Ana Kelly Narrando A brisa geladinha da madrugada batia no meu corpo nu, mas eu não sentia frio. Tava ali, deitada em cima do peito do Anthony, ouvindo o coração dele batendo forte, ainda acelerado, como se não quisesse sossegar depois de tudo que a gente viveu naquela varanda. Meus dedos faziam carinho nos pêlos do peito dele, e os dele traçavam minha coluna devagarzinho, como quem queria guardar cada pedacinho de mim na memória da ponta dos dedos.Era paz. Daquele tipo que a gente só encontra depois da tempestade, depois da entrega, depois da certeza de que ali... a gente tava onde devia estar.Eu levantei, coloquei o short e fui até a mesa, peguei a macarronada e o suco na geladeira, e voltei pro sofá. — Tô com sono — murmurei, num bocejo arrastado.— Dorme, amor — ele respondeu, a voz já arrastada também, o braço apertando minha cintura.A gente acabou pegando no sono ali mesmo, no sofá da varanda, sem lençol, sem travesseiro, só o calor do outro como abrigo. O corpo cansado, a
Anthony NarrandoO volante tremia sob minhas mãos suadas. Cada curva era um risco, cada farol, uma roleta. A cidade parecia mais viva do que nunca — viva e perigosa. A sirene distante me deixava em alerta, mesmo que não fosse pra gente. Não dava mais pra confiar em nada.Marlon tava no banco do carona, pálido, pressionando a mão ensanguentada contra o abdômen. Atrás, ela tremia calada, com a arma ainda entre os dedos. O mundo dela tinha virado do avesso. O nosso também.— Fica comigo, irmão — falei, jogando o carro num atalho. — Não dorme, não.— Tô aqui... só sentindo a vida me deixando aos pouquinhos — ele riu fraco, com aquele humor desgraçado de quem já viu a morte de perto demais.Peguei o celular. Não chamou nem duas vezes, como se eles já estivesse esperando.Ligação On— Estevão, escuta... — falei firme. — Tentaram apagar eu e a Ana. A casa foi invadida no meio da madrugada. Preciso que tirem a Josefa e a avó da Ana Kelly do hospital. Agora. Se não der, manda reforço. Mas ning
Sr Carter Narrando Sempre tive faro pra quando algo foge do controle. Foram anos construindo um império, anos aprendendo a ouvir os silêncios, a interpretar os passos, a entender o não dito. E ultimamente… algo estava fora do lugar.Primeiro, pequenos sinais: movimentações atípicas, ligações que pararam de chegar, olhares desviados dentro da própria empresa. Depois, começaram as ameaças veladas, os sussurros nos bastidores. Gente rondando prédios, câmeras que estranhamente paravam de funcionar, e aquela velha movimentação dos amigos da polícia — os mesmos que prestam “serviços especiais” pra empresa quando o negócio exige. Quando esses caras voltam a circular, é porque tem sujeira no ar.E aí veio o Anthony.Meu filho sempre foi mulherengo. Nunca me incomodei com isso — desde que soubesse separar vida pessoal da profissional. Ele sempre foi cuidadoso. Gostava das secretárias novinhas, das sem complicação, nunca cruzava a linha com alguém do alto escalão ou com mulher de sócio. Mas de
Vinícius Narrando A tranca da solitária abriu com um estalo seco. Dois agentes me puxaram pelos braços. Eu tava acostumado com isso, mas hoje tinha algo estranho no ar. Um clima pesado. Não era ronda, não era castigo. Era coisa séria.— Levanta, Vinícius. Tem visita. — um deles falou, com um tom meio tenso demais.— Visita? Aqui? Cês tão de sacanagëm. — ri, mas levantei. — Que foi? Meu fã-clube mandou presente?Me empurraram pelos corredores do presídio, onde o mofo e o ódio se misturam no ar. Quando virei a última curva, parei seco. A figura de um homem de terno escuro, postura de quem manda no mundo, me encarava como se já tivesse cavado meu túmulo. Ao lado dele, Pablo — o rato da farda, sempre servindo aos ricaços.Demorou dois segundos pro estalo vir na minha cabeça.— Tu é o Sr. Carter. — falei, ajeitando os ombros, com um sorrisinho torto no rosto. — Engraçado… já ouvi falar de você. Só não tinha ligado os pontos. Então o desgraçado do Anthony é teu filho? Aquele filho da putä
