quase morri pelas consequências.

“Eu não posso correr Joy. me desculpe.”

— Por que você estava na tenda do Alfa então? — Erika gritou.

— Eu... eu... não estava... fui designada para aquela tenda.

O chicote acertou meu ombro. Eu gritei e caí no chão. Erika veio até mim e segurou minhas pernas. Madame Theresa me chicoteou novamente. Dessa vez eu não gritei, meu corpo já estava acostumado com toda a punição que Madame Theresa e a filha me impunham. Ela me açoitou até se satisfazer e me deixou retorcendo no chão de dor.

— Amanhã cedo, você vai até a Mada, e vai dizer que quer mudar de serviço, ouviu? — Madame Theresa gritou para mim.

— Sim, Mada... — Eu mal conseguia falar. Costas queimando de dor, e eu rezava para a morte me levar. Se eu recebia esse golpe apenas por ter sido vista na tenda do Alfa, o que eles fariam comigo se descobrissem que eu fui a primeira garota que o Alfa Karim pediu para transar?

De todas as lobas, por que a deusa lua me escolheu como companheira do Alfa Karim? Ele era um líder, o Alfa, o mais alto posto, enquanto eu era uma Ômega, o posto mais baixo. Ele era o Alfa de todos os Alfas, nós não nos encaixávamos e jamais poderíamos ficar juntos. Eu não era digna da aceitação dele. As outras lobas que queriam transar com o Alfa ficariam furiosas se descobrissem que eu fui a primeira loba que o Alfa se interessou. Eu não queria isso, eu não queria ser notada.

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Acordei cedo na manhã seguinte, ao primeiro canto do galo. Levantei da minha pele de animal no chão e a dobrei, corri até o canto onde eu costumava tomar meu banho, e escovei os dentes. Não tomei banho porque minha pele ainda doía por causa das chibatadas que tinha recebido na noite anterior. Não me importava mais com a minha aparência, porque não havia necessidade. Madame Theresa e Erika queriam que eu permanecesse de forma mais feia possível.

Fui até a tenda onde eu guardava minhas poucas coisas e peguei um dos meus vestidos sem forma. Madame Theresa havia removido a faixa para que o vestido não desenhasse meu corpo de maneira alguma. Ele caía em mim como um manto sem forma, mas eu não me importava. Saí para fazer minha ronda matinal, esperando pacientemente que Madame Theresa e a assistente acordassem.

Quando o bando começou a ficar um pouco mais ocupado, fui até a tenda da Madame. Ela não estava lá, mas sua assistente estava sentada ali. Uma mulher de olhos encobertos que também odiava a minha presença.

— Saudações, — Eu a cumprimentei. Ela me olhou e não disse nada. — Uh... Eu estava pensando se eu poderia pedir uma mudança de serviço. — Ela se virou para mim, com os olhos perfurando a minha pele. Eu entendi que ela estava perguntando porquê eu estava fazendo tal pedido. — Eu... o Alfa não me quer, e ele quer me substituir. — Menti.

— Claro que ele não vai querer uma escória estúpida e Ômega perto dele. Vou contar para a Madame, pode sair com sua bunda fedida daqui.

Acenei com a cabeça e virei nos calcanhares, saindo do local. O sol estava se levantando a leste e os guerreiros estavam saindo para o treinamento. O sol da manhã banhava os músculos robustos dele e eles pareciam gigantes enquanto se formavam. Era a única coisa que faziam em suas vidas, dedicando-se à luta em um lugar isolado, sem prazer, apenas dor.

Meus olhos se fixaram no poderoso Alfa Karim enquanto ele saía de sua tenda. Ele era um homem enorme, com um corpo bem definido. Estava vestido com calças de pele e um cinto de armas amarrado na cintura. Seu peito estava nu, assim como os outros guerreiros, mas ele manteve o meu olhar. Haviam cicatrizes nas costas dele e tatuagens no peito direito que eu não conseguia entender. Já que eu sabia que ele era o Alfa, ele parecia ainda mais mortal e amedrontador.

Como se fosse uma ordem, ele virou-se e olhou na minha direção, nossos olhares se cruzaram, e eu rapidamente desviei o meu e apressei-me a sair. Meu coração começou a bater mais forte no peito novamente. Eu morreria de um infarto antes de qualquer coisa acontecer. Eu estava curiosa para saber o que se passava em sua mente.

Entrei na tenda dele, estava bagunçada. As armas estavam espalhadas pela tenda. Parecia que ele lutava uma guerra ali, pois calças diferentes estavam espalhadas pelo chão. Suspirei e comecei a mexer na tenda, pegando nos pertences dele e os arrumando. O Alfa Karim era descuidado. Fui até o outro cômodo onde ficava o banho dele. A água estava turva por causa do banho dele e eu teria que remover a água e substituí-la por uma limpa. Podia ouvir o Alfa gritando ordens para seus guerreiros e fui tomada por uma vontade repentina de espiar ele novamente, mas afastei o pensamento. Eu não queria mais drama.

A aba da tenda se abriu e Erika entrou com uma bandeja na mão. Os guerreiros não gostavam de ter pessoas nos espaços deles, a menos que você trabalhe para eles ou tenha permissão. Fiquei me perguntando porquê Erika estava na tenda do Alfa. Será que ela havia pedido permissão? Ele a deixou entrar? Ela me olhou com raiva.

— O que você está fazendo aqui? — Ela perguntou.

— Eu... trabalho aqui.

— Eu disse para você ir até a Madame hoje.

— Eu fui, mas...

— Coloque essa bandeja na mesa e saia imediatamente. Não quero ver você perto do Alfa, ele é meu futuro companheiro. Não quero que você o enfeitice.

— Mas ainda não terminei o trabalho...

— Eu faço o resto. Sai daqui!

Peguei na bandeja de comida dela e a coloquei na mesa de madeira na sala do Alfa. Erika não fazia nada na tenda da mãe, eu fazia tudo e fiquei surpresa, quando notei que ela queria trabalhar na tenda do Alfa. Meu coração afundou um pouco com o que ela disse. Eu sabia que não era digna de esforço algum, porque o Alfa Karim me rejeitaria, e Erika era bonita e graciosa. O Alfa ficaria encantado pela beleza dela e preferiria estar com a garota mais bonita da alcateia, filha do ex-Beta, do que com uma Ômega fraca e amaldiçoada como eu, que nem era do clã deles.
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