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Com suavidade, pediu para Sabrina descansar mais cedo, quando minha mãe ouviu a ligação do meu irmão.

— Fabiano, quando você vai terminar sua viagem de negócios? Sua irmã está esperando você para assistir à competição dela! — Antes que meu irmão pudesse responder, minha mãe rapidamente interrompeu.

No dia em que fui trazida de volta para casa, meus pais estavam lá, tentando consolar Sabrina, que chorava, mas foi só meu irmão quem me segurou pela mão e me trouxe para casa, dizendo para eu não ter medo.

A única sensação de calor que eu sentia em casa vinha de meu irmão.

Meu irmão ficou em silêncio do outro lado da linha e, surpreso, perguntou:

— É a competição de matemática da Lili? Não é só no mês que vem?

Minha mãe, irritada, o interrompeu:

— Lili, Lili, a Sabi é a sua irmã com quem você tem convivido por anos! Já te falei tantas vezes, a Lívia foi criada fora de casa, com tudo de ruim. Ela não merece ser parte da nossa família.

Meu irmão suspirou, como se não entendesse a hostilidade de minha mãe comigo.

— Mãe, às vezes não ouça só a Sabi. A Lili é boa e esforçada, se você se preocupar mais com ela, vai perceber isso. Acabei de ligar para a Lili, ela não atendeu, nem respondeu o WhatsApp que mandei esses dias. Ela não está em casa?

Minha mãe soltou uma risadinha fria e respondeu de forma indiferente:

— Ela tem pernas próprias, não posso prendê-la. Acho que deve estar por aí, se perdendo em suas loucuras. Amanhã é a competição de tênis da Sabi, se você não puder voltar, tudo bem.

Fez uma pausa e depois soltou uma ameaça dura:

— Diga à Lívia para parar de sumir e fazer drama. Se ela não for assistir ao jogo de tênis da Sabi amanhã, nunca mais volte. Aliás, a casa sem ela é bem melhor!

Sem se importar com as tentativas do meu irmão de me defender do outro lado da linha, ela encerrou a ligação friamente.

Justo quando meu pai estava voltando com a equipe, ao ver que minha mãe estava com uma expressão irritada, perguntou, confuso:

— O corpo está sendo difícil de lidar?

Minha mãe balançou a cabeça, reclamando:

— Sempre por causa da Lívia. Deve ter ligado para o Fabiano para reclamar de novo. Agora ele está com ela, fazendo essa brincadeira de desaparecer.

— Sabe o quanto estamos ocupados com o trabalho e ela ainda arruma essas encrencas, como pode ser tão irresponsável! Vou ligar agora mesmo para dar uma lição nela! — Meu pai, exasperado, respirou fundo.

Mas, por mais que ele tentasse, toda vez que ligava, recebia a resposta de que ninguém atendia no momento.

— Ingrata, é melhor ela nem voltar, só sabe me irritar quando chega em casa!

O perito, que estava ouvindo tudo, comentou, pensativo:

— Quando a Lili foi sequestrada, vocês dois passaram um ano procurando por ela. Agora, quando a encontraram, parece que ela virou uma inimiga.

Não consegui evitar pressionar os lábios, e um gosto amargo surgiu em minha boca.

Por que fui eu, essa menina sem educação, tímida e sem noção, que foi trazida de volta.

Quando fui trazida de volta aos quinze anos, na sala de estar luxuosa, meus pais estavam abraçando a Sabrina, que soluçava, tentando consolá-la pacientemente.

Eu estava usando roupas remendadas, e, envergonhada, baixava a cabeça, observando o sapato de borracha, que mostrava um dedo do pé.

Quando Sabrina me viu, parou de chorar e, com um sorriso falso, perguntou:

— Quem é essa mendiga?

Os rostos dos meus pais instantaneamente ficaram sérios, mas não era por causa da Sabrina.

Era por causa de mim, a filha que não se encaixava nos sonhos deles.

— Rodrigo, Patrícia, eu verifiquei os registros, não houve nenhum boletim de ocorrência sobre desaparecimento nos últimos dias. — O policial se aproximou com os registros em mãos.

— Uma filha desaparecida, e a família nem percebeu, será que a relação com a família não é boa?

— Será que existe mesmo esse tipo de pais? Não se importam nem um pouco com a filha!

Ao ouvir as conversas ao redor, não pude evitar sentir uma tristeza profunda.

Estava envolta em uma dor pesada, que me sufocava e me deixava sem fôlego.

Meus pais sentiriam pena dos pais da falecida por não terem feito o boletim de ocorrência a tempo. Mas nunca pararam para pensar se eu estava segura nos dias em que estive desaparecida.

Quando fui sequestrada, meus pais deixaram até o trabalho de lado para me procurar, mas agora, eles duvidavam que o meu desaparecimento fosse apenas uma forma de chamar a atenção deles.

Talvez, desde o começo, eu não devesse ter voltado para a família Amorim.

Aquela era a família da Sabrina, não a minha.

Os anos em que meus pais mais se importaram comigo já haviam sido tomados pela Sabrina.

O carinho e o amor que deveriam ter sido meus jamais se voltariam para mim novamente.
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