Anthony Narrando O silêncio do lugar já me dizia que tinha algo errado. Desde que a gente se escondeu aqui, eu não consegui os olhos para descansar, quem dirá dormir. O tempo inteiro alerta, com a mão próxima da arma, o ouvido treinado pra qualquer passo diferente no mato, no asfalto, no vento. O que me acalmava era a respiração da Ana ao meu lado.Ana Kelly dormia encolhida no meu peitø. O rosto dela parecia calmo, mas eu sabia que por dentro ela carregava a mesma tensão. A gente não tava em paz. A gente tava se protegendo.Meu celular vibrou em cima da mesa. Peguei rápido. Número restrito.Ligação On — Alô? — falei com uma pergunta. — Anthony? — A voz do outro lado chamou pelo meu nome.— Tô ouvindo. — Respondi seco, sem saber com quem estava falando.— Sou um dos homens do seu pai. Estamos chegando no perímetro. Quinze minutos. Fica pronto.A ligação caiu.Levantei devagar e bati de leve no ombro da Ana Kelly. Ela abriu os olhos, assustada, mas eu fui direto no olhar dela.— Amo
Ana Kelly Narrando A sala parecia mais fria do que realmente era. Não sei se é o ar-condicionado, se era o olhar desconfiado do Sr. Carter ou se é só o peso da minha própria história. Quando ele soltou aquela frase — “Na minha posição, preciso desconfiar de todo mundo” — eu fechei os olhos por alguns segundos, respirei fundo, e contei até dez.Claro que ele ia desconfiar. Eu não sou só uma mulher qualquer na vida do filho dele. Eu sou a mulher que apareceu do nada, e do nada a vida do Anthony virou de cabeça pra baixo.— Eu entendo — murmurei, tentando controlar a vontade de me levantar e ir embora dali. — O senhor tem razão em proteger o que é seu. Mas a minha consciência tá limpa. E quem não deve, não teme.Voltei a me sentar ao lado do Anthony. Se fosse em outro tempo, eu teria preferido manter distância, mas agora… agora eu precisava estar do lado de quem me escolheu, mesmo com o mundo querendo me arrancar dele.Anthony passou a mão no meu joelho de leve. Como se dissesse “estou
Estevão NarrandoQuando recebi aquela mensagem do Anthony, o coração quase saiu pela boca. “Tira a vó da Ana do hospital agora. A coisa vai azedar”. Não era o tipo de recado que ele mandava sem motivo. E quando o Anthony ficava tenso… é porque o inferno já tava se abrindo.Foram segundos. Liguei direto pros seguranças que tavam de plantão perto do hospital. “Peguem a idosa. Sigam o plano de evacuação. Mandem localização em tempo real.” Assim que os vídeos começaram a chegar no meu celular, vi os homens do meu pai invadindo o hospital como se fosse uma operação militar. Zero erro. Rápidos, precisos. Uma parte entrou, outra cercou a saída. E quando vi que a vó da Ana tava segura dentro do carro blindado, respirei. Por cinco segundos, só cinco.Chegando no lugar seguro, uma das nossas casas de apoio na zona norte, encontrei a avó no sofá, pálida, claramente abalada com tudo. O rosto dela transparecia o cansaço de uma vida inteira, mas a preocupação com a idosa deixava tudo mais intenso.
Anthony Narrando Depois que meu pai saiu da sala, o silêncio tomou conta como se o ar tivesse ficado mais denso. Ana Kelly ainda tava ali, parada perto da janela, braços cruzados, o olhar perdido em algum ponto do horizonte. A luz do fim da tarde batia no rosto dela de um jeito quase poético. Mas não havia nada de leve naquela sala. Tudo era tensão, desconfiança, ferida exposta.Me aproximei devagar, como quem sabe que tá pisando em território sensível. E tava.— Você sabe que ele... ele não quis te machucar — comecei, a voz rouca, arranhada de tanta coisa que segurei por anos.Ela virou o rosto devagar, os olhos marejados, mas firmes.— Ele quis, sim. E você sabe disso, Anthony. Ele quis me testar. E doeu.— Eu sei... — suspirei fundo, enfiando as mãos nos bolsos, nervoso. — Mas ele é assim. Sempre foi. Ele confia em poucos e mesmo assim vive com um pé atrás. E agora, com tudo que tá rolando, ele não vai aliviar pra ninguém.— Nem pra mim, que nunca fiz nada — ela rebateu.— Justame