Capítulo 0003
Agora todas as peças se encaixavam. Lúcia era capaz de tudo, até de usar a suposta "morte" da própria mãe como arma para me incriminar.

Toda aquela trama não passava de uma armadilha meticulosamente engendrada.

Digitei rapidamente para Roberto: [A mãe de Lúcia está viva. A prova está no e-mail que acabei de te enviar.]

Se ele leria ou não, isso já não me dizia respeito.

Minha passagem estava marcada para daqui a três dias, tudo organizado por Ricardo.

Quando Roberto chegou em casa, me encontrou no meio das malas abertas.

Metade do guarda-roupa já estava doado, o restante seguia para a Cidade do Sul em caixas seladas. — Que história é essa de arrumar coisas dessa hora? — Indagou ele, franzindo a testa num misto de desconfiança e irritação.

Respondi com frieza, colhendo meus documentos da mesa:

— Estou me mudando.

Ele ficou imóvel por um instante, como se precisasse decifrar um código oculto, antes de retomar: — Faz sentido. A matriz da sua família fica na Cidade do Sul. Já que vamos nos estabelecer lá depois do casamento, adiantar a mudança é prudente.

Seus olhos se estreitaram então, me perfurando com um olhar de promotor.

— Quanto ao incidente com a mãe de Lúcia, resolva isso logo. Não me coloque em posição delicada. Que tal um pedido de desculpas público durante a cerimônia?

Antes que eu replicasse, ele se virou para procurar a certidão de nascimento. Naquele dia era o dia do registro civil dele com Lúcia.

A noite se arrastou sem notícias de Roberto.

Ao desbloquear o celular, uma mensagem de Lúcia serpentou pela tela. Na foto, eles usavam pijamas combinando, deitados na mesma cama com sorrisos que me trespassavam o peito.

Fechei os olhos, sentindo o coração se contrair sob uma mão invisível. Respirei fundo, contando mentalmente até sete, e apaguei a tela.

A calmaria noturna durou pouco. A cada hora, novas notificações vibravam - vídeos dela e de Roberto em intimidades crescentes, cada cena mais crua que a anterior, me dilacerando por dentro.

Só ao amanhecer, a mensagem de Ricardo me arrancou daquele suplício.

[Sabrina, as flores desabrocharam. Você pode retornar quando desejar.]

Anexava nossa certidão de casamento e foto de peônias vermelhas em plena floração.

Congelei por um momento.

Eram as mesmas que lhe dei anos atrás, num gesto casual. Jamais imaginava que ele as cultivaria com tanto esmero até agora.

Uma onda quente invadiu meu peito. Digitei: [Ok.]

Desliguei o aparelho e retomei a organização dos documentos de trabalho.

Em algum instante imperceptível, Roberto retornou. Enquanto eu organizava alguns objetos pessoais, ele soltou com desprendimento:

— Vou passar uns dias na casa de Lúcia. Ela está afogada nos preparativos do casamento sozinha. Não chega atrasada na cerimônia, hein?

Continuou falando rápido, justificando que seria só para ajudar e que eu não devia complicar as coisas.

— Tudo bem, não vou aparecer. — Respondi mantendo os olhos baixos e a voz suave. Após o ocorrido na noite anterior, o último vestígio de afeto que nutria por ele se havia dissipado completamente.

Roberto observou minha expressão impassível e súbita frieza. Um calafrio inexplicável percorreu seu corpo. Hesitou por um segundo, mas quando lembrou da doçura e devoção de Lúcia, os dedos que apertavam o celular relaxaram levemente.

— Sabrina me ama demais. O que poderia acontecer? — Ele murmurou tentando se convencer. Sem insistir, se virou e partiu.

Acompanhei sua silhueta se distanciando até virar esquina. Com gesto preciso, comecei a discar um número.

Naquela noite, sob o manto estrelado, um helicóptero pousou silencioso na praça deserta. Um homem de terno impecável se aproximou curvando levemente a cabeça.

— Srta. Sabrina, sua aeronave está pronta. Em trinta minutos estará segura na Cidade do Sul.

Assenti secamente e estendi minha pasta de couro, ordenando:

— Amanhã, entregue pessoalmente no local do casamento. É meu presente nupcial para o noivo e sua amada.
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