Capítulo 0002
Eu empurrei a porta e entrei. Quando Pedro me viu, parecia um pouco surpreso, franzindo a testa com intensidade.

— O que você está fazendo aqui? Ou será que está me seguindo? — Ele perguntou, desconfiado.

Levantei o celular e fiz um gesto para ele, dizendo:

— Foi você quem me mandou mensagens.

Helena, fazendo um bico e puxando o braço dele em um gesto de carinho, disse:

— Presidente Pedro, eu só estava brincando, pedi para a Daniela trazer o iogurte. Você não vai brigar comigo, vai?

A testa de Pedro, que estava tão franzida, relaxou um pouco.

O mais estranho de tudo foi que, ao ver Helena me provocando e Pedro aceitando tudo com tanta indulgência, não senti nada. Não senti aquela angústia habitual, aquela sensação de desespero. Fiquei calma, apenas acenei com a cabeça, como se dissesse que estava entendendo tudo.

Pedro, por sua vez, parecia querer explicar.

— Daniela, a Helena só estava comigo em um evento...

Interrompi a explicação dele, estendendo o iogurte que eu havia trazido para ele.

Pedro havia bebido, então não podia dirigir.

Depois de cuidar de Helena, ele me acompanhou de volta.

O táxi já estava do outro lado da rua.

Quando comecei a andar na direção dele, Pedro esticou a mão e me puxou. Só então percebi que um carro passou a toda velocidade, quase me atingindo.

Se não fosse por ele, eu teria me machucado.

— Você não sabe nem olhar para os carros enquanto anda? — Pedro reclamou, com um tom apressado, apertando minha mão com força.

Por um momento, veio-me à memória a sensação de antes, quando atravessávamos a rua. Ele sempre segurava minha mão.

Eu parecia ter perdido essa lembrança há tanto tempo que, agora, me senti estranha, quase desconfortável com o gesto.

Felizmente, ao cruzarmos a rua, eu silenciosamente puxei minha mão de volta.

Na manhã seguinte, enquanto eu arrumava minhas coisas para ir ao trabalho, Pedro se ofereceu para me levar.

— Eu te levo, vai ser mais rápido.

Ontem, por causa dele, acabei dormindo tarde, e agora não daria tempo de pegar o metrô. Não queria ser difícil, então decidi aceitar a oferta e entrar no carro.

Abri a porta do banco do passageiro e fui tomada por um cheiro doce, tipicamente feminino, no ar.

O estofado do banco era rosa, e havia um travesseiro fofo decorando o assento.

Na frente, havia um adesivo fofo com os dizeres [Assento da Helena], quase como se o lugar fosse uma propriedade exclusiva dela.

Sempre tão rigoroso e respeitado no setor, Pedro agora permitia que pequenas coisas tão fofas e infantis ocupassem seu carro. Era, de fato, irônico.

Uma leve expressão de desconforto apareceu no rosto de Pedro, e ele tentou explicar:

— A Helena é só uma criança, não leve isso a sério.

“Ela é uma criança que tiraria fotos de casal com você, é?”

Essa frase quase escapou dos meus lábios, mas eu me contive. Afinal, Pedro havia postado no Twitter, no dia seguinte à nossa solicitação de divórcio, uma foto de casal e a legenda [Registrando cada um dos seus momentos tímidos.]

Era uma vingança por eu ter pedido o divórcio ou algo mais? Não importava. O que realmente importava era que, no fundo, em lugares que eu não podia ver, o coração dele já havia se desviado de mim.

Com um sorriso forçado, dirigi-me para o banco de trás e disse:

— Vou sentar atrás.

— Você não tomou café da manhã, né?

Pedro parecia querer quebrar o silêncio constrangedor e, então, me ofereceu uma garrafinha de leite.

Olhei para acima, onde havia uma caixa de snacks, cheia de diferentes biscoitos e bebidas.

Lembrei-me então de que Pedro tinha uma obsessão por limpeza e não permitia que ninguém comesse em seu carro.

Lembrei de uma vez, no início do nosso relacionamento, quando passei mal e tive uma queda de pressão no carro dele. Meus lábios estavam brancos, minha visão turva, e eu mal conseguia falar, sem forças nem para pedir um gole de água. Mesmo naquela situação, ele me negou a bebida.

Agora, Helena podia desfrutar desse tipo de indulgência sem problemas.

A diferença entre ser amada e não ser mais amada nunca foi tão clara.

Eu balancei a cabeça, recusando educadamente, e virei meu olhar para o movimento das ruas fora da janela.

Felizmente, logo chegamos à empresa, e eu fui direto para meu posto de trabalho.

De acordo com a lógica, eu deveria pedir demissão, já que Pedro e eu estávamos prestes a nos divorciar.

Porém, ainda estava responsável por dois projetos, e como sempre, sentia que precisava concluir tudo antes de ir embora.

A manhã e a tarde foram intensas, e com a falta de sono, minha energia estava bem baixa.

Quando finalmente me preparei para pegar a xícara e preparar um café, uma grande caixa de bolos foi entregue à empresa.

Logo, os colegas começaram a gritar e a comemorar.

— Dizem que foi o chefe quem trouxe os doces! Ele está sendo muito generoso!

— Ah, você não sabe de nada! É só porque a Helena está fazendo dieta, e o chefe deve estar com pena dela. Ele comprou os doces para ela e, de quebra, nos convidou também. Só estamos comendo porque a Helena pode!
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